Lucila se abaixou para ficar no mesmo nível de visão que ele. Ela gesticulou para saber se ele sabia ler e escrever. O menino uniu as sobrancelhas parecendo ofendido.
- Eu tenho nove anos, é claro que eu sei ler e escrever. – respondeu com uma voz infantil, porém muito confiante. – Você não consegue falar não é?
Ela não pode deixar de ficar impressionada com a perspicácia dele. Com um sorriso, ela negou com a cabeça.
- Meu nome é Olavo, e qual é o seu? – ele perguntou, procurando com os olhos algo que ela pudesse usar para responder.
Ela se levantou e pediu que esperasse um momento, e ficou aliviada ao ver a cor voltando para o seu rosto. Ele parecia tão pequeno e frágil para uma criança de nove anos.
Pensar a respeito era algo que reorganizava suas ideias. Mas a pergunta que precisava fazer era mais urgente. Portanto ela correu para pegar o celular para se comunicar com o garoto.
Ao voltar, encontrou Olavo de pé, envolvido no cobertor, ele estava diante de uma fotografia de casamento que ficava no móvel próximo ao bar. Lucila percebeu que ele observava a imagem totalmente compenetrado.
Devagar, ela tocou o alto da cabeça dele, para anunciar sua presença.
Olavo, se virou assustado, seu rosto se contraiu de medo.
“Não precisa se assustar assim, eu não vou te fazer mal, Olavo.” Ela escreveu na tela e mostrou para ele. Olavo abaixou os olhos como se estivesse envergonhado.
- Eu só estava olhando... Você é a moça da foto. Foi no seu casamento? – ele olhou de novo para a imagem dela e de Vitório abraçados diante do Arco do Horizonte.
“Foi sim.” Lucila o chamou com as mãos para a cozinha, e procurou na geladeira por leite e ovos, o menino parecia faminto. “Vou preparar um chocolate quente para te aquecer. Está com fome?” perguntou enquanto ele se sentava na banqueta da ilha da cozinha.
Os olhos intensos passaram rapidamente pela tela, e ele pareceu surpreso com o que ela disse.
- Estou... – afirmou novamente envergonhado. – Qual é o seu nome?
Arrumando os ingredientes para fazer panquecas, ela sorriu com a pergunta. Apesar de estar em lugar desconhecido, ele tinha uma desenvoltura excepcional. Quando ela era pequena, jamais faria o que ele estava fazendo agora, pelo contrário, ela se escondia das pessoas.
“Meu nome é Lucila, e essa é minha casa. – sorriu gentilmente, mexendo o chocolate no fogão. – E a sua casa, onde fica?”
Olavo desviou os olhos dela por um instante, para em seguida se voltar com uma expressão triste.
As mãos dele pararam no ar, sem completar a ação de levar a caneca à boca. Ele desviou os olhos, seus lábios se comprimem, lágrimas se formam neles. Lucila retira as panquecas, e dá a volta no balcão rapidamente.
Seus braços envolvem o corpo de Olavo mesmo sentindo que ele ficou rígido mais uma vez. Soluços curtos se intercalam com o som da chuva lá fora. “Pobrezinho...” ela pensa, imaginando as dores que esse pequeno vem carregando sozinho.
- Eu não tenho mãe... – ele funga contra o ombro dela. – Ouvi a pessoa que cuidava de mim dizendo que eu tenho um pai que nunca me quis... – Olavo agora não esconde o choro, e se deixa embalar por Lucila. – Não tenho ninguém... ninguém que se importe ou que está me procurando...
A triste história que ele estava contando, lembrava muito o que Lucila tinha vivido antes da adoção. Mesmo que não se lembrasse dos maus tratos, ela sabia de tudo o que sua mãe fez, e como ela era vista pela mulher que lhe deu a luz.
Lucila sentiu seu coração disparar olhando para o rosto desfeito dessa criança. Ela não sabia o que ele passou, mas uma coisa podia garantir; Olavo não estava mais sozinho no mundo, e mesmo que ele estivesse fugindo de casa ou mentindo sobre os fatos que o levaram até ela, a dor que via em seus olhos, aquele abandono enraizado, a rejeição... aquilo era verdadeiro, e não poderia ser ignorado.
- Me deixa ficar aqui, Lucila... – ele pediu, seus olhos brilhando em lágrimas como estrelas. – Eu não tenho para onde ir... prometo que não vou causar problemas... eu posso até trabalhar, já sou grande...
Esse momento mudou tudo dentro dela. Algo que ela não sabia que estava lá dentro, no profundo de seu interior, surgiu. Ela sorriu entre suas próprias lágrimas, e acariciou o rostinho dele com cuidado.
Olavo desatou a chorar ainda mais, e mesmo sem entender o motivo, ela o abraçou forte, acalentando seus cabelos como se esse afeto nunca mais fosse acabar.

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