Alguns dias após “o cumprimento do contrato”, o calor sufocante parecia impregnar o ar da mansão, tornando-o pesado, quase palpável, como se carregasse uma tensão silenciosa e invisível.
Deitada na maca do consultório improvisado, Dayse fixava o olhar nas luzes frias do teto. Seus olhos, vazios, vagavam sem foco, enquanto a claridade branca se espalhava pela sala, indiferente, impessoal, incapaz de refletir ou acolher o peso esmagador daquele instante.
Diante dela, dois médicos analisavam gráficos e números no tablet. Seus rostos não revelavam dúvidas, apenas uma concentração meticulosa, pontuada por um leve traço de satisfação.
Ela estava ali, mas era como se não estivesse. Como se fosse apenas um útero funcional, e não uma mulher carregando o peso de escolhas que nunca foram realmente suas. Não era vista como uma mulher, mas como um receptáculo, um útero funcional carregando o fardo de decisões que, no fundo, nunca foram realmente suas.
— Os níveis hormonais estão excelentes — comentou a médica mais jovem, a voz carregando uma mistura de entusiasmo e serenidade, enquanto deslizava o dedo pela tela com a destreza de quem domina verdades incontestáveis.
— A progesterona está elevada, a temperatura basal permanece estável e o pico de LH ocorreu no momento exato. Não há margem para erro.
O ginecologista, com um olhar atento e concentrado nos números que brilhavam na tela, assentiu lentamente. Havia algo quase reverente em sua postura, como se estivesse diante de um delicado milagre em formação.
— Perfeito — murmurou, a gravidade em sua voz contrastando com a leveza do momento. — A probabilidade é alta. Tudo aponta para a fecundação. Agora, só nos resta aguardar a confirmação.
O ambiente parecia suspenso no tempo, carregado de uma expectativa silenciosa, como se todos ali, mesmo sem palavras, compartilhassem a mesma esperança pulsante.
As palavras pairaram no ar, densas, impregnadas de uma objetividade que roçava a crueldade. Não eram para ela, mas, ainda assim, atingiram-na como se fossem. Dayse permaneceu imóvel, uma estátua de carne e osso, sem qualquer traço de reação visível. Nenhum tremor, nenhum suspiro que denunciasse o turbilhão interno.
Seus olhos, inquietos, vagaram pela sala, buscando refúgio, até se fixarem em um canto discreto. Ali, uma planta artificial repousava na prateleira, perfeita em sua falsidade: folhas impecáveis, sem cheiro, sem raízes, sem vida. E, naquele instante, Dayse viu a si mesma refletida naquela imitação de natureza.
Um corpo funcional, uma engrenagem, que girava dentro de um sistema maior, mas, vazia por dentro.
A médica virou-se, ajustando cuidadosamente o tom de voz, como quem tenta moldar o ambiente ao redor. O sorriso que ensaiou parecia uma ponte frágil, estendida entre a formalidade e a esperança.
― Estamos otimistas, senhora Bellucci. Em breve, teremos boas notícias.


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