Dayse piscou lentamente, as pálpebras pesadas, como se estivessem sob o peso de uma força invisível. Os sons ao seu redor pareciam distantes, abafados, como ecos tênues carregados pelas profundezas de um vasto e silencioso oceano.
O sedativo corria por suas veias lentamente, puxando-a para a inconsciência. Enquanto sua mente se agarrava desesperadamente a pensamentos fugazes, na tentativa de se manter alerta.
Era uma luta silenciosa — um equilíbrio frágil entre rendição e resistência, entre a atração do esquecimento e o anseio de permanecer presente.
― “Resista” ― repetia para si mesma.
A última imagem que captou antes que tudo se desfizesse em borrões foi o rosto da médica Isabella, curvada sobre ela, segurando o soro com dedos tensos e olhos que gritavam em silêncio.
Então, o mundo apagou-se em sombras.
— A pressão dela está caindo — anunciou Isabella, ajustando o equipamento com uma calma cuidadosamente calculada. — Ritmo cardíaco instável. Saturação despencando rapidamente.
O anestesista se aproximou em alerta. Os batimentos cardíacos de Dayse se tornaram irregulares, acelerando em espasmos descontrolados.
— Interrompa imediatamente — ordenou Isabella, voz firme, clara, mas carregada de urgência. — Emergência cardiovascular em curso.
Do outro lado da janela de observação, Lorenzo Bellucci observava a cena impassível, com os músculos da mandíbula apertados em silenciosa irritação. O leve ranger de seus dentes denunciava seu desconforto. Apertou a bengala prateada com força antes de entrar na sala, trazendo consigo uma presença imponente que encheu o ambiente inteiro como um vento frio.
— Que diabos está acontecendo aqui? — sua voz ecoou pela sala, um trovão de frustração prestes a explodir.
— O corpo dela entrou em colapso hormonal — Isabella respondeu, mantendo a calma sob pressão. — Não aguenta mais intervenções. Se continuarmos, arriscamos falência hepática ou até mesmo parada cardíaca.
— Impossível. Vocês garantiram que ela era saudável!
— E ela era — Isabella respirou fundo, contendo qualquer vestígio de nervosismo. — Mas ultrapassamos os limites dela. Se o senhor realmente deseja um herdeiro, precisará dela viva para gerá-lo.
— Qual é a alternativa então? — a voz de Lorenzo era ácida, impregnada de desdém.
Um silêncio profundo se estabeleceu, quase sufocante. Lorenzo aproximou-se lentamente da maca onde Dayse repousava inconsciente. Observou seu rosto pálido, suado, e sentiu a derrota percorrer seu corpo, amarga como veneno.
Isabella hesitou por um instante, sentindo o peso daquele momento crucial, e então, com uma naturalidade arrepiante, decidiu-se pela mentira:
— Existe uma possibilidade... limitada. Pelos exames hormonais dela, o corpo de Dayse responde apenas ao método natural. Biologicamente, ela rejeita tratamentos artificiais. É incomum, mas já documentado. Em casos semelhantes, apenas a reprodução tradicional funcionou.
— Natural? — Lorenzo arqueou as sobrancelhas, misturando surpresa e repulsa. — Você quer que eu aposte na sorte?
— Estou dizendo que essa é a única chance sem matá-la.
Lorenzo encarou Isabella por um longo instante, olhos estreitos e carregados de desprezo. Em seu mundo, aquilo era humilhante: toda a medicina moderna derrotada pelo capricho biológico de uma garota de dezoito anos.
Mas ele não aceitaria uma derrota.
— Que seja. Quero esse herdeiro — declarou com uma voz baixa e cortante. — A partir de hoje, Enzo ficará com ela. Todas as noites. Até que engravide.
Virou-se e saiu da sala com passos pesados, o som da bengala ecoando como um martelo sobre a pedra fria.
Dayse acordou lentamente, como se emergisse das profundezas de um oceano escuro, o corpo pesado pelo esforço de retornar.
Um gosto metálico persistia em sua boca, e seu coração batia lentamente, cada batida ecoando exaustão, como se tivesse lutado com muita força para continuar.
Seu corpo parecia estranhamente leve, como se parte dela tivesse ficado para trás, naquela mesa fria do centro cirúrgico.



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