Os dias passaram, e com eles a pressão sobre Dayse só aumentou.
Porém, lá no fundo, ainda permanecia nela uma pequena faísca de esperança. Era um desejo silencioso, mas forte, de escapar daquela rotina imposta.
Exames constantes, dietas severas, uma vigilância obsessiva de cada detalhe — do sono à pressão arterial, da digestão ao humor.
Até mesmo como ela se sentia era registrado, como se fosse apenas mais um dado na lista.
— Você parece mais apática hoje — comentou a enfermeira, anotando algo na prancheta sem nem ao menos parar pra olhar pra ela.
Dayse quase sorriu.
Como se houvesse espaço para emoções ali.
Mas não havia.
Não naquele lugar.
E, principalmente, não para ela.
Na tarde do décimo quinto dia, Dayse finalmente conseguiu um momento de liberdade da vigilância — mesmo que fosse por poucos minutos.
O jardim era seu único refúgio na mansão — o único lugar em que podia sentir que o mundo lá fora ainda parecia existir. A brisa fresca contrastava com o céu nublado, carregado de um peso que ela conhecia bem.
E foi ali que ela o viu novamente:
Thiago.
A camisa suada grudada ao corpo, as mãos manchadas pelo óleo, e o mesmo boné surrado de sempre. Um homem comum, no meio daquela perfeição sufocante que cercava Dayse.
— Olá, desaparecida! Pensei que você já tivesse ido embora — disse ele, enquanto enxugava as mãos num pano, quase de forma automática.
Dayse soltou um suspiro leve seguido de um sorriso discreto, sem qualquer traço real de alegria.
— Às vezes, eu queria desaparecer mesmo — do mundo, da vida, de mim mesma — só para conseguir seguir em frente — falou ela, com um tom que tentava parecer casual, quase como uma piada.
— Mas, qualquer dia desses, eu vou embora de verdade — continuou ela, com a voz baixa, quase se perdendo no ar.
Um silêncio caiu entre eles, mais pesado do que o momento parecia pedir.
Ele percebeu que havia algo mais ali — uma verdade crua e sufocante, escondida entre as palavras. Uma confissão disfarçada, que pesava mais do que ela parecia deixar transparecer.
— Eles não estão te tratando bem? — perguntou, com a voz carregada de uma preocupação sincera.
Ela hesitou, e o silêncio entre eles se estendeu, como se ela estivesse buscando coragem para dizer algo que ainda não tinha conseguido colocar em palavras.
Mas seus olhos falaram primeiro ― uma mistura de dúvida e resignação que pesava mais do que qualquer resposta verbal.
— Estão me tratando como se eu fosse um nada ― Dayse conseguiu dizer, a voz carregada de uma dor contida.
Thiago assentiu lentamente, um gesto discreto, cheio de compreensão. Ele não precisava saber todos os detalhes para sentir a profundidade do que ela estava passando.
— Se precisar de qualquer coisa, posso passar aqui antes da próxima visita — disse, com uma voz firme, mas sem imposições. Uma promessa silenciosa de apoio incondicional.
— Daqui a alguns dias, se o protocolo for mantido — respondeu o médico, inclinando levemente a cabeça, como quem tenta passar confiança, mesmo sem ter muita certeza.
Ela o observou por um instante, avaliando-o não só como profissional, mas como parte daquela engrenagem impessoal.
Depois, voltou o olhar para Luna.
— E o senhor Bellucci já foi informado? — perguntou Dayse, com um tom sutil de preocupação na voz.
— Sim, claro. Ele já está voltando — respondeu Luna, sem demonstrar nenhuma emoção.
...
Mais tarde, no quarto, Dayse não chorou. Mas pegou o caderno e começou a escrever, e desta vez as palavras vieram com força, parecendo precisar romper algo dentro dela: “Dia 39. A máquina falhou. Eles decidiram repetir a fórmula. Ele vai ter que voltar.”
Ela fechou o caderno com um suspiro pesado, os dedos parando na capa como se quisessem prender aquelas palavras ali dentro.
― Ele se foi sem esperar pelo desfecho e, agora, vai ter que engolir o orgulho e recomeçar tudo de novo ― refletiu Dayse.
Não era só um contrato, ela pensava, era uma imposição velada — uma sentença que exigia o impossível: fazer a concepção na primeira tentativa. Quanta presunção. Quanta soberba dessa família.
Mas essa decisão nunca esteve realmente nas mãos dele, nem nas dela, nem na equipe médica.
Era a natureza — sempre soberana — quem ditava o rumo das coisas.
E, desta vez, ela tinha escolhido um caminho diferente: um desfecho que ninguém ali poderia prever ou controlar.

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