O som do relógio na parede era o único ruído audível no quarto. Tique-taque. Tique-taque. Cada segundo se arrastava, pesado, como se o tempo estivesse preso em uma espiral sem fim.
Dayse estava deitada sobre os lençóis de algodão branco, imóveis sob seu corpo tenso. Seus olhos vagavam pelo teto, onde uma pequena rachadura se escondia entre os cantos da moldura de gesso.
Uma rachadura discreta, insignificante para qualquer um que passasse por ali. Mas para ela, era uma fissura na perfeição que deveria existir, um detalhe que não pertencia ao ambiente limpo e ordenado ao seu redor.
A rachadura existia. Assim como ela.
E, naquela noite interminável, ambas pareciam prestes a se partir.
Fazia oito dias desde a segunda tentativa de concepção. Oito dias de espera. Oito dias de silêncio.
O corpo dela começava a reagir, mas não com os sinais esperados de gravidez. Em vez disso, um cansaço profundo tomava conta, como se a energia fosse sugada por um buraco negro invisível. Dores de cabeça constantes, náuseas esporádicas e um coração que disparava sem motivo aparente. Algo estava errado, tanto dentro quanto fora dela.
Luna aparecia todos os dias, pontualmente, para entregar os comprimidos. Ela se certificava de que fossem engolidos na sua frente, sem margem para dúvidas. A comida era medida com precisão, os exames agendados meticulosamente.
Não havia espaço para liberdade, nem um momento de trégua.
Na manhã do sexto dia, um bilhete foi deixado na bandeja do café. Sem uma palavra de Luna, apenas a convocação escrita: "Consultório, 9h. Obrigatório."
Ela se arrumou em silêncio, vestindo o vestido branco de algodão com mangas longas e prendendo o cabelo em um coque simples. Por fora, parecia a mulher dócil que todos esperavam. Por dentro, sentia-se prestes a se despedaçar.
Ao entrar no consultório, foi recebida pelo ginecologista e por uma médica jovem — e, por ele, Lorenzo Bellucci. O patriarca.
Estava sentado como um rei, com as pernas cruzadas e a bengala apoiada no joelho. Seu terno cinza escuro impecável contrastava com os olhos frios que percorriam o corpo de Dayse, como se avaliassem um produto de mercado.
Lorenzo não disse nada. Apenas a observava, seus olhos como lâminas de gelo, cortando qualquer vestígio de resistência que ela pudesse ter. Dayse sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas manteve a postura, determinada a não deixar transparecer o turbilhão que se passava dentro dela.
― Sente-se ― disse ele, antes mesmo que alguém a cumprimentasse.
Ela obedeceu.
O médico limpou a garganta e falou com cuidado:
― Senhor Bellucci, senhora Bellucci, os últimos testes infelizmente não confirmaram fecundação. O ciclo não resultou em gravidez.
Um silêncio pesado se instalou.
Lorenzo não reagiu de imediato, apenas ficou olhando fixamente para o doutor por alguns segundos, que pareceram eternos.
Finalmente, ele quebrou o silêncio, sua voz baixa, mas afiada como uma navalha:
― Isso é inaceitável.
― Os indicadores estavam altos, os hormônios respondendo bem. Não é incomum em protocolos como este ― tentou justificar a médica, a ansiedade evidente em sua voz.
― Então melhorem o protocolo ― retrucou ele com desdém, os olhos faiscando.
― Usem o que for preciso: medicamentos, tecnologia, ensaios clínicos. Não estamos cultivando flores aqui. Estamos criando um herdeiro.
Dayse manteve o olhar fixo num ponto da mesa, seu estômago revirando como se estivesse em um mar agitado, mas não demonstrou nada.
Lorenzo então se levantou, apoiando-se com uma falsa delicadeza na bengala. Caminhou até ela com passos lentos, cada movimento calculado. Parou bem à sua frente, seus olhos penetrantes a examinando de cima a baixo, como se estivesse avaliando uma égua defeituosa em um leilão.
Ele sorriu, mas o sorriso era triste. ― Não sei se isso é o mesmo que estar bem.
Dayse hesitou, sentindo o peso das palavras dele. Então, como quem toma um passo decisivo, estendeu a mão.
— Me dá alguma coisa... qualquer coisa. Eu preciso de um pedaço do mundo...
Thiago olhou para a mão estendida, e por um momento, o tempo pareceu parar.
Ele tirou algo do bolso do casaco, um pequeno objeto, e colocou na mão dela. Era um celular antigo. De modelo simples, sem chip. Estava embrulhado num saco plástico.
— Não faz chamadas. Nem tem internet. Mas tem gravador, lanterna, agenda e um carregador. Pode usar pra anotar... ou guardar provas...
Dayse segurou o aparelho como se fosse ouro.
— Você não existe.
— Então não conta pra ninguém — respondeu ele, antes de se virar e desaparecer pela mesma entrada de onde veio.
Naquela noite, com o coração acelerado, Dayse escondeu o celular dentro da almofada da poltrona.
No caderno, ela anotou: "Dia 51: O herdeiro não veio, mas o inimigo sim. Lorenzo, o controle agora é total. Thiago trouxe uma bússola, pequena, mas suficiente para apontar para fora."
Fechou o caderno e, pela primeira vez em dias, um sorriso fraco, mas genuíno, surgiu em seu rosto.
"Um dia," pensou ela, "eles vão descobrir que minha mente nunca esteve sob o contrato."

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