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A Esposa Muda do CEO romance Capítulo 7

Vitório

Três anos. Já se passaram três longos anos desde que Astrid o traiu da forma mais torpe que ele poderia imaginar, como um veneno despejado lentamente nas veias, até que ele estivesse fraco demais para perceber ou lutar.

Mas mesmo depois de tudo, mesmo depois do escândalo, da queda, da vergonha e da ruína, ela continuava ali. Um espectro maldito que surgia nos momentos mais inesperados, como se quisesse se apossar da vida dele novamente.

Astrid o perseguia como uma assombração. Aparecia em seu apartamento antigo, tentando entrar com desculpas esfarrapadas e pedidos de perdão sem a menor sinceridade. Tentava seduzi-lo de várias formas diferentes. Cruzava com ele nas ruas, em festas oferecidas por amigos próximos a ele, em cafés e restaurantes; como se isso pudesse ser considerado como coincidência.

Certa vez, a encontrou o esperando em sua suíte na Masmorra Diè, ele esperava por uma das submissas que escolheu a dedo. Mas no lugar dela, encontrou Astrid, ela vestia apenas uma peça de látex vermelha que mal cobria os seios e a fenda entre suas pernas, estava mascarada, em posição de submissão.

Nesse momento Vitório quase fraquejou ao se lembrar do sexo intenso entre eles. Mas a lembrança da traição foi mais forte, e a repulsa também. Ele a expulsou com a mesma frieza que adotou para sobreviver desde então.

Nada nela era mais bem-vindo. Nada nela o comovia.

Entretanto, o nome Astrid ainda tinha um gosto amargo demais para ser esquecido.

Vitório mexia lentamente o gelo em seu copo de uísque. O líquido cor de ouro se agitava sob a luz suave do quarto de hotel cinco estrelas, em um andar alto, afastado, privado. Passou a última semana ali, discretamente.

Amanhã teria que mudar de lugar mais uma vez. Era assim que vivia há meses, pulando de hotel em hotel, usando carros diferentes, evitando ser visto com as mesmas pessoas. Tudo isso para evitá-la. Ele estava exausto. Mas não cederia a insistência daquela mulher.

A dor não passou. A culpa, muito menos. Desde a queda da Acrópole, sua família o via como um traidor irresponsável e incapaz. Os olhares atravessados dos irmãos, a frieza do pai, a ira do conselho, e aquela decepção estampada no rosto de Otávio. Era como se ele tivesse matado algo sagrado, e agora vivesse entre os escombros de seu próprio nome.

Sentou-se na poltrona diante da janela. O vidro frio não afastava o calor abafado que crescia em sua garganta. São Paulo brilhava sob seus pés, e ainda assim ele se sentia em um buraco profundo, desprovido de qualquer luz.

Houve mulheres, muitas delas. Socialites querendo galgar mais um degrau da escalada social, herdeiras interessadas em status, e as que ele mais gostava; submissas em busca do Mestre Dominador implacável que ele se tornou.

Ele teve três escravas sexuais dedicadas a servi-lo, cujos nomes ele sequer se recordava, e que ainda pertenciam a ele. Na Masmorra Diè, ele encontrava o que precisava, esquecimento, vasão a sua ira, sua raiva mal contida. Era lá, entre os chicotes, as amarras e o prazer cru, que ele podia silenciar a mágoa e a traição.

A conversa com o pai na noite anterior, trouxe um nome à baila em sua mente. Lucila Drumond.

O nome surgiu como uma brisa doce em meio ao caos. Inocente e delicada. Os olhos azuis maravilhosos, brilhando em minha mente. Silenciosos, e expressivos como sempre foram, eles eram cálidos e envolventes. Ela era sua lembrança mais pura, sua princesa perfeita. A única que ele jamais tocou, mesmo nos pensamentos mais obscuros e mais imorais.

Naquela conversa, seu coração pulsou reagindo prontamente, quando seu pai, Otávio o recebeu com um leve sorriso. Fazia muito tempo que não se falavam cara a cara. O patriarca da família, ainda frágil, mas com os olhos firmes e a voz carregada e grave, pela primeira vez desde a queda de Vitório, exigiu sua presença na mansão Darius.

— Sabe que temos um vínculo pessoal e empresarial com os Drumond. – ele começou a falar. – A diretoria da Acrópole está nas mãos do Grupo Drumond, e eles estão pressionando para que haja uma fusão completa entre as duas empresas. A única forma disso acontecer de forma segura e efetiva, é o matrimônio entre as duas famílias

- E onde eu entro nisso, pai? – perguntou, já prevendo o rumo dessa conversa.

- Você vai formalizar essa união. Com a Lucila.

— Você não precisa se preocupar pai, pode ter certeza de que a protegerei como ela precisar. Serei um bom marido para ele e vou me certificar de que Lucila tenha tudo o que precisa para se sentir segura. — respondeu Vitório, sem hesitar.

Mas por dentro, tudo em seu ser gritava o oposto. Como poderia cuidar de uma flor de cristal, se ele mesmo era um campo minado? Como poderia viver com uma menina como Lucila, se tudo em si era pecado, escuridão, tormento? Ela era a princesinha que ele viu crescer e se tornar aquela mocinha de beleza incomparável.

Ele recordava os olhos dela com enlevo, aquelas grandes orbes, límpidas, e serenas. Sempre buscando algo que ninguém mais via. Não havia mentira em Lucila. Não havia malícia. Apenas uma inocência angelical, quase infantil. E agora ela seria sua esposa.

Vitório disse ao pai que compraria uma casa, já que o casamento já estava marcado. Escolheu Alphaville Park para que o padrão de vida de Lucila fosse mantido, afinal ela precisava de muito conforto e luxo. Decidiu fazer algumas mudanças assim que visitou o imóvel pela manhã.

Pensando no hábito que ela tinha de olhar a noite, ele mandou que a sacada do quarto principal fosse ampliada, se tornando um grande longe suspenso, com flores e palmeiras egípcias ladeando a tenda externa e confortável.

Vitório bebeu o líquido abrasivo.

A festa de noivado seria no próximo fim de semana. Haveria alianças, brindes, sorrisos e muito fingimento recoberto de cortesia esnobe. Tudo encenado sobre a base frágil da culpa dele e da necessidade de redenção.

Ele terminava o uísque, sentindo o gelo derreter em sua boca como as convicções que antes sustentava. O peso desse compromisso batia como um soco no estômago. Lucila não merecia um homem como ele. Não merecia um homem que vivia nas trevas, chafurdando na lama da própria existência, de olhos frios e desejos impuros e sórdidos demais. Mas era isso que teria, infelizmente. E ele... ele cumpriria o papel para todos os efeitos.

Mesmo que para proteger aquele anjo, tivesse que enterrá-la dentro de uma gaiola dourada onde seus desejos jamais a tocassem, e Lucila nunca pudesse ser corrompida por suas sombras. Ela seria sua esposa no papel, nada mais. Ele não macularia Lucila, jamais. Ele seria o seu guardião, e protetor do coração daquele anjo perfeito.

Por seu pai, por sua família. Para redimir o nome que ele mesmo sujou com as mãos. E por ela, a princesa que precisava de sua incansável proteção.

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