Meu pai, o homem à minha frente deveria ser isso, mas agora eu já não tinha certeza de nada. Ele estava medindo as palavras, tentando torná-las doces. Isso eu reconhecia.
Mas também tinha aprendido com Noah que homens poderosos não pensam no que estão falando por medo e sim por estratégia.
Cada silêncio do meu pai tinha intenção.
— Não entendi.
Realmente não tinha compreendido, mas naquele dia eu descobri que a serpente no Jardim do Éden também era capaz de falar a verdade. Ela era o mal e ao mesmo tempo a fonte de informação que deveria ser usada e não seguida.
O escritório já não parecia tão grande como quando eu cheguei, agora a presença de Noah já não estava no ponto brilhante, nem na madeira imponente. O cheiro dele ainda estava nas paredes, nas roupas guardadas, no vapor que tinha ficado preso na minha pele depois do banho, mas a presença do meu pai contaminava tudo.
Antônio passou a mão no rosto, contornou o próprio maxilar com a ponta dos dedos e então recomeçou.
— Quando Solange entrou naquela casa ela não queria só tomar o lugar da sua mãe. Queria tudo. Dinheiro, posição, sobrenome, poder. E descobriu rápido que Isabella era mais difícil de destruir do que parecia.
— Minha mãe estava dopada…
— Ainda assim era amada.
A resposta veio objetiva, mas odiosamente mentirosa. Amar alguém que você envenena é absurdo, mas o pior foi ouvir Antônio confessar que sempre soube de tudo. Ele nem mesmo ficou surpreso com a minha fala.
— Sua mãe tinha o carinho dos funcionários, dos amigos da família e dos investidores antigos. Isabella era vista como uma mulher elegante, educada e uma boa esposa. Solange nunca conseguiria ocupar aquele lugar apenas virando amante.
Senti um novo enjoo, minha pele arrepiou e meu ódio por aquele verme asqueroso triplicou.
— Então ela enlouqueceu minha mãe.
Meu pai ergueu o queixo um pouco mais.
— Sim.
A confirmação me atingiu diferente daquela vez.
Porque agora eu conseguia visualizar.
Conseguia imaginar Solange caminhando pela casa com vestidos simples e postura humilde enquanto destruía minha mãe aos poucos.
— E você deixou.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Eu era um homem fraco.
— Não. Homens fracos fogem. Você participou.
Antônio aceitou a agressão sem reagir.
— Talvez.
Aquilo me irritou mais do que se ele tivesse gritado.
— E eu? O que eu era naquela casa?
Meu pai demorou para responder.
— Um problema. Você sempre foi tão linda, Aurora. eu não queria, mas quando você saia do banho, quando pulava no meu colo.
O oxigênio ficou preso no meu peito.
— Quê?
— Você era filha da Isabella. Parecia com ela. Falava como ela. Até os empregados antigos gostavam mais de você do que da Suzanna.
— Suzanna era sua filha também.
— E Solange nunca aceitou dividir espaço.
Aquilo explicava muita coisa.
A competição.
A forma como Suzanna me olhava como se eu tivesse roubado alguma coisa dela apenas por existir.
Mas ainda havia algo pior escondido naquela conversa.
— O que isso tem a ver comigo?
Antônio respirou fundo antes de responder.
— Solange começou a dizer que você precisava aprender obediência.
Meu corpo inteiro endureceu.
— Não…
— Aurora…
— Não continua.
Mas ele continuou mesmo assim.
Eu não queria lembrar! Mas lembrei.
— Ela dizia que você estava ficando bonita demais. Que homens importantes começariam a olhar para você e que isso poderia ser útil no futuro.
O gosto amargo voltou à minha boca.
— Cala a boca.
— Filha…
— CALA A BOCA!

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