A manhã começou sem cor, como se o céu tivesse esquecido de ser pintado pelo mundo.
Dayse estava sentada na escrivaninha, com os olhos fixos no copo de água à sua frente. Ao lado, três comprimidos: dois brancos e um azul, os mesmos de sempre, que ela vinha tomando há semanas. Mas agora ela sabia: aquilo não era só remédio; era veneno disfarçado de cuidado.
Sem hesitar, ela os engoliu, fingindo aceitar a situação — era parte do disfarce que precisava manter. Cada deglutição era uma tentativa silenciosa de se afirmar.
— Eu vejo vocês. Sei o que estão fazendo — pensou, enquanto tentava manter a expressão neutra.
Luna observava tudo com sua frieza habitual. E o dia trouxe uma mudança na rotina: um exame novo, muito mais invasivo desta vez. Um ultrassom com soro injetável, para fazer um mapeamento interno. O que eles estavam querendo ver?
A jovem médica, Dra. Isabella, parecia desconfortável enquanto preparava o equipamento. Murmurou:
— O protocolo mudou.
Dayse baixou a cabeça, a voz carregada de preocupação:
— De quem foi essa decisão?
Dra. Isabella desviou o olhar para a porta, onde Luna ainda aguardava do lado de fora.
— Do senhor Lorenzo. E... há componentes que não foram aprovados — disse, com a voz baixa e bastante tensa. — Não estão nos registros oficiais, nem nos documentos que você assinou.
A frase ficou no ar, pesada e difícil de ignorar, como uma nuvem carregada. Dayse respirou fundo, sentindo o peso dessas palavras.
— Por que você está me contando isso?
Dra. Isabella a olhou com um olhar cheio de medo, mas também de determinação.
— Porque... já vi uma mulher morrer assim, numa clínica no México. Não quero que isso aconteça de novo.
Naquele momento, Dayse sentiu uma esperança inesperada: finalmente, alguém dentro daquele lugar tinha consciência do que estava acontecendo.
O exame continuou, mas agora ela tinha duas certezas: não estava louca, e eles estavam correndo contra o tempo, prontos para usar qualquer recurso para alcançar seus objetivos.
De volta ao quarto, Dayse esperou com paciência. Quando ouviu Luna roncar suavemente no quarto ao lado, puxou a almofada e pegou o pequeno celular que estava escondido e se dirigiu novamente para o ponto de escuta.
Ela encostou o aparelho na parede, o coração batendo forte no peito, cada pulsação parecia um tambor anunciando sua coragem.
Dez minutos depois, vozes ecoavam pelo laboratório.
— O corpo dela não está reagindo como esperado. Os hormônios estão entrando em conflito com os receptores.
— Aumentem a dose, sem discutir — ordenou o senhor Bellucci, firme e implacável.
— Isso pode levar a um colapso renal — alertou um assistente, claramente preocupado.
— Então resolvam quando isso acontecer. Exijo resultados. Essa é a última tentativa antes da fertilização in vitro com sedação total. Ela não precisa estar consciente — cortou Bellucci, com uma voz cortante como uma lâmina afiada.
O silêncio tomou conta do ambiente até que a porta se fechou com um estrondo.


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