Lucila
A tarde dourada manchada de folhas secas, nas calçadas do bairro nobre onde ficava o colégio Saint Joseph, em São Paulo, marcava o final do ano letivo. Os sinos soaram com o fim das aulas, e ela agradeceu aos céus por ter sobrevivido os últimos três anos sem a proteção de seus únicos amigos. Os irmãos Darius.
Desde que Lucila Drummond conheceu os Darius, eles se tornaram seus melhores amigos. Ela se sentia abençoada pela presença deles até que eles se formaram e saíram do colégio. Mas o que ela realmente sentia falta era aquele por quem seu coração ansiava.
Ainda criança, ela sentia seu coração disparar toda vez que estava perto de um deles, e logo percebeu que seu insensato coração pertencia não a Ícaro ou Alberto, que eram mais próximos dela, Mas a Vitório, o mais velho, o mais intrigante, o mais... fascinante.
Vitório Darius era um homem que chamava atenção somente por sua presença magnética e misteriosa. Mesmo anos antes, quando ela ainda era uma garotinha silenciosa e traumatizada, a atração da presença dele já despertava nela sensações que não conseguia nomear.
Ele foi o primeiro a encostar sua mão cálida na dela para se comunicar. E aquele toque, firme, gentil, ficou marcado em sua pele como uma promessa silenciosa.
Desde então, ela sonhava com aquele raro sorriso, com os olhos verdes acinzentados que pareciam carregar segredos incríveis e maravilhosos.
Ela pensou no diário que mantinha dentro da mochila, com o nome dele escrito junto ao dela, e sorriu timidamente. Ele era seu primeiro amor, o único capaz de fazer seu coração sempre tão triste, se iluminar de cores vibrantes.
Carregava os livros apertados contra o peito, divagando sobre os planos das férias onde poderia vê-lo mais vezes; quando foi surpreendida por um empurrão brutal.
Caiu no chão frio da calçada em frente ao St. Joseph.
— Sua muda idiota! — gritou Sabrina, uma das garotas mais populares da turma, e sua maior perseguidora. — Acha que engana quem com essa carinha de santa do pau oco? Meu namorado já me contou tudo! Você fica se fazendo de coitada, mas fica correndo atrás dele! Se insinuando a cada oportunidade que tem! Você não é nada além de uma vadia!
Lucila tentou se levantar, confusa e assustada. Balançou a cabeça em negação, mas Sabrina avançou contra ela novamente, empurrando-a outra vez, fazendo seus livros voarem.
— Fica se fazendo de coitada! — continuou a garota. — Mas todo mundo sabe que você dá em cima de todos os rapazes desse colégio! É uma muda imunda, sem vergonha!
A multidão começou a se formar, os alunos se aglomeravam em um círculo opressivo. Lucila sentiu seu rosto molhado, suas costas e pernas doiam, mas tudo isso era insignificante diante da vergonha e do desprezo. Gargalhadas e sussurros cortavam o ar.
— Aposto que já passou pelas mãos daqueles três irmãos Darius. Ela anda com eles pra cima e pra baixo. — disse uma voz.
— Vadiazinha de elite — zombou outra. — Deve ter dado para todos eles.
— Metida só porque tem essa carinha de boneca — murmurou uma terceira. — Soube que o pai dela comprou a matrícula dela aqui no colégio.
Lucila abraçou o próprio corpo, as lágrimas escorrendo em silêncio. Ela nem mesmo tentou se levantar de novo. A humilhação queimava por dentro, doía ainda mais por saber que não era culpada daquelas acusações nojentas.
O tal namorado de Sabrina, já a encurralou nos corredores diversas vezes, tentando tocá-la sem permissão. Ele e os outros garotos viam nela um alvo fácil, e até mesmo apostaram para saber quem tiraria sua virgindade.
Sabrina agarrou seus cabelos com força, inclinando sua cabeça para trás com brutalidade. Um som estrangulado escapou de sua garganta.
Sabrina e os outros riram com escárnio, ela estava pronta para desferir um tapa no rosto de Lucila.
Foi quando uma voz grave e potente cortou o ar como uma lâmina letal.
— O que pensam que estão fazendo?
Todos parara, se virando na direção daquelas palavras. O tempo pareceu parar, friamente.
Então ela o viu, se aproximando como um felino perigoso. Vitório Darius. Alto, imponente, vestindo jeans desbotado, camisa preta e a clássica jaqueta de couro que moldava seus ombros largos. A barba por fazer acentuava o maxilar rígido. Os olhos verdes acinzentados faiscavam como farois surreais.

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