Quando Dayse entrou no quarto, o peso esmagador da solidão desceu sobre ela, avassalador e totalmente implacável. Mas nem uma única lágrima ousou escapar de seus olhos.
Afinal, fizera um pacto consigo mesma, desde a série de rejeições sofridas na infância.
Algo dentro dela se partiu desde então. Ela sentiu na pele a dor da decepção, mas também a força de uma nova determinação: nunca mais permitiria que sua felicidade dependesse de alguém.
A partir dali ela seria sua própria fortaleza, seu próprio abrigo. Criou uma barreira emocional, aprendeu a se virar sozinha.
Nove meses presa em uma mansão enorme e sem vida, com comida racionada e a companhia emocionante de seu próprio eco? Ah, ela poderia lidar com isso. Por que não? Não é como se ela tivesse algo melhor para fazer.
A lembrança das dores intensas da noite anterior e do sangue fresco escorrendo de seu corpo ainda a atormentava. A desesperança ameaçava consumi-la, como uma sombra que se estendia por cada canto de sua mente. Não parecia haver saída, mas, vida que segue...
Mais tarde, Dayse notou o sangue no fundo do vaso sanitário. Era tão pouco, quase imperceptível, apenas um traço tênue, um eco distante de algo maior. Mas aquele pequeno vestígio trouxe consigo uma avalanche de incertezas.
― E se não fosse menstruação? ― A pergunta ecoou em sua mente, pesada e insistente. ― E se fosse algo... algo lutando para existir, para sobreviver, apesar de tudo?
Com um gesto hesitante, quase reverente, ela pousou a mão sobre o ventre.
O toque era leve, mas carregado de significado. Sentiu o calor da própria pele e, junto dele, uma tempestade de emoções que a atravessava: medo, como uma sombra fria que sussurrava possibilidades sombrias; e esperança, frágil e luminosa, como uma chama que se recusa a apagar.
Por um instante, ela ficou ali, suspensa entre o que sabia e o que poderia ser, tentando decifrar o que seu corpo e seu coração estavam tentando lhe dizer.
Naquela noite, com as mãos firmes e o coração pulsando de determinação, ela escreveu:
“Dor, sangue e medo me cercavam, mas ninguém veio. E, mesmo assim, eu sobrevivi. Luna voltou e me pediu para continuar tomando aqueles remédios, mas meu coração me diz para não tomar. Se houver uma vida crescendo dentro de mim, nascerá não só do desprezo, mas também do meu amor e coragem.”
À luz suave da noite, com as mãos ainda tremendo, continuou a escrever:
"Me deixaram sozinha. Me chamaram de falha. Me ameaçaram com contratos e me prenderam com burocracia. Mas esqueceram que sobreviver também é uma escolha. Vou respirar a cada dia que tentarem me calar. E quando esse prazo acabar, não vou apenas sair. Vou renascer."
Cada palavra carregava a intensidade de suas emoções, uma promessa silenciosa de resistência e renascimento.
Com um gesto decidido, ela fechou o caderno e, antes de apagar a luz, lançou um último olhar ao espelho.
― “Podem tentar me descartar, me isolar ou me deixar à míngua, mas ninguém vai conseguir impedir se algo estiver florescendo dentro de mim.”
Deitou-se na cama e permitiu que o eco da mansão vazia preenchesse o ambiente com um sussurro carregado de emoção.
― Eu não sou a mulher errada ― afirmou com convicção ― vocês é que são os homens errados.
O tempo parecia correr de maneira diferente agora; a mansão parecia imensa e o silêncio parecia ter vida própria. Cada canto sussurrava segredos e cada passo ecoava como um grito abafado.
Às vezes, ela pensava em Thiago e na Dra. Isabella, as poucas pessoas que haviam demonstrado alguma preocupação por ela. Onde estariam agora? Será que sabiam das dificuldades que ela estava enfrentando? Esses pensamentos eram como pequenos lampejos de luz em meio à escuridão de sua mente.
Certa tarde, um impulso de energia frenética a tomou. Ela começou a limpar o quarto com uma intensidade quase desesperada, tentando se manter ocupada, tentando afastar a sensação esmagadora de desespero que ameaçava consumi-la. Cada movimento era uma tentativa de encontrar algum controle, alguma ordem em meio ao caos de sua existência.
Dayse levou as roupas sujas até o cesto, sentindo o peso de cada peça como se fosse um fardo emocional. Em seguida, rearrumou os livros na pequena escrivaninha, tentando encontrar um pouco de ordem em meio ao caos. Ao afastar uma antiga caixa de madeira esquecida no fundo de uma das gavetas do armário, algo caiu. Era uma foto.
Ela se abaixou e pegou o retrato simples, onde Enzo sorria discretamente ao lado de uma mulher loira mais jovem, com feições delicadas e um ar íntimo demais para ser apenas amizade. Ambos vestiam roupas casuais e estavam abraçados como um casal.
Dayse sentou-se na cama, segurando a foto com firmeza entre os dedos. Virou-a e leu o verso. Letras femininas, com curvas elegantes, diziam: "Para Enzo, o único que realmente me viu além da superfície. Sempre sua, V."
O coração de Dayse apertou, e ela sentiu uma mistura de curiosidade e dor. Quem era essa mulher? O que ela significava para Enzo? Não havia data, sobrenome, nenhum detalhe além de uma única letra: V. Mas aquilo pesava. Não era ciúme nem posse; era a angústia de perceber que não conhecia Enzo tão bem quanto pensava e que talvez nunca saberia quem ele realmente era.
Com a imagem repousando em seu colo, ela murmurou com um nó na garganta: "Quem é você, Enzo Bellucci? O robô que segue ordens, o filho silencioso do grande império Bellucci, ou alguém que já foi amado e decidiu apagar isso?"
Guardou a foto entre as páginas do caderno, e com mãos trêmulas, escreveu logo abaixo:
"Encontrei algo. Uma imagem fora do script. Uma mulher. Um nome com uma letra. Um passado que ele esconde." Como era Enzo antes de se tornar uma pedra de gelo?
Fechou o caderno e se deitou na cama, o estômago roncando de fome. A comida fornecida não era suficiente para sustentar uma pessoa dignamente. O peito apertava, mas sua mente estava em outro lugar. Se há algo em Enzo que alguém já amou um dia, então talvez ainda exista algo dentro dele que valha alguma coisa.

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