VICTOR BALTIMOR.
A honestidade daquela resposta me atingiu com força. Mas eu preferia aquilo. Preferia a verdade dura do que uma mentira confortável. Inclinei-me um pouco para frente, ignorando a dor das costelas.
— Escuta bem o que vou te dizer agora.
Ele me olhava em silêncio.
— Você não vai enfrentar isso sozinho.
Minha voz saiu firme, sem espaço para discussão.
— Eu não vou permitir que você se destrua.
Os olhos dele se encheram de lágrimas outra vez. Continuei.
— Se for preciso, eu mesmo vou te arrastar para um consultório. Vou infernizar sua vida. Vou te vigiar. Irei mandar Átila te vigiar. E vou fazer o que for necessário. Pense no seu pai, ele deve estar desesperado, com medo de ter que enterrar o único filho.
Isso pareceu pesar nele, e lágrimas escorreram pelo rosto dele.
— Mas eu não vou te perder. Não vou permitir que faça esse absurdo.
O silêncio caiu entre nós, mais uma vez. Pablo respirou fundo, tentando se controlar, mas a voz ainda saiu quebrada.
— Eu estou cansado, Victor… tão cansado.
Aquilo mexeu comigo. Porque eu entendia exatamente o que ele estava sentindo: a culpa, os pesadelos, o medo, a sensação de estar preso naquele avião para sempre. Eu sabia como era, pois me sentia assim também. E talvez fosse justamente por isso que eu não permitiria que ele afundasse e desistisse do milagre que recebeu de estar vivo, de ter sobrevivido àquele acidente.
— Eu sei. — Minha voz saiu baixa dessa vez. — Eu também estou cansado.
Ele me olhou surpreso. Passei a mão pelo rosto.
— Também acordo sentindo cheiro de fumaça, suando e às vezes gritando. Também fecho os olhos e vejo tudo de novo. Também me pergunto por que sobrevivi e eles não. Por que não fiz mais para salvá-los?
Minha garganta apertou.
— Também me sinto culpado.
Pablo ficou em silêncio absoluto.

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