Lucila
O olhar brilhante no reflexo do espelho dizia tudo sobre como estava se sentindo naquela noite. Não precisava de palavras para expressar sua felicidade, sua alegria, nesse momento tão marcante de sua vida.
Lucila alisou o tecido suavemente. Ela vestia um modelo exclusivo em azul safira, desenhado sob medida com o cuidado reservado às joias raras. O corte clássico e atemporal realçava sua delicadeza com uma elegância quase etérea.
O corpete estruturado, com decote coração sutil e alças finas que cruzavam delicadamente os ombros, moldava sua silhueta com suavidade, como se o tecido tivesse sido esculpido sobre ela. A cintura era marcada por um cinto de cetim acetinado do mesmo tom, com um pequeno laço embutido na lateral, discreto, mas feminino. A saia longa, confeccionada em camadas de mousseline pura, descia fluida até os pés, abrindo-se levemente em evasê, com um caimento que se movia com ela, como ondas azuis em noite calma.
Quando caminhava, a luz refletia nuances prateadas escondidas entre as dobras do tecido, como se o próprio vestido respirasse luz. Nas costas, um decote em “V” profundo, finalizado com botões forrados manualmente, revelava com sutileza a curva delicada de sua coluna. A combinação entre o azul e o corte refinado fazia de Lucila uma visão impossível de ignorar, serena, nobre, quase irreal.
Escolheu esse modelo para chamar a atenção dele, queria que ele a visse como uma mulher, que se orgulhasse de tê-la como noiva. Vitório era mais maduro, mais exigente, e tudo o que Lucila queria, era estar à altura dele.
Seu cabelo preso em um coque baixo com fios soltos emoldurando o rosto, e brincos de safiras lapidadas completavam o visual. Sandálias de salto alto prateadas, o perfume fino italiano que ela adorava. Tudo pronto para fazer Vitório se apaixonar por ela.
Uma leve batida na porta chamou sua atenção. Caminhou até lá e abriu, encontrando sua mãe, arrumada, vestindo um modelo Dior que lhe caiu muito bem. Amanda admirou a filha mais uma vez, e sorriu de volta para ela, com a admiração e o orgulho estampados em seu rosto jovial.
- Ainda não acredito que você vai ficar noiva hoje, Lucy. – ela abraçou delicadamente, e depois arrumou a franja da filha com carinho. – Parece que foi ontem que você nasceu, e agora está aqui, pronta para se comprometer com um homem.
“Ah mamãe... Não diga essas coisas. Vai me fazer chorar.” Lucila respondeu em linguagem de sinais. “Esse é o meu sonho desde criança, sempre fui apaixonada por ele.”
- Eu fico feliz que você esteja se comprometendo com quem ama. – Amanda segurou suas mãos. – Mas filha, lembre-se que o Vitório já é um homem muito experiente, e que ele pode esperar coisas de você que não está pronta para cumprir.
O olhar preocupado de sua mãe, afundou um pouco o entusiasmo dentro dela.
“O que você quer dizer, mamãe?”
- Estou preocupada com você, Lucy. – os olhos dela se marejaram. – É por isso que eu queria que você se casasse com o Ícaro. Ele sabe se comunicar com você, te entende perfeitamente, e acima de tudo, é mais gentil, cavalheiro e carinhoso. O Vitório é...
“Mamãe..” – Lucila apertou suas mãos, sustentando seu olhar. – “Concordo que o Ícaro é tudo isso. Mas eu só o amo como um irmão, e não quero que nos afastemos por criar uma situação que nunca vai passar disso. Amo o Vitório. Sei que está preocupada, mas ele é um homem bom e de caráter, ele não vai me machucar.”
As mãos de Lucila baixaram lentamente, sua mãe afagou seu rosto com delicadeza.
- Espero que esteja certa, Lucy. Porque não sinto que Vitório Darius é o homem certo para você. E estou com muito medo do que ele espera de uma menina tão jovem e tão inexperiente, depois que se casarem.
“Ele espera que eu seja sua esposa, e eu serei com todo o meu coração.” Lucila olhou nos olhos da mãe, querendo traduzir todos os sentimentos que arrebatavam seu peito. “Não sou mais uma criança, mamãe. Sou uma mulher agora, e me sinto pronta para ser a noiva e a esposa dele.”
- Não há ninguém nesse mundo que deseje mais a sua felicidade do que eu, Lucy. Lembre-se disso se algo não der certo. – Amanda pontuou, antes de abrir um sorriso emocionado. – Agora vamos retocar sua maquiagem. O Vitório quer te ver antes da festa começar, e os convidados já começaram a chegar.
“Ele quer me ver?” – Perguntou surpresa.
- Sim, é claro. Vocês se viram somente uma vez desde que esse compromisso foi firmado. É natural que ele queira te ver antes de vocês ficarem noivos oficialmente.
“Você tem razão, mamãe.” Concordou ela, pensando na única vez em que esteve com Vitório, naquela semana que precedeu o noivado.
Lucila se recordou do que sentiu quando o viu. Ele foi busca-la na faculdade em uma manhã gelada. Estava mais bonito que nunca, vestia um terno azul marinho que talhava seu corpo definido, os cabelos recém cortados estavam perfeitamente alinhados, e os olhos dele estavam mais vívidos que nunca, mais verdes do que cinza. Não houve muitas palavras da parte dele, mas a elegância fria de seus gestos, e o jeito como ele era cortes para com Lucila, encheram seu peito de sentimentos ansiosos.
Vitório a levou para ver a casa em que morariam. A casa ficava em um dos condomínios mais exclusivos de Alphaville, cercada por ruas arborizadas, seguranças discretos e jardins meticulosamente cuidados.
O coração dela disparou no peito com aquele toque quente que arrepiava até sua alma, e inocentemente ela fechou os olhos, esperando que ele a beijasse, como em seus sonhos mais reais.
Mas ele não o fez, e ela ficou tão envergonhada, que se afastou rapidamente para olhar o resto do quarto.
Ele não disse que havia escolhido a casa pensando nela. Que imaginou sua presença em cada canto. Mas Lucila sentia que ele a visualizou nesse lugar, porque tudo era de seu gosto. A casa era mais que uma moradia era um gesto, o mais íntimo que ele já conseguiu fazer para se aproximar dela.
Nos fundos, um jardim interno com espelho d’água e uma figueira centenária criavam um refúgio particular. Ao lado, uma biblioteca silenciosa, com paredes forradas por prateleiras e uma poltrona solitária diante da lareira. Um cômodo feito para ela, para seu mundo interior. Para seu silêncio. E esse lugar ficava convenientemente ao lado do escritório dele.
Esse seria seu lar, um convite à intimidade, ao recomeço. E naquele dia, ao caminhar por entre aqueles espaços, Lucila soube que Vitório podia até não dizer com palavras. Mas aquele lar dizia o quanto ele se importava com ela.
- Lucy? – sua mãe chamou, trazendo-a de volta a realidade.
“Sim, mamãe?”
- O Vitório está te esperando no jardim. Não vai falar com ele antes da festa?
“Oh sim. Eu só me perdi em meus pensamentos por um instante. Já estou indo.” Ela respondeu em libras, olhando uma última vez sua imagem no espelho.
- Você está linda, não se preocupe com a sua aparência. Agora vai. – disse Amanda com um sorriso terno.
Com o coração aos saltos, ela saiu do seu quarto, ao encontro do amor de sua vida.

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