Vitório segurava o garfo com elegância, mas seus olhos escuros a fitavam com uma intensidade silenciosa que deixava claro sua irritação. Era como se aquela galáxia em seu olhar estivesse prestes a explodir. E evidenciava que ele queria estar ali, tudo o que fazia, era só uma encenação.
Ele notava cada um de seus movimentos.
Lucila tentou desviar o olhar, mas sentiu um gato de rua roubando comida e sendo pego no ato.
Era estranho, e desconcertante, o poder que aquele homem exercia sobre ela. Mesmo agora, depois de tudo, mesmo depois das lágrimas e da atitude inesperada dele, seu corpo, seu coração reagiu totalmente concentrado em Vitório.
E, no fundo, uma parte dela tentava se apegar ao que ele disse no altar mais cedo, seus votos pareciam tão sinceros, tão certos. Era tudo pelo que seu coração ansiava, só faltou aquelas três palavras....Aquelas que fazem todas as mulheres irem ao céu.
Eu te amo.
Mas ela sabia que isso levaria tempo, que não poderia esperar que ele se apaixonasse por uma boba desengonçada como ela assim, só porque se casaram.
As luzes do salão de jantar foram diminuindo aos poucos, trocando o dourado vibrante por um âmbar suave. A música da orquestra se tornava mais vibrante, e os convidados já começavam a se levantar de suas mesas, entre abraços, felicitações e taças sendo brindadas em pequenos grupos.
Lucila manteve um sorriso discreto no rosto enquanto cumprimentava os últimos convidados que se aproximavam para desejar felicidades. O calor das palavras era reconfortante, mas ela ainda sentia um nó na garganta.
O jantar tinha sido grandioso, sim, mas também esgotante, uma verdadeira prova de fogo para ela.
Tudo perfeito, como num conto de fadas sofisticado, mas havia um silêncio espesso entre ela e Vitório que ninguém ali percebia, um abismo íntimo que só os dois sabiam existir. As ondas de tensão no corpo dele ainda reverberaram, e era visível seus músculos tensos através do tecido do fraque.
Vitório, estava perfeitamente alinhado, a postura irrepreensível, se portava como o marido ideal diante de todos. Ele a protegia com o corpo, tocava sua mão com ternura ensaiada, e sorria em momentos estratégicos, como se não houvesse tempestade alguma dentro dele.
Mas Lucila sentia.
Sentia o peso do olhar dele. A eletricidade de sua respiração, o cuidado exagerado com os gestos, como se estivesse atuando em uma grandiosa peça da Broadway.
— Precisamos nos despedir. — ele murmurou suavemente ao ouvido dela, com o hálito quente tocando a pele sensível de sua orelha. — Já estamos atrasados, e eu não aguento ficar mais nenhum minuto aqui entre esses abutres.
Ela apenas assentiu.
Despediram-se de Hermes e Amanda, que os abraçaram demoradamente entre lágrimas. A mãe demorou um pouco mais no abraço, sussurrando em seu ouvido “Não precisa ficar com medo da noite de núpcias, tenho certeza de que ele será gentil. Mas se estiver muito nervosa, uma taça de vinho pode ajudar.”
O rubor subiu por sua face, e ela abaixou o rosto para que Vitório não visse.
O pai beijou sua testa, murmurando algo sobre como ela estava linda e sobre como ele confiava nela para conduzir aquela nova fase da vida com sabedoria.
Otávio, ao contrário do que esperavam, não os acompanhou até a porta. Lucila percebeu de relance que ele falava com Ícaro e com Alberto, os três em uma conversa tensa e baixa, que terminou com o trio olhando para Vitório, como se quisessem enforcá-lo ali mesmo.
Astrid, por sua vez, sequer olhou para ela. Contra todas as probabilidades, a atenção dela estava em Vitório. A mulher estava em uma das mesas altas da saída, o desprezo velado e olhos vítreos demais para disfarçar qualquer coisa.
Quando Lucila passou por ela, sentiu um calafrio.
Mas seguiu, de cabeça erguida, sem dar a ela o gosto de saber que era afetada por aquela mulher vulgar.

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