A noite caiu antes do esperado, como se o céu da mansão tivesse se cansado e decidido se fechar em tons desbotados.
Lá fora, as nuvens carregavam o mesmo peso que apertava o peito de Dayse — uma sombra silenciosa que parecia se infiltrar pelas paredes frias e corredores vazios.
Um arrepio percorreu sua espinha enquanto seus olhos se perdiam naquele céu sem cor.
Os passos apressados dos criados ecoavam como um aviso mudo.
Ela não precisava de palavras para saber: Enzo estava de volta.
A porta se abriu e Luna entrou, com a naturalidade de quem se sente dona do espaço.
— O senhor Bellucci quer vê-la agora — anunciou, sem rodeios.
Dayse levantou-se devagar, respirando fundo antes de seguir Luna.
Seus passos eram cautelosos, mas firmes, como se avançasse rumo ao incerto, sem saber o que esperar.
Foi levada ao mesmo quarto do mês anterior, onde tudo parecia intocado pelo tempo, como se nada houvesse mudado desde sua última visita.
Enzo estava em pé junto à janela, segurando uma taça de vinho com tranquilidade, enquanto observava a paisagem silenciosa lá fora. Dayse observou que pelo menos dessa vez ele estava vestido.
Mas havia algo contido em sua expressão.
Um peso invisível esculpido em seus traços, como se a responsabilidade o moldasse de forma inevitável.
Vestia-se de maneira mais casual — camisa preta de mangas dobradas, calças escuras e um relógio discreto no pulso, refletindo sua elegância natural.
Dayse parou na porta, hesitante.
Seus olhares se cruzaram por dois segundos exatos — curtos, mas intensos o suficiente para que o silêncio entre eles parecesse mais pesado.
Ele não sorriu.
Não disse uma palavra.
O ar estava denso, carregado de uma tensão, que se recusava a se dissipar.
Ela respirou fundo e decidiu por entrar e sentar-se diante dele.
Enzo parecia distante, perdido em seus próprios pensamentos, desviando o olhar para qualquer outro ponto, como se evitar seus olhos fosse sua única forma de defesa.
O silêncio se alongou, erguendo uma barreira invisível entre os dois, até que Dayse, cansada de esperar, quebrou o silêncio:
— Não deu certo. Vão repetir o protocolo todo, certo? — sua voz misturava desafio e exaustão.
Enzo ergueu os olhos, surpreso pela primeira vez. Com um gesto medido, pousou a taça na mesa de cabeceira. Olhou-a nos olhos e respondeu, com uma frieza contida:
— Sim. O protocolo será repetido até que o objetivo seja atingido. Não é uma escolha minha. Faz parte do contrato, você devia saber.
Ela sorriu, mas era um sorriso que não alcançava os olhos.
― Ah, o contrato... sempre ele, não é? Curioso como tudo aqui parece girar em torno de contratos. Até o silêncio, um acordo tácito que ninguém assinou, mas todos obedecem.
Ele a encarou por um instante.
― É mais fácil assim ― murmurou, a voz quase um sussurro, como se tentasse convencer a si mesmo mais do que a ela.
Ele a observou por um instante, os olhos hesitantes, como se pela primeira vez o peso das palavras o alcançasse.
― Mais fácil para quem? ― Ela se levantou de repente, como uma tempestade prestes a desabar, a indignação subindo como um vulcão em erupção.
― Eu quero saber, me diga...mais fácil para quem? Para você? Para eles? Para o gato que passa pela janela?
Seus olhos, intensos, buscaram os dele, como se tentassem arrancar uma resposta que talvez ele não tivesse. Mas ele desviou o olhar para longe dela.
― Só peço uma coisa. Quando decidirem reiniciar este circo, me avisem antes. Quero, ao menos, ter o privilégio de dormir tranquila na noite anterior, sabendo que o caos tem hora marcada para começar.


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