Dayse, em um momento de introspecção e desespero, decidiu começar a marcar os dias na parede do quarto, na tentativa de acompanhar o tempo que estava presa; queria ter uma noção clara do tempo que já havia passado e do que ainda estava por vir.
A incerteza sobre o tempo exato que já havia passado e quanto ainda faltava para sua liberdade a consumia. Cada marca representava uma mistura de esperança e angústia, um lembrete tangível de sua situação.
Seu corpo já não parecia mais pertencer a ela da mesma forma. Algo diferente estava acontecendo, um desconforto que surgia pela manhã e se arrastava pelo dia inteiro.
Ultimamente, ela se sentia exausta, mesmo sem ter muitas tarefas para realizar. A fadiga era constante, e o sono parecia ser seu companheiro inseparável, tanto de dia quanto de noite. Ela estava sempre com sono, como se seu corpo e mente estivessem em uma batalha silenciosa e incessante.
A boca seca trazia consigo um gosto estranho, metálico, como um aviso silencioso que se recusava a ser ignorado. A pele, agora mais opaca, refletia um cansaço profundo, enquanto o peito sensível denunciava uma vulnerabilidade crescente.
Seu rosto, marcado por um desgaste novo, parecia esmaecido, como papel esquecido sob o sol por tempo demais. No entanto, não era a fraqueza nem a fome intermitente que a imobilizavam. Era algo mais profundo, algo que seu corpo reconhecia, mesmo que sua mente ainda não conseguisse compreender.
Quando a fome surgia, era como um golpe intenso e urgente, uma necessidade avassaladora que, paradoxalmente, se dissipava rapidamente, fugidia, como se ela mesma negasse sua própria existência.
O cheiro do arroz envelhecido a fazia recuar, seu estômago se retorcendo em um protesto silencioso contra algo que antes passava despercebido.
As náuseas chegavam cedo, afiadas e implacáveis, às vezes despertando-a antes mesmo que seus olhos tivessem coragem de se abrir, trazendo consigo uma sensação de vulnerabilidade e desconforto que a acompanhava ao longo do dia.
Aquele instinto, uma presença muda e pulsante, crescia no fundo do ventre. Não era apenas um desconforto, nem um medo vago. Era um calor estranho, um sussurro interno que se espalhava como um segredo que o próprio corpo guardava. Uma pulsação quase imperceptível, mas insistente.
Não era apenas uma impressão passageira; era algo mais profundo, algo visceral. Uma consciência sem nome expandindo-se dentro dela, exigindo atenção, pedindo espaço, ocupando cada silêncio que ela tentava preencher com lógica.
Se não era fome, então talvez fosse algo ainda mais impossível de ignorar.
Certo dia, Luna apareceu. Não bateu na porta, simplesmente entrou.
— Você está pálida ― disse, observando-a sob a luz fraca, como se a pele translúcida revelasse mais do que deveria. Sua voz manteve o tom habitual, mas os olhos dela se estreitaram, cautelosos.
— Você está se alimentando?
Dayse permaneceu ali, imóvel. Sentada no canto da cama, envolta em um robe grosso, como se o tecido pudesse bloquear o frio que vinha de dentro. O silêncio entre elas se arrastou, pesado e sem pressa.
— Estou sobrevivendo ― ela disse.
Ela levantou a mão, mas os dedos vacilaram antes de alcançar o próprio rosto, hesitando num gesto inacabado. Uma pausa se instalou entre elas.
― Mas vocês mandam comida suficiente para manter um gato vivo. Não um ser humano.
Luna soltou um suspiro, não de irritação, mas de pura exaustão. Um peso invisível parecia repousar sobre seus ombros, mais difícil de explicar do que qualquer palavra poderia transmitir.
— Fui chamada apenas para supervisionar a estabilidade do quadro ― murmurou, com a voz carregada.
— O relatório será enviado hoje.
Ela hesitou por um instante, como se a própria revelação pesasse na língua. Depois, finalmente, falou:
— Amanhã… eu viajo.
O silêncio entre elas se alongou, carregado de significados que nenhuma das duas tinha coragem de nomear.
Dayse ergueu os olhos. Pela primeira vez, não havia ironia neles — só uma frieza resignada, o olhar de quem já não luta mais contra o inevitável.
— E se eu estiver grávida?
Luna não respondeu imediatamente. A pergunta pairou no ar, e por um momento ela permaneceu com o olhar fixo, avaliando.
A resposta veio firme, mas sem a mesma intensidade que poderia esperar.
— Você não está.
Dayse permaneceu em silêncio por mais alguns momentos, até que, finalmente, murmurou:
— E se os exames estiverem errados desta vez?

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