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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 23

A primeira manhã após a mudança chegou silenciosa, suave como neve caindo sobre o vidro frio.

Dayse acordou lentamente, sentindo o peso dos olhos e o corpo dolorido, como se tivesse passado a noite presa entre paredes que se fechavam lentamente.

Enzo já estava acordado, de costas para ela, abotoando devagar a camisa branca sobre os ombros tensos.

Ele não a cumprimentou. Ainda que o silêncio entre os dois pesasse como uma tempestade prestes a desabar, ela não sentiu a menor urgência de quebrá-lo.

A cadeira da escrivaninha rangia discretamente, pontuando o silêncio com um ritmo quase melancólico. Por longos minutos, o outro único som perceptível era o farfalhar discreto das páginas que Enzo virava lentamente, concentrado em algum documento.

Mesmo em silêncio, havia uma tensão silenciosa no ar, discreta, mas impossível de ignorar. Era como se ambos tivessem que aprender a conviver com esse espaço invisível entre eles, um intervalo onde as palavras já não cabiam, onde o que existia era apenas a presença, densa e incontornável.

Dayse levantou-se devagar, caminhando até a penteadeira com passos arrastados. Começou a pentear os cabelos sem pressa, desviando o olhar do reflexo dele no espelho, até que a voz de Enzo, baixa e contida, quebrou a quietude:

— Somos obrigados a ficar no mesmo quarto, mas você não precisa fingir que dorme tranquila.

Dayse suspendeu a escova no ar, hesitando por um segundo antes de encontrar os olhos dele através do espelho.

— Eu não durmo tranquila desde que cheguei aqui.

Enzo desviou o olhar, voltando a atenção para os papéis à sua frente. A conversa morreu ali mesmo, fria e inacabada, tão breve quanto um suspiro.

Nos dias seguintes, uma rotina implacável tomou conta de suas vidas.

Enzo saía cedo, submerso nas obrigações da família: reuniões intermináveis, almoços protocolares, compromissos desgastantes.

Retornava sempre à noite, tomava banho, mergulhava em um silêncio sombrio, cumpria mecanicamente suas obrigações conjugais e adormecia logo em seguida.

Dayse permanecia confinada sob o olhar constante e severo de Luna. As medicações eram administradas em doses cuidadosamente reduzidas, supostamente para equilibrar hormônios, embora todos soubessem que a verdadeira intenção era evitar qualquer crise que pudesse incomodar Lorenzo.

Todas as noites, quando Enzo se deitava à esquerda da cama, Dayse ocupava o lado oposto. Entre eles pairava uma distância silenciosa, invisível e impenetrável, como se um muro feito de silêncio e indiferença tivesse sido cuidadosamente erguido.

Seus corpos só se encontravam no inevitável instante da consumação física, sem carinho, sem afeto, sem trocas. Não havia quase palavras, e eles viviam lado a lado, presos como peças de um jogo esperando ordens para se mover.

Dayse começou então a registrar seus dias, não apenas sobre o que sentia ali, mas sobre o que percebia nele também.

Dia 60: Dorme com o braço sobre o rosto, talvez tentando esconder os olhos ou apagar algo que viu.

Dia 61: Acorda exatamente às cinco, mas fica parado por quase vinte minutos, imóvel, como se precisasse reunir forças para suportar mais um dia.

Dia 62: Tem uma cicatriz no pulso esquerdo. Alguma dor antiga, escondida sob a pele, silenciosa e profunda.

Ela o estudava com o cuidado silencioso de quem analisa a cela que a prende, buscando qualquer mínima fresta, qualquer rachadura por onde pudesse entrar um pouco de luz.

Na terceira noite algo se alterou. Enzo estava sentado na cama, desabotoando distraidamente a camisa. Interrompeu-se de repente, e, sem sequer encará-la, lançou no ar uma pergunta seca:

— Não é cansativo ficar sempre representando esse papel de vítima?

Dayse permaneceu quieta por um longo instante, e então lentamente ergueu o olhar do chão até encontrar o dele, respondendo com uma calma inquietante:

— Representar é a única forma de sobreviver aqui. Você deveria entender isso melhor do que ninguém.

Ele a encarou em silêncio, e pela primeira vez a máscara de segurança que sempre usava pareceu estremecer. Não respondeu nada, apenas continuou olhando-a, como se tentasse conciliar o que ouviu com tudo aquilo que havia aprendido sobre ela.

Na manhã seguinte, Luna chamou Dayse ao consultório. Fechou cuidadosamente a porta, antes de anunciar em tom quase autoritário:

— O senhor Lorenzo espera progresso. Mudança de comportamento, aproximação, diálogo… Qualquer coisa que justifique a continuidade do protocolo.

Dayse cruzou os braços com calma desafiadora:

— Como posso me aproximar de alguém que mal me dirige o olhar? Diga ao senhor Lorenzo que seu neto cumpre perfeitamente suas obrigações sexuais, e isso já deveria bastar.

Luna respirou fundo, tentando manter o controle:

— Você ainda está aqui porque é útil. Não desperdice isso.

O silêncio se estendeu, pesado, até que Dayse virou lentamente o rosto, voltando a fitar as sombras projetadas no teto. Quando respondeu, sua voz saiu baixa, mas cortante, afiada como uma lâmina:

— Porque aqui… quem pergunta só alimenta ilusões. Ninguém é autorizado a dizer a verdade. Tudo é uma encenação sem fim.

Ela soltou um leve suspiro, sem olhar para ele, antes de completar com a mesma frieza:

— E eu não tenho mais interesse em ouvir mentiras bem ensaiadas.

Enzo permaneceu imóvel, a mandíbula tensa, os punhos cerrados, como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse. Engoliu em seco e, após uma pausa longa, sua voz soou bem mais baixa, quase um sussurro doloroso:

— Você realmente quis tudo isso? Vender seu filho?

Dayse fechou os olhos por um segundo, sentindo a pergunta atravessar-lhe o peito como um punhal. Não era uma provocação qualquer; havia algo mais ali, talvez dor, talvez dúvida.

Respirou fundo e então respondeu, com uma tristeza que parecia transbordar, mas sem perder a firmeza:

— Um dia você vai descobrir a verdade sobre o que aconteceu comigo, Enzo…

Ela então abriu os olhos e, pela primeira vez naquela noite, olhou diretamente para ele, a voz tão baixa quanto carregada de peso:

— E espero que, quando esse dia chegar, você ainda consiga sentir alguma coisa. ― Dayse virou-se para o lado, encerrando a conversa com o peso amargo das suas palavras.

Enzo desviou o olhar, apertou os olhos como quem se defende de um golpe e, sem dizer mais nada, virou-se bruscamente e continuou ali, imóvel, encarando o teto, e naquela noite o sono não veio fácil.

Quando deu uma brecha, Dayse registrou em seu diário:

Dia 63. Pela primeira vez ele demonstrou dúvida. A rachadura é pequena, mas agora há luz entrando. Se ele quisesse, poderia descobrir tudo, mas talvez ele realmente não queira saber a verdade.

Com um suspiro longo, fechou o caderno e escondeu-o sob o assoalho. Deitou-se novamente, buscando algum conforto no travesseiro frio.

Ao seu lado, Enzo continuava imóvel, mas sua respiração agora parecia diferente: inquieta, irregular. O silêncio começava finalmente a revelar os segredos que ambos tentavam esconder.

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