Lucila piscou várias vezes, como se seus olhos a estivessem enganando. Mas a imagem na tela do celular era nítida demais para ser um engano.
Era mesmo uma criança.
Estava com a cabeça entre os joelhos, aparentemente com roupas masculinas. Encolhida sob a tempestade, no canto do jardim, próximo ao portão lateral leste; abraçando as próprias pernas como se quisesse desaparecer dentro do próprio corpo.
Por um segundo, até o respirar de Lucila ficou parado, estático. O som da chuva parecia mais alto, mais brutal. Como se cada gota que caía estivesse machucando aquele corpinho indefeso.
Lucila levou a mão à boca, um soluço preso em sua garganta. Sem pensar duas vezes, largou a xícara de chá na bancada, o líquido derramado em silêncio sobre a porcelana branca, e correu para a porta dos fundos.
As mãos tremiam tanto que ela mal conseguia girar a chave, mas o coração já gritava em seu peito com a urgência de quem reconhece o sofrimento, de quem já esteve ao relento emocional tantas vezes na vida.
Assim que abriu a porta, o vento frio e cortante invadiu a cozinha. A chuva a acertou no rosto como uma bofetada gelada, mas ela nem hesitou. Desceu os três degraus correndo, o robe preso na cintura colando-se ao corpo fino, o pijama azul-marinho absorvendo a água como uma segunda pele.
Seus pés descalços, afundavam no gramado encharcado, mas ela só enxergava a pequena silhueta adiante.
“Meu Deus, coitadinho…” sussurrou para si mesma, lutando contra as rajadas de vento, protegendo os olhos com a mão.
Quando finalmente a alcançou, notou que a criança tremia violentamente. Era um menino, percebeu quando se aproximou, seus cabelos estavam grudados à testa molhada, o rostinho pálido de frio. Ele estava com tênis e um abrigo esportivo colado ao corpo magro, os joelhos tinham ossos proeminentes, e os lábios roxos de frio.
Um raio cortou o céu, iluminando o jardim com um clarão sinistro, e o menino se encolheu ainda mais, assustado.
Lucila caiu de joelhos na lama ao lado dele, sentindo o chão gelado encharcar até seus ossos. Ela não hesitou em envolver o pequeno com os braços, puxando-o contra seu peito. Ele se enrijeceu no início, como se não estivesse acostumado com toque, com abraços, mas logo depois se entregou, agarrou-se a ela com força, os dedinhos finos se agarrando ao tecido do robe.
Ela sentiu o coração despencar.
Aquele gesto, aquela necessidade silenciosa de protegê-lo era algo novo para ela. Lucila o pegou no colo com certa dificuldade, e caminhou com cuidado para não escorregar. “Você está seguro agora, vai ficar tudo bem...” ela pensava o apertando contra o seu corpo.

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