O rosto do meu pai surgiu como um lembrete da minha incapacidade de resolver toda aquela situação.
Olhei para ele sem entender direito o que ele estava tentando fazer, mas a resposta surgiu em um tom forte e imponente.
— Sente-se! Minha filha é a nova Presidente do Grupo Blanc e quem não estiver satisfeito com isso poderá assinar esse memorando que será enviado a todos os sócios.
Um dos homens parecia impaciente com tudo aquilo. Acabou puxando a pasta de couro que meu pai ofereceu.
Abriu com certa brutalidade, mas paralisou em seguida.
— Que tipo de pegadinha é essa? Aqui diz que ao sairmos do grupo Blanc somos obrigados a ficarmos longe de negócios parecidos por cinco anos!
— Nada que vocês já não tivessem assinado quando aceitaram o cargo no conselho de acionistas e a remuneração substancialmente gorda pela prestação desses serviços de merda. Quer ou não assinar e sair daqui?
Eu não reconhecia Antônio. Meu pai não era aquele homem.
Mas no fundo eu tinha certeza de que aquele era o verdadeiro, o monstro que só procurava por dinheiro e nada além disso.
Olhei para a situação e escolhi não intervir. Deixei Antônio acreditar que estava no controle de tudo. Afinal esse era o plano de Noah.
Aos poucos meu pai tomou conta de tudo como se sempre tivesse estado à frente dos negócios da família Blanc.
A reunião foi caótica, mas ao mesmo tempo, completamente controlada por Antônio. Nada parecia fugir ao controle dele.
Quando finalmente todos os conselheiros deixaram a sala e saíram cabisbaixos.
Meu pai finalmente olhou para mim.
— Aurora, querida. Precisamos conversar.
— Não tenho nada o que conversar com você. Sei que matou o meu marido, que está por trás do atentado.
Eu joguei as palavras apesar da forma como aquilo doía em mim. Minha mente me traiu, comecei a imaginar que Noah estava sozinho, que talvez estivesse com dor, que precisasse de mim… e tudo isso fez com que eu parasse por alguns segundos.
Nada imenso, mas o bastante para que Antônio percebesse minha angústia.
— Filha…
Não deixei que Antônio terminasse de falar.
Fixei os olhos no pequeno ponto brilhante, respirei fundo e segui com o que Noah havia previsto.
— Eu te odeio! Noah salvou a sua vida, seu verme.
Aquele ponto vinha de mim, algo que eu gostaria de ter falado para Antônio há muito tempo, mas o que recebi foi muito diferente do que eu imaginava.
— Salvou? Então você não sabe que tudo aquilo foi armação de Noah Blanc para te controlar? Eu nunca estive doente, Aurora. Não de verdade.
— Quê? Como assim? Você foi parar em um hospital público. Noah te tirou de lá.
Eu conhecia os fatos, mas senti o sangue desaparecer das minhas veias, minha barriga contraiu de tal forma que quase vomitei.
Meu pai continuou com uma certeza horrenda e o olhar firme.
— Noah mandou que me drogassem, fui parar no hospital e lá eles controlaram todos os detalhes para que a narrativa de problema cardíaco se mantivesse. Lembra? Eu fiquei isolado, não pude conversar com você, ele não permitiu, Aurora. Noah não era o homem que você acha que conhece.
Meu corpo inteiro começou a tremer.

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