Lucila
Nos olhos dele o verde predominava sobre o fundo cinza, como se ele estivesse avaliando o que ela disse, mas isso não era possível porque ele não entendia a linguagem de sinais, pensou Lucila.
Talvez esse foi o motivo que deu coragem a ela para revelar algo tão íntimo como isso.
Ela não conseguia falar sobre Felipe com ninguém, nem mesmo com terapeutas, psicólogos e muito menos com seus pais.
Jamais seria capaz de falar com eles sobre seu filho primogênito e sobre aquela manhã que destroçou seu peito e sua vida. Felipe era o filho deles antes dela chegar, ele foi planejado, desejado e concebido por Amanda e Hermes; ela não.
Por alguma razão que nunca pode compreender, eles a escolheram no orfanato para ser a irmã de Felipe e acharam que ela completaria a família. Lucila era só uma órfã sem ninguém no mundo quando o destino deu a ela a chance de ser amada por eles.
Com dois anos de idade, ela foi recolhida por assistentes sociais, pois sua mãe biológica era uma viciada em drogas que não cuidava dela e a alimentava quando estava sóbria. Os vizinhos a viram tentando vender Lucila em troca de drogas e chamaram as autoridades.
Olhando para Vitório, ela pensou em como teve sorte apesar de tudo o que sabia sobre sua história. Ela foi adotada com três anos, por pessoas que a amaram de verdade e deram a ela toda a base que precisava, e hoje era uma mulher realizada em seu propósito profissional e pessoal, além disso... era uma Darius. Mesmo que Vitório não a considerasse como sua esposa de verdade, ele estava aqui, e esteve com ela em momentos em que pensou que se fragmentaria inteira.
Ela forçou um sorriso, e limpou seu rosto com as costas das mãos. Não deveria deixar que seus pesadelos a assombrassem para sempre, nada daquilo era verdade... ela até mesmo tinha amigas agora... e Felipe...ele não estava mais aqui.
- Não quer conversar sobre isso, não é? – ele disse finalmente.
Lucila pegou o celular dentro da bolsa, e digitou rapidamente.
“Me desculpe por isso, não tinha a intenção de te deixar desconfortável. Não se preocupe com isso, são só sonhos, sei que um dia vai passar. Obrigado por me trazer em casa.” Ela mostrou a tela.
Vitório leu rapidamente, e assentiu, em seguida desceu do carro e abriu a porta para ela.
Lucila aceitou sua mão estendida, e se levantou, fechando a porta atrás de si. Um movimento rápido do braço dele a trouxe para seus braços, ela levantou o rosto para Vitório, completamente chocada com as mãos dele sobre o corpo dela, contra o carro.
A intensidade do olhar dele fez Lucila se perder naquele momento. Seu coração disparou com uma possibilidade absurda de que ele estivesse sentindo algo por ela. “Não...isso não é possível... É?”
O braço dele em torno de sua cintura ficou mais apertado, sua mão livre levou a mão de Lucila ao peito dele, o pulsar forte de seu coração misturado ao calor único dele produziu uma corrente elétrica que disparou cada centímetro de seu ser.
A lua cheia recortada atrás dele, produzia sombras parciais em seu corpo musculoso quase colossal perto dela, a respiração de Vitório ficou mais profunda quando seu rosto foi se aproximando do dela.
- Eu sei que não devia fazer isso, princesa... – o murmúrio rouco saiu com uma ponta de algo mais profundo que ela não soube identificar. – Mas vê? – ele apertou a mão dela contra o seu peito. – em momentos como esse... eu poderia explodir se não provasse do seu beijo só mais uma vez...
O ar entre eles se tornou uma mistura de sentimentos e vontades, carregado por uma energia cálida, silenciosa e palpável. Lucila sentiu como se cada célula do seu corpo vibrasse dentro daquela bolha de tensão, onde apenas os dois existiam, sob aquele astro brilhante no céu, sob algo que não sabia nomear, mas que queimava com intensidade.
Vitório a encarava como se lutasse contra todos os seus próprios limites. Seus olhos tão raros, habitualmente frios, agora estavam carregados de uma profundidade silenciosa e de algo mais, algo que fazia o coração de Lucila se apertar.
Não era aquele desejo que crescia como chamas quando se beijavam, era como um pedido mudo. Uma súplica escondida no fundo do peito de um homem acostumado a não se permitir sentir.
Ela quis perguntar por que ele se negava a sentir isso.
E ao mesmo tempo, o que fazia ele a segurar daquele jeito, como se ela fosse a única coisa que ainda o mantinha inteiro.

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