VICTOR BALTIMOR.
As palavras da minha mãe ecoaram na minha mente, senti como se tivesse levado um soco que eu não esperava. O ar pareceu ficar mais denso, mais difícil de respirar. Meu peito apertou. Fúria pura subiu pela garganta, quente, incontrolável. Eu não lembrava de nada e não me lembrar me enfurecia. E agora me diziam que duas estranhas — uma mulher que eu não reconhecia e uma criança chorona — viviam debaixo do meu teto?
— Quem autorizou isso? — perguntei, a voz saindo baixa com dificuldade, mas cortante como lâmina. — Quem diabos permitiu que elas ficassem na minha casa?
Minha mãe suspirou profundamente, o tipo de suspiro que ela dava quando tentava manter a calma mesmo sabendo que a tempestade estava prestes a explodir. Ela me olhou com aqueles olhos cansados, cheios de paciência que eu, naquele momento, não tinha.
— Foi você, Victor — disse ela, calmamente, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança. — Antes do acidente. Eu não queria sobrecarregar sua mente agora, mas você exige explicações e sei que não vai descansar até conseguir.
— Então comece a me explicar, mamãe.
— Melissa, é sua filha com outra mulher, ela foi abandonada aqui por ela. Melissa já morava aqui. Enquanto a Elisa, você pediu para que ela ficasse aqui na sua casa. Elisa virou mãe de sua filha. As duas se amam e você as ama de todo coração. Elas eram parte da sua vida.
Soltei um suspiro longo, incrédulo. Minha mão apertou o tecido da minha blusa com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Eu simplesmente não conseguia acreditar. Como poderia? Não havia nenhuma imagem, nenhuma sensação, nenhum fragmento de memória que ligasse aquela criança e aquela mulher insolente a mim. Nada.
— Eu? — repeti, a voz carregada de sarcasmo e raiva. — Eu autorizei? Mãe, eu não lembro de nada. Nem do rosto dela, nem de uma conversa, nem de um maldito beijo. Como posso ter permitido isso se não existe nada aqui dentro? — Bati com o dedo na minha própria cabeça. — Nada!
— Tio… por favor… — a voz dela tremeu. — Elisa é minha melhor amiga, eu vi esse amor nascer entre vocês. Eu via vocês dois juntos e era palpável o amor que sentia. Você olhava para ela como se o mundo inteiro fosse só dela. Você a amava, tio. E a Melissa… ela é sua filha e o senhor a ama. Você chorou quando soube que ia ter outro bebê. Você estava feliz. Eu juro, eu estava lá no dia da ultrassonografia.
Eu ri. Um riso seco, sem qualquer alegria, que saiu rasgando minha garganta. Confusão e fúria se misturavam dentro de mim como veneno.
— Feliz? — repeti, a voz subindo de tom. — Eu não gosto nem de crianças, Cecília! Nunca gostei, você foi a única exceção. Como posso ter um bebê chorando pela casa e outro a caminho? Vocês estão me dizendo que eu, Victor Baltimor, que mal tenho tempo para mim mesmo, vivi tudo isso? Que sou pai e seria de novo e estava feliz? Eu nem consigo me imaginar segurando uma criança no colo sem sentir irritação. Um bebê chorão vai me atrapalhar o dia inteiro, vai me impedir de descansar, de me recuperar, de pensar na campanha que eu nem lembro que comecei! Isso é um absurdo! Todos vocês estão fora de si. Isso só pode ser uma histeria coletiva, ou estão de brincadeira de muito mal gosto comigo.
Definitivamente estavam todos loucos nessa casa.

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