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A Babá Perfeita romance Capítulo 63

Eu assisto em silêncio Judith e Javier brincarem com uma arma há alguns metros de distância.

- Isso é demais! Mi amore, eu sou demais!

Enquanto Judith tem as mãos na arma e os dedos segurando o gatilho, Javier envolve a morena por trás, mantendo as mãos sobre as dela.

Aproveitando a distração dos dois, eu tento me libertar da corda amarrada ao redor dos meus pulsos. O fato de os meus braços terem sido colocados para trás não ajuda nada. Meus músculos estão dormentes, os ombros doem. Além disso, nunca senti tanta sede na vida.

- Pow, pow - Judith finge atirar, com os olhos faiscando.

- Viu? É muito simples. Tudo o que você tem que fazer é respirar fundo e manter o controle - seu cúmplice explica. - Mantenha os olhos no alvo e use a outra mão para dar apoio.

- Pow, pow, pow - ela continua fingindo com a arma, vibrando a cada tiro falso. - É fácil. Você não acha que eu nasci para isso Javier? Para usar uma arma?

Liv entra no galpão. Através da porta de metal entreaberta, dá para ver as gotas de chuva contra o poste de iluminação do outro lado da rua.

- Vamos, Javier. Está tudo pronto. Dixxie está esperando no local marcado.

Relutante, Javier escorrega lentamente as mãos pelos braços de Judith. Ele então a vira para si e os dois se olham nos olhos.

- Hasta luego, cariño.

- Hasta, mi amor - ela estremece, tocando o rosto dele com o polegar. - Cuídate.

O homem então vai ao encontro de Liv e os dois deixam o galpão rapidamente, fechando a porta atrás deles.

Eu suspiro, agoniada. Tudo que eu preciso é encontrar uma forma de me comunicar com Max, dizer a ele onde estamos. Dou uma espiada outra vez no meu celular. Está  no bolso de trás da calça de Judith, quase a metade do aparelho para fora. Se eu estivesse com as mãos desamarradas, poderia tentar pegá-lo discretamente.

Arriscado? Sim. Ainda assim, minha melhor chance.

- O que sua cabecinha impulsiva anda tramando, Chloe? - Judith se aproxima com os olhos grudados nos meus. - Aposto que é alguma burrice. Lembre-se do que Liv disse sobre as criancas.

- Não estou tramando nada - minto. - Só estou pensando em como você e Javier se conheceram, só isso.

- E por que?

- Pura curiosidade - digo, tentando ganhar tempo para pensar em alguma coisa. Preciso dar um jeito de pegar o aparelho  de volta. - Vocês se conheceram aqui, nos Estados Unidos?

- Não.

- No México então?

- Sim, isso já faz muito tempo.

- Quanto tempo?

Judith revira os olhos.

- Por que quer saber? Que diferença faz?

- Eatou assustada e quero falar sobre alguma coisa, qualquer coisa - digo, arregalando mais os olhos. - Por favor?

A expressão de desconfiança de Judith se desfaz.

- Isso faz todo o sentido. Tudo bem, por onde começo? - ela respira fundo - Ah sim. Eu soube que estava apaixonada por Javier desde que o vi pela primeira vez. Estava indo visitar um amigo na prisão e Javier  tinha pego seis anos por tráfico. Nós trocamos muitas cartas antes disso, é claro. Quando ele saiu, ficamos juntos e não nos separamos mais.

- Você também já foi presa?

Ela balança a cabeça negativamente.

- Nunca e não vai ser a minha primeira vez agora. Prefiro morrer do que estar em um lugar como aquele, Chloe. É um inferno. Faz você querer estar dentro de um formigueiro coberta de mel até os olhos. Mesmo quando Javier e eu já estávamos namorando, eu preferia falar com ele pelas cartas.

Ela se vira de lado e eu tenho um novo vislumbre do meu celular. O bolso é justo demais e ele está quase caindo. Quando isso acontecer, Judith vai pegá-lo de volta e ficar mais atenta.

