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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 36

Enzo estava sentado há horas ao lado do leito no Centro Médico John Hopkins, em Boston. O quarto permanecia envolto em um silêncio quase absoluto, quebrado apenas pelo som compassado dos monitores — um som mecânico, impassível, indiferente à tragédia que se desenrolava ali.

Victoria, pálida e ainda desacordada, repousava sob a luz fria da enfermaria. O corpo imóvel era um lembrete doloroso do que acontecera, do que ele fizera.

— Ela vai sentir muita dor quando acordar — dissera o médico.

— Mas houve progresso. Talvez... haja uma recuperação parcial.

Enzo apenas assentiu. Não havia sorriso, não havia lágrima, apenas um vazio devastador que o mantinha preso ali. Segurava a mão dela entre as suas, como se pudesse, de algum modo, reconstruir o que havia sido destruído.

― Eu dirigi rápido demais. Insisti na curva. Você confiou em mim e eu te quebrei. Me perdoa...

Mas ela não respondia. Apenas dormia. Um sono induzido, um abismo do qual ele não sabia se ela voltaria inteira.

Então, baixou a cabeça, apoiando a testa contra a pele fria da mão dela, e deixou o peso da culpa afundar em seu peito. Eu que deveria estar no seu lugar.

Ali, naquele hospital, Enzo Bellucci não era apenas frio; ele era um homem em ruínas, despido de tudo que um dia poderia ter sido. Memórias de um passado não tão distante voltaram à tona. Sua vida nunca foi realmente sua para decidir.

...

Desde cedo, ele soube que carregar aquele sobrenome significava abrir mão de escolhas pessoais em nome dos negócios da família. Seu avô, Lorenzo Bellucci, sempre foi direto: sentimentos eram fraqueza, e o legado da família deveria vir antes de qualquer outra coisa.

Crescer sob o olhar impassível de Lorenzo moldou Enzo em um homem calculista, frio, implacável — alguém que tomava decisões racionais e nunca demonstrava vulnerabilidade.

Mas nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que acreditou no amor. Um tempo que tinha nome: Victoria Vasconcellos.

Ela surgiu na vida dele como um sopro de liberdade. Conheceram-se na universidade, e, apesar da postura rígida e reservada de Enzo, ela conseguia enxergar além da máscara de indiferença que ele sustentava.

Com longos cabelos louros ondulados, olhos verdes marcantes e um sorriso sempre calculado, exalava uma beleza clássica e envolvente. Mas, por trás da suavidade aparente, havia uma ambição feroz, uma rebeldia silenciosa. Ela desafiava Enzo. Fazia com que ele sonhasse com um futuro diferente daquele que Lorenzo havia traçado para ele.

Com Victoria, ele não era um Bellucci. Era apenas Enzo, um homem apaixonado.

Foi numa tarde cinzenta e chuvosa, há três anos, que o destino decidiu encerrar o capítulo deles. A chuva tamborilava no para-brisa enquanto Enzo dirigia em alta velocidade, os faróis cortando a névoa densa da estrada.

O rádio tocava uma melodia esquecida, quase como um lamento distante, mas dentro do carro, uma discussão fervilhava, crescendo em tensão.

Victoria, com os olhos brilhando de paixão e desespero, insistia fervorosamente: queria que fugissem naquela mesma noite, que deixassem tudo para trás e se casassem em segredo, longe do olhar severo e controlador do avô de Enzo.

O que ela desejava, mais do que tudo, era que ele a escolhesse, que finalmente colocasse o amor acima do peso esmagador de seu legado.

Enzo mantinha as mãos firmes no volante, mas a hesitação era evidente. O conflito interno transparecia em seu rosto — um embate silencioso entre o dever e o desejo de libertação.

Como poderia ele abandonar algo que definira sua existência desde sempre? E, no entanto, tentava, com palavras que soavam frágeis diante da intensidade dela, convencê-la a esperar.

"Só mais um pouco", dizia, prometendo que, ao terminar a faculdade e se consolidar na empresa, enfrentaria o avô e construiria um futuro com ela.

Porém, para Victoria, cada segundo de espera era uma eternidade, ela não queria esperar nenhum minuto a mais.

... e naquele carro, entre o som abafado da chuva e a tensão crescente, o amor deles parecia se esticar até o limite, como um fio prestes a se romper.

Uma distração. E foi o suficiente.

Os pneus perderam aderência na pista molhada. O carro deslizou. O impacto veio rápido demais para que pudessem reagir...

Quando Enzo abriu os olhos no hospital, sua primeira preocupação foi Victoria.

A notícia devastou qualquer esperança: ele tinha apenas cortes superficiais..., mas Victoria não teve a mesma sorte.

O acidente comprometeu sua coluna, e os médicos foram claros — ela poderia nunca mais voltar a andar. Além disso, o impacto também havia tirado dela a possibilidade de ter filhos.

Quando Lorenzo Bellucci soube do ocorrido, sua reação não teve qualquer vestígio de humanidade.

― Eu já te disse Enzo, essa mulher não serve para você. Essa família só quer o poder que o nome Bellucci representa. Não vou permitir essa união ― decretou, sem deixar espaço para réplica.

— E se ela não pode nem gerar um herdeiro, então agora é que não serve mesmo para você.

As palavras foram ditas sem hesitação. Um veredito seco, definitivo.

Enzo lutou. Implorou. Tentou convencê-lo de que o amor que sentia por Victoria era mais importante do que qualquer linhagem ou herança.

Mas Lorenzo não cedeu.

O império dos Bellucci precisava continuar. E se Enzo não seguisse as regras, perderia tudo —herança, nome, futuro.

Victoria manteve-se distante após descobrir sua condição. O silêncio entre ela e Enzo tornou-se um abismo, preenchido por dúvidas e sentimentos que ela mesma não conseguia decifrar.

Quando finalmente se reaproximou, revelou algo que Enzo jamais imaginara.

— Eu já não me reconheço — disse, a voz repleta de uma tristeza contida, quase sufocada. — Não consigo… não consigo vivenciar nem minha própria sexualidade.

O silêncio entre eles pareceu se expandir, como se as palavras ainda estivessem ecoando no espaço.

— Algo dentro de mim se partiu, Enzo — continuou, o olhar perdido em um ponto distante.

Mas para Enzo, aceitar aquilo como um fim seria impossível.

Sentiu o peso daquelas palavras atravessar seu peito como um golpe inesperado, mas algo dentro dele resistiu. Ele não estava pronto para deixá-la se desfazer na própria dor. Não agora. Não assim.

Capítulo 36 ― Enzo e O Peso do Passado 1

Capítulo 36 ― Enzo e O Peso do Passado 2

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