Na volta para casa, ele notou que Lucila estava totalmente concentrada no movimento lá fora, como se não estivesse ao lado seu marido que não via há uma semana.
Vitório sentiu uma irritação crescente ir dominando seu interior.
Lucila estava agindo dessa forma porque ele não deixou que ela voltasse para casa com os outros? Ela queria mesmo se ver livre dele? Estava considerando aceitar o divórcio?
“Não...ela não pode estar pensando nisso. Só eu sei o quanto ela é vulnerável, preciso protegê-la a qualquer custo.”
A agonia de Lucila retornou a suas memórias com força total. É por esse motivo que o desejo era perigoso e deveria ser evitado, essa droga de sentimento o distraía completamente. O foco daquela noite deveria ser os pesadelos dolorosos dela, e não o seu corpo pequeno e macio seminu sob o dele.
Olhou para ela novamente. Lucila continuava olhando para a janela, de pernas cruzadas, vestindo um macacão de alfaiataria cinza claro que marcava sua cintura fina, e as joias que ele a presenteou ao longo desses anos; ela estava tão linda, tão intocada.
Seus cabelos negros escorriam por seus ombros a mostra, tão brilhantes quanto seus olhos incomparáveis. A mão dela se levantou em um gesto gracioso e ajeitou as mechas atrás da orelha pequena que estavam enfeitadas com brincos de diamante.
Um sorriso suave cruzou o rosto de Vitório, ao pensar em quanto ela mudou nesses anos. Não usava mais a franja que fazia parte de seu visual por tanto tempo, usava salto agulha com um andar elegante que chamava a atenção mesmo sem ela perceber.
Agora ela tinha fortes ligações com a filantropia e era membro de um comitê nacional que visava o desenvolvimento de crianças com deficiência. Ela tinha mais duas graduações nessa área, além das artes plásticas. Se tornou uma palestrante prestigiada, uma profissional que representava tudo aquilo que defendia.
E mesmo assim... quando olhava para ela, ainda via aquela menina doce que tocava piano chorando escondido.
Se sentindo observada, ela se voltou para ele, aquelas lindas safiras brilhantes piscaram para Vitório, e ela só sorriu educadamente, arrumando sua postura já ereta.
- Não precisa ficar na defensiva comigo... – ele disse, levando a mão até a dela, que repousava em seu joelho.
Apertou seus dedos minúsculos entre os dele, sentindo aquela eletricidade perpassar seu corpo novamente, a sensação familiar e cheia de significados, fez Vitório voltar a pensar na fragilidade dela na outra noite. E em como ela relaxou em seus braços quando sentiu o toque dele, como se o corpo dela reconhecesse essa mesma sensação entre eles.
- Na outra noite... – começou, sentindo ela reagir instantaneamente à menção daquela cena. – Eu sinto muito por ter saído daquele jeito. Você estava tendo um pesadelo terrível e eu deveria ter ficado para cuidar de você, mas quando eu percebi que fiz algo inapropriado como te beijar naquela situação, precisei me afastar e me controlar.
Lucila não reagiu imediatamente, seu olhar estava fixo no para-brisas do carro, talvez absorvendo o que ele acabou de dizer.
- Sempre tem pesadelos como aquele, não é? – ele perguntou, já sabendo a resposta. Aquilo quase culminou em um problema ainda maior quando viviam juntos.
A reação surpresa dela, deixou Vitório satisfeito de certo modo. Porque às vezes tinha a impressão de que Lucila pensava que ele não se importava com ela e até mesmo a odiava.


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