Minha respiração acelera. Minha cabeça está trabalhando rápido, mas não tão rápido quanto o tempo correndo contra mim no relógio. Eu penso em Max, em Liv e em Dixxie. Penso no encontro dos três e no que pode estar acontecendo bem agora. Será que Max levou o dinheiro? Será que ele teve coragem de sacrificar o futuro das meninas e a sua promessa?

Os olhos de Evie se direcionam para o bolso de Judith e eu sei que ela também viu o que eu vi e está pensando o mesmo que eu.

Evie nega com a cabeça lentamente, a expressão alarmada. Seus olhos refletem o mesmo medo que eu sinto. E a mesma pergunta silenciosa que ressoa dentro da minha cabeça: se pegarmos o celular,  se realmente conseguirmos, ainda assim como vamos ligar para Max sem que Judith perceba?

Judith chega perto outra vez, cola o rosto no meu e sussurra no meu ouvido:

- Você já sentiu um amor assim maior do que tudo, Chloezita? Capaz de mover céu e inferno? Eu queria Javier, precisava dele. Precisava daquele homem como de ar para respirar. Eu não poderia esperar mais quatro anos. Não poderia deixá-lo apodrecer naquele lugar. Então conheci Liv e ela prometeu que me ajudaria se eu também pudesse ajudá-la.

- O que ela fez?

Judith recua um pouco, com um gemido baixo de felicidade.

- Ela conseguiu um bom advogado e pagou uma fiança.

- Então trouxe vocês para cá - eu suspiro, atordoada. - Quanto trabalho para conseguir dois capangas. Isso não soa estranho para você?

- Ela estava morando no México na época - a morena dá de ombros. - Foi uma solução óbvia. Além disso, é claro que o Sr Lancaster checaria os antecedentes dos seus empregados antes de admiti-los.

- Mas não iria tão longe assim para procurar por uma ficha criminal- eu concluo, pasma. - Por isso ela trouxe vocês de lá. Um traficante mexicano pequeno e a namorada dele sem antecedentes.

Os dentes dela parecem presas quando sorri outra vez.

- Para uma garota estúpida, você tem seus momentos.

Eu pisco algumas vezes, aturdida. A raiva velada em Judith me surpreende.

- Por que me considera tão pouco, Judith? Eu nunca tratei você mal, tratei?

Ela bate os cílios, coçando o queixo e simulando uma expressão pensativa.

- Bom, vamos lá. Você caiu em tantas armadilhas, Chloezita, que qualquer simpatia que eu pudesse ter por você acabou virando fumaça.

- Como assim?

- Você me deixou manipular você o tempo todo, não vê? Você e aquela velha burra.

- Abigail?

Ela balança a cabeça várias vezes, concordando com impaciência.

- Tão fáceis de controlar como bonequinhos de ventríloquo! - exclama - Por que você acha que fiquei ao seu lado quando começou a ter um caso com o Lancaster? Por que acha de Abigail acabou aceitando vocês dois e parando de colocar minhocas na sua cabeça, aquela velha enxerida?

- O que foi que você fez?

- Não. Você é? - digo sem vacilar.

- Está falando de Javier? - ela esboça um sorriso. - Com toda a minha alma. Javier e eu fomos feitos um para o outro.

- Não duvido.

Ela torce o nariz. Se aproxima devagar  ainda com a arma em punho. Meu coração acelera quando o cano encosta na minha tempora.

Maisy se contorce no chão com um murmúrio e Evie puxa o rosto da irmã contra o  peito para que ela não veja mais nada. Faz um sinal negativo com a cabeça para mim. Está apavorada. Não quer que eu provoque Judith.

Evie soube muito antes de mim do que a morena era capaz. Foi mantida refém por muito tempo e muito antes de sermos levadas para aquele galpão imundo e escuro. Além de um amor infinito e inexplicável, o que eu sinto por ela agora também é uma enorme compaixão. Lembro de todas as vezes em que a vi brincando com Maisy, lendo contos de fadas para a irmã. Aquele não era só o carinho típico de uma irmã mais velha. Era alguém lutando para manter a própria sanidade e a segurança da pessoa que mais amava.

