VICTOR BALTIMOR.
Arregalei os olhos, completamente assustado com o que acabava de ouvir.
Por alguns segundos, eu simplesmente não consegui dizer nada. Fiquei olhando para Pablo, tentando processar aquelas palavras.
“Se não fosse meu pai… eu teria me suicidado.”
A frase ficou ecoando na minha cabeça como um golpe repetido, brutal e impossível de ignorar.
Pablo? O mesmo Pablo que sempre foi forte, centrado, racional. O homem que resolvia tudo antes mesmo que o problema chegasse até mim. A pessoa em quem eu confiava minha vida sem pensar duas vezes. Um amigo e irmão para mim, tentou se matar?
A sensação foi estranha. Como se o chão tivesse cedido mais uma vez debaixo dos meus pés. Como naquele maldito acidente. Não era fácil ouvir de alguém de quem nos importamos que ele tentou se matar.
Eu já passei por muitas situações complicadas e difíceis na minha vida. Sobrevivi à queda de um avião, ao frio, à dor, ao medo de morrer… mas nada me preparou para ouvir aquilo dele.
Nada me preparou. Porque, de alguma forma, aquilo era pior. Pois ele sobreviveu ao acidente… mas estava morrendo depois dele.
Passei a mão pelo rosto lentamente, tentando organizar minha própria reação, porque aquele momento não era sobre mim. Era sobre Pablo, e eu não podia errar.
Eu queria gritar com ele e fazê-lo voltar à razão, nem que fosse à força, mas, vendo seu estado, isso só pioraria as coisas. E me afastaria dele. Pablo veio até mim para desabafar, porque sou o único em quem ele confia e que o entende. Não posso estragar isso. Então, melhor fazer tudo com calma.
Respirei fundo e o encarei.
Pablo estava de cabeça baixa, destruído, envergonhado, como se confessar aquilo fosse sua maior derrota. E talvez, para ele, realmente fosse.
Minha voz saiu mais baixa quando finalmente consegui falar. Utilizei um tom calmo e compreensivo. Tentando não julgar.
— Quando? — perguntei, e ele levantou a cabeça.
— O quê? — perguntou, perdido, sem entender minha pergunta.
Então, repeti a pergunta de forma mais clara.
— Quando isso aconteceu?
Pablo engoliu em seco e demorou alguns segundos para responder.
— Há alguns dias.
O silêncio no quarto foi sufocante. Meu coração acelerou com violência. A imagem dele sozinho, naquele estado, veio à minha mente.
— Meu pai entrou no quarto antes que… — a voz saiu quase num sussurro. — Ele viu e me impediu.
Passei a mão na nuca, sentindo uma raiva absurda crescer dentro de mim. Raiva daquele acidente e de tudo o que ele destruiu. Raiva de quase ter perdido Pablo sem sequer saber.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de perguntar a única coisa que realmente importava agora.
— Você ainda está pensando nisso?
Ele não respondeu imediatamente. E aquele silêncio já era uma resposta. Senti meu sangue gelar. E tive que elevar a voz.
— Pablo.
Minha voz saiu mais firme. Ele se virou para mim de cabeça baixa e levantou os olhos devagar, estavam vermelhos, cansados e sem defesa.
— Às vezes… sim.

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