O aviso chegou no fim da tarde, entregue por Luna com a habitual frieza:
— O senhor Bellucci solicitou sua presença esta noite. Às 21h, como antes.
Dayse apenas assentiu. Não havia surpresa nem pressa; ela já sabia que o jogo havia sido retomado. Mas desta vez, ela viria com novas cartas na manga.
Vestiu-se com mais intenção do que estilo: um robe de cetim discreto, que caía perfeitamente sobre os ombros. O cabelo solto, a pele limpa, sem maquiagem. Nada chamativo, tudo proposital. Ela estava pronta para o que viesse, com uma serenidade que só quem conhece bem o tabuleiro pode ter.
Chegou no quarto dele exatamente às 21h.
— Entre — disse Enzo, como de costume, sem levantar os olhos, mas havia algo diferente em sua voz ― estava mais baixa, mais humana.
Ela entrou devagar, notando como a luz suave criava sombras que dançavam nas paredes.
Enzo estava sentado sozinho na poltrona de couro próxima à janela, perdido em pensamentos, uma taça na mão e um silêncio profundo nos olhos. Mas havia algo em sua postura, uma tensão nos ombros que não passava despercebida.
— Bem, acho que cheguei no horário — disse ela, com um tom controlado. Sua voz era firme, mas carregava uma tensão sutil que parecia ecoar no ambiente.
Ele levantou a cabeça, seus olhos encontrando os dela com uma intensidade que fez o ar parecer mais pesado. Havia algo ali, algo que não podia ser ignorado, uma tensão que parecia vibrar entre os dois, invisível, mas inegável.
— Não se pode apostar todas as fichas no mesmo cesto, senhor Bellucci — disse ela, a voz baixa, mas carregada de uma firmeza que cortava como lâmina.
Enquanto falava, seus dedos deslizaram pelo tecido do robe, desfazendo-o com uma calma que parecia ensaiada, quase cruel. Cada movimento era deliberado, lento, como se o tempo tivesse decidido se arrastar apenas para prolongar aquele momento.
Seus gestos eram firmes, sem hesitação, transmitindo uma determinação silenciosa que dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar.
Enzo ficou parado, como se só de respirar pudesse desestabilizar aquele momento delicado. Seus olhos acompanhavam cada movimento dela, mas sua mente parecia travada, sem conseguir pensar numa resposta rápida.
― Você realmente achou que eu desistiria do acordo na primeira tentativa fracassada? — a voz dele soou baixa, quase um sussurro, mas carregada de uma firmeza que parecia inabalável.
― Não... Não é isso ― respondeu Dayse, os olhos semicerrados, como se tentasse decifrar algo invisível.
― E você realmente acreditou que, com uma única tentativa, puf, um herdeiro surgiria? Que audácia! — Dayse arqueou uma sobrancelha, o tom carregado de ironia, mas com um brilho quase imperceptível de provocação nos olhos. Era como se cada palavra fosse uma dança entre o sarcasmo e uma curiosidade velada, desafiando-o a justificar tamanha presunção.
― Sem contar que você... você age como alguém que não se importa se vai dar certo ou não. Tudo isso é... tão estranho ― a voz dela carregava uma mistura de curiosidade e desconfiança, como quem tateia no escuro em busca de algo sólido.
Ele inclinou levemente a cabeça, um sorriso quase imperceptível brincando nos lábios, mas seus olhos permaneciam insondáveis.
― Estranho? Não é como se eu não fosse capaz de conquistar uma mulher, me casar, formar uma família... de verdade ― retrucou Enzo.
― Então por que... por que compraram meu útero? — ela rebateu, a sagacidade em sua voz agora tingida por uma nota de desafio.
― Por que isso te incomoda, o que realmente deseja, Sra. Bellucci? ― ele perguntou, enquanto ela se aproximava, um passo de cada vez, seus olhos fixos nos dele, como se buscasse uma resposta nas profundezas de sua alma.
Dayse estremeceu ao ouvir Enzo chamá-la de "Sra. Bellucci". O que isso significava?
― Porque homens obcecados por controle geralmente surtam quando algo escapa das mãos ― ela respondeu, com um olhar penetrante que parecia querer desvendar os segredos mais profundos de sua alma, ou pelo menos descobrir onde ele escondia o controle remoto.
Agora, a poucos centímetros dele, ela sussurrou: ― e você fugiu no dia seguinte. Quase como se estivesse esperando que eu falhasse... ou estava com medo?
Enzo a encarou por um segundo, e ela viu seus olhos vacilarem, apenas por um instante.
— Esse tipo de leitura emocional não está no contrato — respondeu ele, com firmeza.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Pele Que o CEO Não Esqueceu