Sophia me olha por um segundo, deixando claro que não vai recuar agora. Ela nunca recua.
— Tenho — responde, firme. — Prefiro lidar com a verdade do que ficar inventando versões na minha cabeça.
— Quando falo que eu não podia misturar as coisas… — começo, devagar. — É porque a última vez que fiz isso… não terminou bem.
Engulo seco, desviando o olhar por um instante, quase arrependido de ter tocado no assunto.
— Porque achei que conseguia controlar, que dava para fazer as duas coisas. Proteger… e me envolver. — Balanço a cabeça, lembrando de coisas que prefiro esquecer. — Não deu.
Ela não fala, não pressiona, só espera.
— Eu falhei, Sophia — digo, por fim. — E quando você trabalha com esse tipo de coisa… falhar não é uma opção. Porque alguém paga por isso.
— E quem pagou? — pergunta, com cuidado. — Qual foi a consequência?
Solto o ar devagar, ficando em silêncio por mais um momento, porque há anos não coloco isso em palavras para ninguém.
— Há alguns anos, tive uma protegida. Lydia Harmon. Filha de um senador — paro, escolhendo as palavras. — Era meu segundo ano na área. Eu achava que sabia o que estava fazendo.
— E não sabia?
— Sabia o suficiente para ser bom no trabalho — respondo, olhando para as minhas mãos. — Não para reconhecer quando se cruza uma linha que não devia cruzar.
Passo a mão pela nuca, sentindo o peso da memória voltar mais forte do que eu gostaria.
— Não planejava me envolver com ela, mas aconteceu sem que nenhum de nós percebesse. E, por um tempo, achei que conseguia separar o trabalho do… resto.
— Mas não conseguiu — ela diz, baixinho.
— Não. Houve uma tarde em que a ameaça se materializou de um jeito que não antecipei. Porque eu estava… distraído com algo com o qual não deveria estar.
Fecho os olhos por um segundo, lembrando.
— Eu deveria estar no posto — continuo, com a voz mais baixa agora. — Deveria estar revisando as câmeras, acompanhando o movimento do perímetro. Era o básico. O tipo de coisa que eu nunca negligencio.
Abro os olhos e encaro o chão, sem realmente ver.
— Mas eu não estava. Estava com ela. Então, quando o ataque veio, não tive tempo de reagir como deveria. Não porque eu não sabia o que fazer… mas porque eu não estava onde precisava estar.
Passo a mão pelo rosto, devagar.
— Consegui conter. Neutralizar. Resolver — completo, seco. — Mas não antes de ela se machucar.
Ela arqueia as sobrancelhas, prendendo o ar.
— Lydia sobreviveu — acrescento, antes que qualquer conclusão se forme. — Mas isso não muda o fato de que foi por minha causa. Eu sabia do risco… e ignorei.
O silêncio se instala, não de um jeito desconfortável, mas denso demais.
Sophia me observa por alguns segundos, como se estivesse reorganizando tudo que achava que sabia sobre mim.
Os olhos dela não têm julgamento, só compreensão. E isso é pior. Porque não tem nada para eu rebater.
Ela desvia o olhar por um instante, respirando fundo, e eu espero, sem saber exatamente o quê.
— Então não é pelo controle — diz, devagar. — É pela consequência.

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