POV: Carttal Azacel
A brisa da tarde acariciava suavemente as árvores do jardim. Caminhei devagar, com as mãos nos bolsos e o coração apertado, enquanto observava meus filhos à distância. Eles brincavam entre si, correndo, rindo… mas assim que me viram, tudo mudou.
Pararam de repente.
E então… se afastaram.
Como se a minha presença lhes desse medo. Como se eu fosse um estranho.
Fiquei ali, paralisado, sentindo algo dentro de mim se quebrar em silêncio.
Queria me aproximar. Dizer algo. Mesmo que fosse um simples “olá”. Mas não consegui.
Fiquei com as palavras presas na garganta, vendo como se escondiam atrás de uma das jardineiras, com os rostinhos cheios de desconfiança.
E eu entendia.
Eu não estive lá.
Não quando mais precisavam de mim.
Não quando a mãe deles… desapareceu.
Respirei fundo, forçando-me a manter a postura. Não podia desmoronar na frente deles. Não de novo.
—Só… queria dizer que a Cinthia virá esta noite —murmurei, mais para mim mesmo do que para eles.
Ficaram em silêncio, escondidos, olhando para mim com aquela dor que eu mesmo havia causado.
E o pior… é que eu não tinha como reparar tudo o que havia feito.
Naquela noite, a mansão estava mais silenciosa do que o normal. Até o ar parecia mais denso, mais pesado. O avô havia organizado um jantar especial. Formal. Daqueles que você não pode recusar, mesmo que não queira estar presente.
Cinthia viria com seus pais.
Tudo estava perfeitamente organizado, como sempre.
Mas eu… eu não conseguia ficar tranquilo.
Havia algo dentro de mim que não me deixava respirar direito. Uma opressão no peito que eu não sabia de onde vinha. Como se o corpo me avisasse que algo estava errado, mas não pudesse explicar.
Não era o jantar. Nem mesmo o fato de ver os pais da Cinthia depois de tanto tempo.
Era outra coisa.
Uma angústia que percorria meu interior sem motivo aparente.
Apoiei-me na grade da varanda, olhando para o jardim vazio. O mesmo onde, algumas horas antes, meus filhos haviam fugido de mim.
E a única coisa em que conseguia pensar era em Aslin.
Onde você está?
Você está viva?
Está bem?
Esse pensamento não me deixava em paz. Não importava quantas vezes tentasse empurrá-lo para o fundo. Sempre voltava.
Não havia dia em que eu não pensasse nela. Em sua voz. Em seu riso. Na forma como me olhava, como se ainda houvesse salvação para mim.
E agora…
Eu nem sabia se ela ainda respirava.
—Por que sinto que estou te perdendo cada dia mais? —sussurrei, apertando os punhos com força.
Meu coração batia com intensidade… No fundo, eu sentia que algo estava prestes a acontecer. Algo forte. Algo que mudaria tudo.
E eu não sabia se estava preparado.
(…..)
A mesa estava cuidadosamente posta, cada detalhe no lugar. Pratos de porcelana, taças brilhantes, velas acesas… tudo parecia perfeito.



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