POV: Cecilia Hernández
O ar naquela sala parecia denso demais, como se, de repente, tivesse perdido todo o oxigênio. As palavras de Liam ainda pairavam no ambiente, ecoando em minha mente repetidamente, como um eco impossível de silenciar.
“Ela é minha noiva.”
Eu. Noiva de Liam Azacel.
O impacto foi tão forte que fiquei sem reação, presa em um limbo entre a incredulidade e o medo. Minha garganta ardia, lembrando-me ainda da força de suas mãos quando, horas atrás, ele estivera prestes a me matar. E agora… pretendia que eu me tornasse sua noiva?
—O quê…? —consegui murmurar, apenas um fio de voz que se perdeu em meio ao silêncio expectante da sala.
Eu gostaria de negar, gritar que tudo aquilo era mentira, que jamais poderia amar um homem como ele. Mas, antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, senti sua mão agarrar a minha com força. Um gesto que, visto de fora, poderia parecer carinhoso, mas que eu senti como uma algema gelada me prendendo à sua vontade.
—O que foi, Lia? —sua voz soou firme, convincente, quase calorosa, mas apenas eu conseguia ouvir a ameaça escondida sob aquele tom fingido—. Está com medo? Não tenha medo dos meus pais. Nós já havíamos combinado isso, não é? Nós nos amamos… e vamos nos casar.
Ele disse aquilo olhando diretamente em meus olhos, com um sorriso calculado. Cada palavra era uma faca atravessando meu corpo. Minha mente gritava que aquilo era um teatro, uma farsa que me arrastava sem o meu consentimento.
Tentei retirar minha mão, mas ele a apertou ainda mais, aproximando-se o suficiente para que apenas eu pudesse ouvir o que disse em seguida:
—É melhor você fingir… se ainda quiser recuperar o seu colar.
O mundo desabou dentro de mim. O colar. Aquele objeto que, para qualquer outra pessoa, não teria valor algum, mas que para mim significava tudo. Não havia mentira que Liam não fosse capaz de inventar, nem manipulação que ele não soubesse usar contra mim. E agora ele me obrigava a me tornar cúmplice de sua farsa.
Meu corpo reagiu antes da minha vontade. Inspirei profundamente e forcei um sorriso trêmulo. Eu precisava fazer aquilo. Precisava fingir.
—Sim… —minha voz saiu insegura, mas consegui sustentar seu olhar—. Claro, Liam.
Percebi que seus pais, Aslin e aquele homem imponente que só poderia ser Carttal, nos observavam com uma mistura de surpresa e desconfiança.
Aslin inclinou a cabeça, com uma elegância que parecia natural nela. Seu olhar ia do filho até mim, como se tentasse descobrir os fios ocultos daquela história. Havia doçura em seus olhos, mas também uma faísca de dúvida que me fez estremecer.
Carttal, por outro lado, nem sequer se deu ao trabalho de esconder sua incredulidade. Sua testa franzida era suficiente para demonstrar o que pensava. Sua voz foi como um trovão que ecoou pelo ambiente:
—Isso ainda não está decidido. —Ele se levantou de seu lugar, alto, firme, com uma autoridade que me deixou gelada—. Venha até aqui. Preciso fazer algumas perguntas a você.
Meu coração deu um salto. Perguntas. Um interrogatório. Eu não estava preparada para aquilo. Não sabia o que inventar, o que dizer para sustentar a mentira que Liam havia lançado sem sequer me consultar.
Abri a boca para balbuciar alguma coisa, mas Liam me interrompeu imediatamente, antecipando-se a qualquer tentativa minha.
—Pai, por favor. —Sua voz, firme, mas com um tom de súplica, me surpreendeu. Eu nunca o tinha ouvido falar daquela maneira—. Não me diga que vai interrogá-la como se a única coisa importante fosse o sobrenome dela ou a família de onde veio. Isso ficou para trás. Você realmente quer repetir o mesmo que o avô Cedric fez com a mamãe?
O silêncio ficou pesado. O nome do avô pareceu congelar o ar. Eu não entendia a que ele se referia, mas a tensão entre pai e filho era evidente.
Os olhos de Carttal se estreitaram e sua mandíbula se contraiu.
—Não fale do seu avô morto. —Sua voz foi cortante, como um chicote—. E que fique claro: não pretendo interferir nessas coisas. A família Azacel não precisa de nenhuma aliança matrimonial.
Senti-me tonta. Então… qual era o propósito daquela farsa?
—Mas, se vocês realmente se amam como você diz… —os olhos de Carttal voltaram-se para mim, e engoli em seco—, o casamento acontecerá nas próximas semanas.
Senti meu sangue congelar. O casamento. Uma união que eu não havia aceitado, que sequer havia imaginado.
Liam, longe de se abalar, esboçou um leve sorriso. Era como se aquele anúncio, que para mim era uma condenação, fosse uma vitória para ele. Sua mão ainda segurava a minha, forte, possessiva, como se temesse que eu escapasse.
Eu, por outro lado, sentia o mundo girar rápido demais sob meus pés.
Naquele instante, minha mente começou a correr. O que eu deveria fazer? Se recusasse, não apenas perderia o colar, como também ficaria à mercê da fúria de Liam. Eu o conhecia o suficiente para saber que sua ira poderia ser mortal. Se aceitasse, me tornaria prisioneira de uma corrente ainda mais opressiva: sua futura esposa, sua propriedade legal, a máscara perfeita de que ele precisava diante dos pais.
Os olhares de Aslin e Carttal pesavam sobre mim, cada um de uma maneira diferente. Ela me observava com curiosidade e um toque de ternura que parecia sincero. Ele, por outro lado, olhava para mim como se tentasse ler o que havia dentro de mim, como se um único gesto meu pudesse denunciar tudo.
E ali estava eu, com as mãos suadas, a garganta seca, sentindo-me uma impostora em um jogo cujas regras eu desconhecia.
Liam apertou levemente minha mão, como um lembrete silencioso de que eu não tinha escolha.
A conversa desviou-se para outros assuntos, mas eu mal conseguia ouvir. Todo o meu ser estava preso à ideia daquele casamento. Nas próximas semanas, Carttal havia dito. Isso não era muito tempo. Apenas alguns dias para preparar um engano tão grande.
—E então, Cecilia? —a voz de Aslin me tirou dos meus pensamentos. Ela me olhava com um sorriso gentil, como se quisesse me fazer sentir bem-vinda.
Demorei um segundo para reagir.
—Sim? —respondi, com a voz mais doce que consegui fingir.
—Quero conhecê-la melhor. Se realmente fará parte desta família, gostaria de saber mais sobre você. —Suas palavras eram suaves, mas carregadas de uma expectativa que me fazia suar frio.
Inventar. Fingir. Essas seriam minhas únicas armas.
Forcei um sorriso, embora por dentro quisesse gritar.
—Claro, senhora. Será uma honra.

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