Dayse sentia que algo dentro dela estava começando a se despedaçar, e não era apenas seu corpo. Naquela manhã, acordou com o estômago revirado, os braços pesados e a cabeça latejante. O enjoo vinha em ondas, mesmo sem ter comido nada. O ar parecia mais denso, como se a mansão tivesse mudado de gravidade.
A bandeja do café da manhã chegou como sempre: suco de frutas naturais, torradas, suplementos e, ao lado do copo de água, três cápsulas ― duas brancas e uma laranja. Ela as observou por longos segundos, sentindo um peso invisível sobre seus ombros.
― “Estão me desmontando aos poucos e nem disfarçam mais” ― pensou, com uma tristeza profunda. Engoliu os comprimidos com um único gole de água, sem esboçar expressão alguma, como se cada movimento fosse uma batalha silenciosa.
Luna observava em silêncio, como fazia todas as manhãs. Mas hoje, havia algo diferente nela. Uma tensão contida no canto da boca, talvez impaciência, talvez medo.
— O senhor Bellucci chegará à tarde — disse ela, enfim, sem rodeios. — Hoje será realizada uma nova tentativa.
Dayse manteve o rosto imóvel, apenas assentindo.
— Entendido.
Era assim que ela sobrevivia agora: com frases curtas e obediência aparente. Mas cada "sim" escondia um "não" gritado com todas as forças.
No final da manhã, Dayse foi levada ao consultório para exames de rotina. No entanto, o que encontrou ali estava longe de ser rotina; era uma armadilha disfarçada de ciência.
A equipe havia mudado mais uma vez. A jovem médica Isabella, com movimentos precisos, preparava uma seringa contendo um líquido leitoso. Enquanto isso, o ginecologista conversava em voz baixa com outro auxiliar, suas vozes se misturando ao som abafado do ambiente.
Isabella se aproximou de Dayse, exibindo um sorriso que parecia ensaiado.
— Não vai doer nada, eu prometo — disse ela, tentando tranquilizá-la.
Dayse, no entanto, não se sentiu tranquilizada. O olhar furtivo que o ginecologista lançou ao auxiliar, como se compartilhassem um segredo, fez seu coração acelerar. Um calafrio subiu por sua espinha, e o ar no consultório pareceu se tornar mais denso, quase palpável, como se algo invisível e inquietante pairasse sobre todos ali.
Quando Luna saiu da sala por um instante, Dayse se inclinou e sussurrou, com os olhos arregalados:
― O que é isso?
Isabella congelou por um segundo, antes de responder com uma voz tão baixa que parecia parte de uma instrução técnica:
― Uma nova combinação hormonal. Alta concentração de gonadotrofina e um agente estabilizador que não foi aprovado pela Anvisa.
― Isso é legal? ― Dayse perguntou, a preocupação evidente em seu rosto.
Isabella olhou ao redor, certificando-se de que ninguém mais estava ouvindo, e então fixou os olhos em Dayse.
― Não, não está liberado para uso ― respondeu ela, a palavra saindo como uma lâmina afiada e precisa.
― Então por que estão usando? ― Dayse insistiu, a tensão crescendo em sua voz.
― Porque Lorenzo não quer esperar ― Isabella respondeu, sua expressão séria.
― Ele quer resultados imediatos.
A médica parecia nervosa, mas não recuava.
Dayse, por sua vez, mantinha-se firme. O medo, agora, era outra coisa, uma substância que se transformava em força.
― Isso pode me matar? ― perguntou. A médica não respondeu, apenas desviou o olhar.
À tarde, Enzo chegou, sem aviso, sem palavras, apenas o som seco de seus passos ressoando pelo mármore da casa, quebrando o silêncio com brutalidade.
Ele entrou no quarto sem pedir licença, como sempre fazia, mas Dayse percebeu imediatamente: havia algo diferente nele. Não era mais apenas a frieza calculada de quem cumpre um dever; agora, era um vazio absoluto, uma ausência que parecia consumir tudo ao redor.
Seus olhos cruzaram os dela, mas não permaneceram — fugiram após dois segundos, como se encará-la fosse insuportável, como se ela fosse um espelho que ele não pudesse suportar.
E isso, paradoxalmente, doeu mais do que qualquer palavra fria ou gesto mecânico que ele já tivera antes.
― A partir de hoje, repouso absoluto. Aplicações hormonais a cada doze horas, exames diários e nenhuma conversa com funcionários, inclusive copeiras.
― Algum motivo para essa súbita contenção? ― perguntou Dayse, sem levantar os olhos do caderno que fingia ler.
Luna não respondeu, mas Dayse entendeu.
― “Eles sentem” ― pensou ― “sentem que estou respirando de outro jeito, que há algo se mexendo por dentro. E não é um filho como eles querem.”
Naquela noite solitária, ela se dedicou a organizar os arquivos no celular.
Com precisão, renomeou os dois áudios e fez cópias em um cartão de memória que Thiago havia trazido para ela. O cartão estava cuidadosamente escondido na base da escrivaninha, como um segredo guardado a sete chaves.
Enquanto trabalhava, a luz suave do abajur lançava sombras dançantes nas paredes, criando um ambiente quase mágico. Cada clique no celular parecia ecoar na quietude da noite, e ela sentia uma mistura de ansiedade e determinação.
Com um suspiro profundo, ela finalizou a tarefa, sentindo o peso da responsabilidade e a esperança de que tudo daria certo.
Depois escreveu no caderno:
"Dia 54: Eles voltaram com mais força. Mas eu também estou forte, só que eles não sabem."
"Meu corpo pode estar quebrando, mas a mente está criando trincheiras."
"Não vou sair daqui apenas viva. Vou sair com provas. E com sangue nos olhos, se for preciso."
Fechou o caderno e o escondeu debaixo do assoalho na escuridão do quarto. Seu rosto estava pálido, os olhos escavados, mas brilhavam com uma promessa silenciosa.
― "Eles acham que vão me fazer desaparecer" ―pensou ― "mas vão aprender que algumas mulheres, mesmo caídas, sabem deixar rastros suficientes para incendiar tudo."

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