Acordei confusa. O despertador não tocou.
Tomei um banho rápido, vesti uma roupa simples — calça escura, blusa clara — e prendi o cabelo num rabo de cavalo baixo. Não queria parecer alguém que se esforça demais, nem alguém que não se esforça nada. Queria apenas parecer eu.
Quando o carro de aplicativo chegou, respirei fundo antes de entrar.
Encostei a testa no vidro da janela enquanto a cidade começava a acordar. Pessoas caminhavam apressadas, lojas subiam as portas de metal, ônibus passavam cheios.
O endereço que Elvira me passara ficava numa região que eu conhecia apenas de passagem. Quando o carro diminuiu a velocidade e encostou, demorei alguns segundos para entender o que estava vendo.
Não era uma escola comum. À minha frente erguia-se uma instituição de ensino imensa, ocupando praticamente uma quadra inteira. Muros claros, arborização cuidadosa, placas discretas, mas elegantes.
Desci do carro com a sensação de que talvez estivesse no lugar errado.
Aproximei-me do portão principal. Havia uma guarita com vidro fumê. Apertei o interfone e anunciei meu nome, dizendo que tinha horário marcado. O portão se abriu lentamente, com um leve rangido metálico que soou quase cerimonioso. Entrei.
O pátio interno era amplo, limpo, com árvores bem cuidadas e bancos de madeira espalhados.
Na recepção, uma mulher jovem me cumprimentou com um sorriso gentil e pediu que eu aguardasse. Sentei-me numa cadeira confortável, observando os detalhes.
Não esperei muito. Logo a recepcionista voltou e me conduziu por um corredor largo e bem iluminado até uma sala no fundo. Bateu levemente à porta, abriu e me fez sinal para entrar.
Assim que cruzei a soleira, vi a mulher que naquele momento iria decidir o meu destino.
— Marja? — ela perguntou, levantando-se da cadeira.
— Sim. Vim indicada por Elvira.
— Eu sou Elena. Como vai?
Elena era uma mulher na faixa dos quarenta anos. Talvez tivesse mais. Só que ela era bem cuidada. Pele maquiada e bem tratada. Tinha a pele morena, traços fortes e serenos.
Apertei a mão que ela me estendeu e, naquele gesto simples, senti uma segurança que há dias eu não sentia.
Sentamo-nos. Elena começou falando da instituição, da história do lugar, do trabalho desenvolvido ali.
Quando chegou a minha vez de falar, contei um pouco da minha formação, da pedagogia, das experiências anteriores. Falei da fazenda, sem entrar em detalhes demais. Falei de Cecília, do quanto aprendi cuidando de uma criança que se comunicava de outras formas, com o olhar, com o gesto, com o silêncio.
Em determinado momento, ela abriu meu currículo novamente e apontou para uma linha específica.
— Vejo aqui que você tem curso de Libras.
Assenti, sentindo o coração acelerar de novo.
— Fiz ainda na faculdade. Depois continuei estudando por conta própria. Sempre tive interesse.
Elena sorriu, um sorriso que chegou aos olhos.
— É muito necessário aqui.
Ela se levantou e caminhou até a janela, olhando o pátio por alguns segundos antes de voltar a se sentar.
— Marja, nós temos uma demanda grande com crianças especiais. Crianças que, muitas vezes, passaram por escolas onde ninguém falava a língua delas. Chegam aqui fechadas, assustadas. Precisamos de profissionais que não tenham apenas técnica, mas sensibilidade.
Meu coração batia tão forte que eu tinha medo de ela perceber.
— Eu acredito que você pode ser essa pessoa — ela continuou. — Claro que há um período de adaptação, de observação mútua. Mas, se você aceitar, gostaria que começasse conosco.
Por um instante, não consegui responder. As palavras ficaram presas na garganta. Eu, que na noite anterior me sentira tão perdida, tão descartável, agora estava ali, sendo vista, reconhecida, desejada.
— Eu aceito — consegui dizer, a voz um pouco trêmula.
Elena estendeu a mão novamente, dessa vez num gesto mais firme.
— Então, seja bem-vinda à equipe.
Aquele aperto de mão selou algo maior do que um contrato. Selou uma possibilidade de futuro.
Conversamos ainda sobre horários, salário, início das atividades. Quando me levantei para ir embora, Elena me acompanhou até a porta.
— Marja — ela disse antes que eu saísse —, aqui nós trabalhamos muito. Mas também cuidamos uns dos outros. Não se esqueça disso.
Assenti, emocionada demais para responder com palavras.
Ao sair da sala e caminhar novamente pelo pátio, senti algo diferente: a sensação de que, apesar de tudo o que eu tinha perdido, ainda havia caminhos se abrindo diante de mim.
***
Depois que saí da sala de Elena, parei no meio do pátio para respirar e foi quando vi uma garotinha de cabelos cacheados, volumosos, presos num rabo de cavalo. Ela estava sentada no chão desenhando com giz. Tinha a cabeça levemente inclinada para o lado, concentrada.
Me lembrei de Cecilia.
Cecília não tinha cachos tão definidos, mas tinha aquele mesmo jeito de se recolher dentro de si enquanto o mundo acontecia ao redor.
A menina levantou o rosto por um segundo e sorriu. Não para mim. Mas o sorriso me atravessou. E então eu lembrei do sonho que tivera na noite anterior.



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