Preocupada com os efeitos colaterais da intensa estimulação ovariana à qual Dayse vinha sendo submetida, a equipe médica — em um equilíbrio quase cruel entre zelo clínico e obediência cega às exigências de Lourenço Bellucci — decidiu intensificar o tratamento.
O tempo corria, implacável. Com o período fértil se aproximando, não havia mais espaço para hesitações. A decisão veio firme, definitiva: os encontros com Enzo seriam diários. Antes, durante e depois da janela fértil. O objetivo era claro. A fecundação precisava acontecer — ou alguém pagaria o preço.
Quando recebeu a notícia, Dayse sentiu o chão se deslocar sob seus pés. Uma sentença, não um conselho. Uma ordem travestida de protocolo médico.
— “Todas as noites? Ele... vai estar aqui todas as noites?”
A pergunta escapou em um fio de voz, quase sem intenção, como se falasse consigo mesma.
Ela sabia que era apenas parte do processo, parte do plano meticulosamente traçado para transformá-la em mãe de um herdeiro. Mas havia mais. Sempre havia mais. Havia Enzo — sua presença, sua ausência, sua frieza. Ele era a constante silenciosa nesse cálculo de probabilidades, uma sombra que se insinuava entre as frestas de sua solidão, preenchendo os espaços que ela jurava que ninguém jamais tocaria.
E, talvez — apenas talvez — houvesse algo além da matemática da obrigação. Algo que escapava ao controle. Ao contrato.
Quando a noite caiu, trazendo consigo o manto denso da antecipação, o silêncio no quarto tornou-se quase insuportável. Então, o som de passos firmes cortou o corredor como uma lâmina, reverberando antes mesmo de alcançar sua porta. O coração de Dayse reagiu antes de sua mente.
Era ele. Enzo.
A porta se abriu sem cerimônia. Ele entrou como sempre: impecável, controlado, vestindo aquela armadura de indiferença que a irritava e confundia em igual medida. Mas havia algo diferente naquele instante — um peso invisível que tornava o ar mais espesso, como se o quarto se encolhesse ao redor deles.
— O médico disse que hoje e os próximos dias são cruciais, se quisermos ter sucesso — disse ele, a voz seca, neutra, como quem recita a bula de um remédio amargo.
Dayse apenas o encarou, os olhos fixos nos dele, tentando decifrar o que havia por trás daquela rigidez.
— Vamos resolver isso de uma vez por todas — completou, sua determinação cortando como aço frio.
Ela sentiu a garganta secar. Aquelas palavras não deixavam margem para dúvidas, mas o que a paralisava era o que ficava nas entrelinhas: a brutalidade de ser reduzida a um meio, um corpo em função de um fim.
Fechou os olhos por um instante. Um segundo de lucidez dentro do caos. Respirou fundo, tentando recuperar um pouco de si mesma antes de ser engolida novamente pelo ritual silencioso que lhe exigia o corpo e negava a alma.
Ergueu-se da poltrona com lentidão, como quem respeita a gravidade de um sacrifício. Cada passo em direção à cama era um deslocamento entre mundos — da mulher para a função, da pessoa para o contrato.
O quarto mergulhou em um silêncio espesso, absoluto. Não havia espaço para palavras, nem para gestos gentis. Tudo ali se resumia a um cálculo — frio, exato, desumano. Uma estatística que precisava dar certo. Um herdeiro que precisava ser entregue.
E no centro de tudo, duas presenças que não sabiam mais como se reconhecer.
Enzo se aproximou em passos contidos, o olhar cravado nela como se tentasse decifrar um enigma que, no fundo, jamais quis compreender. Havia uma rigidez glacial em sua postura, um controle meticuloso que beirava a crueldade. Nada em sua expressão denunciava hesitação. Nenhum vestígio de ternura. Era como se todo o gesto fosse parte de um ritual frio e deliberado — preciso como uma lâmina, seco como um veredicto.
Dayse sentiu o ar rarefeito ao redor do próprio corpo, como se o ambiente inteiro conspirasse para prendê-la em uma realidade que não escolheu. E então, como um sussurro incômodo em sua consciência, emergiu uma percepção devastadora: ela estava começando a aceitar. Não por resignação, mas por exaustão. Por sobrevivência.
Ele a conhecia — ou julgava conhecê-la. Sabia o nome, o corpo, o papel que ela devia representar. Mas não sabia da mulher por trás da entrega silenciosa, dos olhos que ainda resistiam mesmo quando o resto do mundo a havia abandonado.



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