- Evie - eu chamo, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.- Alguma vez, Judith deu a você algum dos seus remédios?

Ela pisca algumas vezes até entender.

- Para eu ficar mais calma - ela confirma e as lágrimas descem pelo meu rosto, silenciosas. - Mas elas me davam muito sono. E minha cabeça doía tão forte depois - Evie leva as mãos aos cabelos curtos.

Judith abaixa a arma e caminha até as meninas, agarrando Maisy pela blusa e arrastando a menina pelo chão para longe da irmã. Maisy se debate, enquanto Evie grita e chora descontroladamente.

- Já chega- eu imploro, engasgada. - Não separe as duas, Judith. Você não precisa. Eu vou parar de perguntar, eu prometo. Por favor, não faça isso. Tenha um pouco de hunanidade.

- Cala a boquinha, Chloe - ela se irrita. - Você é um pé no saco. Eu gostaria que o Dixxie tivesse arrumado alguém mais divertida. Não era para ser você, sabia?

- O que? Do que você está falando?

- A pata não era para ser você. Era sua amiguinha, Mallory. Mas ela era puta demais para se passar por uma doce e inocente babá. Então falou para o Dixxie que conhecia a garota perfeita. Burra, virgem, destrambelhada... insistente ao ponto de ser irritante. Uma idiota que se achava invencível, boa demais, perfeita demais. E, que além disso, seu pai trabalhava para o Lancaster e era amigo da gvernanta - ela sorri com escárnio. - Você era simplesmente perfeita para o papel, Chloe, não poderia ser melhor. Convencer Abigail a contratar uma babá também não foi difícil. Essas duas pestes dão mesmo muito trabalho- ela olha para as meninas com antipatia.

Uma onda de náusea me envolve, quando as peças finalmente se encaixam. Mallory. Liv. Judith. Dixxie. O tempo todo eu fui manipulada, enganada, envolvida naquele  esquema sujo contra os Lancaster. Me fizeram suspeitar de Abigail. Me colocaram contra Evie.

Em que outras mentiras eu acreditei? Quantas vezes mais fiz papel de idiota? Meu pai tinha razão, sempre teve. Minha impulsividade acabou me levando por caminhos perigosos. E agora eu não era mais capaz de voltar por onde tinha vindo.

- Você disse que o Max cancelou a noite das garotas...  - sussuro.

- E você acreditou, claro - Judith suspira, coçando a cabeça com o cano da arma. - Eu sempre soube que você era uma vadiazinha imprestável. Sabe, Chloe, foi um prazer ferrar com você, finalmente.

- Por que? Eu nunca fiz nada contra você.

- Eu era só a maldita empregada para tirar você dos momentos de tédio, sua vaca - ela rosna.

Uma camada fina de suor brota na minha pele. Judith é louca e esta fora de controle. Evie tinha razão. Provocá-la é o mesmo que brincar com uma arma carregada, como ela está fazendo agora.

- Me desculpe, Judith. Não foi minha intenção- eu fecho os olhos, controlando um tremor. - Eu só queria ser sua amiga. Me desculpe se fui ausente ou...

- Cala a boca - ela vem andando até mim outra vez. - Não estou falando isso para que você se sinta especial. Não me leve a mal, Chloe. No final das contas, é pelo dinheiro, sempre foi pelo dinheiro. Ainda que gostasse de você, por cem mil, eu cavaria um buraco e te enterraria viva. Vocês três.

Eu olho para as meninas encolhidas e tenho vontade de gritar até meus pulmões explodirem.

- É isso o que vão fazer? Quando tudo isso acabar, vocês vão nos matar?

O olhar de Judith se torna mais sombrio.

Ela não responde. Pega o seu celular, no bolso da jaqueta, e faz uma ligação, enquanto eu espero, ciente de que as nossas vidas podem estar por um fio.

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