O novo ciclo começou espelhando o anterior, com uma avalanche de exames, protocolos e horários implacáveis. Dayse, mais uma vez, se viu reduzida a um mero receptáculo clínico. As injeções diárias perfuravam sua pele como agulhas de gelo, enquanto as refeições controladas pareciam mais uma punição do que nutrição.
Os dias e as noites eram marcados por encontros pontuais, onde o relógio ditava cada movimento, cada palavra. Enzo surgia sempre da mesma forma: sem emoção. Trocavam poucas palavras, às vezes nenhuma.
Dayse, em sua tentativa de romper o silêncio, fazia perguntas simples sobre a vida além daquelas paredes.
No entanto, suas palavras se perdiam no vazio, sem nunca obter uma resposta. Ela acabou desistindo, pois o silêncio dele era como uma lâmina afiada, cortando fundo.
A cada ausência de resposta, um pedaço da esperança dentro dela se desfazia.
Enzo chegava sempre no mesmo horário, e Dayse já o esperava, como um relógio que nunca falha. Ele nunca tentou invadir sua intimidade; não havia beijos, carícias ou qualquer fingimento de desejo.
Tudo era funcional, quase mecânico.
A cada noite, o cenário se repetia: Enzo entrava com o olhar distante, como se fosse um autômato cumprindo um papel imposto. A precisão dos seus movimentos e a ausência de emoção reforçavam a sensação de um ritual vazio, onde cada gesto parecia ensaiado, sem vida, sem alma.
Dayse, por sua vez, mantinha-se firme, quase como uma estátua de mármore, inabalável e serena. A frieza de Enzo não a atingia mais. Assim, noite após noite, seguiam, dois estranhos unidos por um pacto silencioso, onde a funcionalidade era a única constante.
No entanto, Enzo estava tenso — não com ela, mas com o processo. Dayse percebia isso nos gestos, nos olhares perdidos para o chão após o ato. A rigidez dele escondia um conflito interno que ele não compartilhava.
Em uma dessas noites ela notou algo diferente: ele estava mais intenso. O olhar, antes frio e distante, agora carregava uma mistura intrigante de dúvida e desejo. Algo novo estava surgindo entre os dois.
Embora insistisse em manter o semblante frio, Enzo parecia cada vez mais enredado naquela atmosfera que os envolvia. Sua presença, antes marcada pela pressa e pela indiferença, agora se prolongava no quarto, como se o ar pesado o atraísse, como se ele próprio não soubesse mais como sair.
Seus toques haviam perdido a rigidez clínica; eram mais lentos, mais incertos, porém carregados de uma eletricidade silenciosa que fazia a pele de Dayse arrepiar a cada aproximação. E, vez ou outra, um suspiro escapava de seus lábios — rouco, involuntário, um traço de desejo que ele não conseguia mais esconder.
Dayse percebia. E aquilo a deixava em alerta, mas também... desperta. Havia algo inebriante naquele jogo silencioso. Queria acreditar que significava alguma coisa — que, por trás daquela couraça gelada, havia um homem real, prestes a se desfazer.
Numa das noites, Enzo se aproximou devagar, com um arrastar de passos que parecia medir cada centímetro entre eles. Seus dedos, trêmulos, pairaram a poucos milímetros do corpo dela, como se o desejo fosse grande demais para ser negado, mas a culpa ou o medo o impedissem de ceder completamente.
Por duas vezes, seus olhos cruzaram os de Dayse, famintos, intensos, mas logo desviaram para o corpo dela, como se quisesse devorá-la por inteiro. Dayse, por sua vez, não se moveu. Manteve-se ereta, os olhos cravados nos dele, oferecendo não fuga, mas desafio.
― "Venha", diziam seus olhos ― "Seja homem o bastante para atravessar essa distância."
E ele quase foi. Estendeu a mão, lenta, quase reverente, até parar a centímetros do rosto dela. O calor da respiração de ambos se misturava no ar espesso, e Dayse sentiu o corpo inteiro tenso, pronto, desejando o toque que não veio.
Enzo vacilou. Os dedos tremularam no ar, prontos para roçar a pele, mas então... recuaram. Como sempre, ele se fechou, como se cada impulso de entrega fosse um erro a ser corrigido. Como se não soubesse como lidar com a combustão iminente entre eles.
E ela, imóvel, o acompanhou com o olhar enquanto ele se afastava mais uma vez, frustrado, dominado por aquela força que insistia em manter sua alma e seu corpo sob controle.
Mas, naquele instante, Dayse soube: ele queria. Queria com a mesma intensidade que negava.
E o desejo reprimido... é sempre o mais perigoso.
E foi assim desta vez também... Quando tudo terminou, ele se vestiu em silêncio, sem pronunciar uma única palavra.
― Inaceitável! ― Bellucci explodiu, sua frustração palpável. ― A genética dela foi aprovada por vocês. O esperma dele, testado. O que está dando errado?
― Biologia, senhor ― o médico tentou explicar ― não é uma equação exata.
― Então aumentem a dosagem ― ordenou Bellucci, sua voz cortante como uma lâmina.
― Sejam mais agressivos na estimulação. Quero múltiplos óvulos viáveis no próximo ciclo. E, se possível, induzam uma gestação gemelar.
Dayse não ousou respirar, permanecendo imóvel no corredor, olhos semicerrados. Não era apenas sobre engravidar; era sobre números, eficiência, poder.
Ela retornou ao quarto sem pronunciar uma única palavra e, pela primeira vez, sentiu seu corpo doer antes mesmo da seringa tocar sua pele. Naquela noite, Enzo não apareceu. Luna, com sua habitual frieza, entregou-lhe um bilhete manuscrito.
“Suspensão temporária dos encontros. Protocolo médico ajustado. Concentração total na ovulação.”
Dayse leu o bilhete como quem lê uma sentença. Mas dessa vez, não sentiu raiva nem tristeza. Sentiu nojo.
Sentada na cama, com o caderno no colo, escreveu: "O avô tem nome agora: Lourenço Bellucci. Ele quer resultados, não netos. Não família. Resultados. Eles me querem fértil como uma lavoura e colhida em dobro. Enzo cede, não reage, não protege. A guerra está mais perto do que imaginam."
Fechou o caderno, apagou a luz e deitou-se de lado, abraçada ao próprio ventre.
E pela primeira vez, não pensou na dor emocional. Pensou no que fariam com seu corpo se ela deixasse. E prometeu a si mesma: "se eles querem dois bebês... vão ter que enfrentar duas Dayse também. Uma fora. E outra por dentro."

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