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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 37

A barriga de Dayse inchava inexoravelmente, transformando cada gesto cotidiano em uma árdua provação, seu próprio corpo uma prisão viva. Cada dia era uma sucessão de pequenas mortes: o levantar-se tornara-se um martírio; respirar, uma luta constante contra a opressão de si mesma; dormir, um tormento que beirava a tortura.

O peso que carregava não era apenas físico — era simbólico, existencial. Um lembrete cruel de tudo o que lhe fora tirado, do que fora obrigada a se tornar.

A gestação avançava, provavelmente em seu sétimo mês — embora Dayse não tivesse meios exatos de contar os dias com precisão. O tempo havia se tornado uma abstração estranha, um inimigo sem rosto que diluía sua identidade aos poucos, como se cada batida do relógio apagasse uma parte dela.

Era o momento em que a esperança deveria ter sido apenas um sussurro fraco, uma lembrança remota de algo que não lhe pertencia mais. Mas não. Dentro dela, algo ainda gritava — um desejo surdo de liberdade, de futuro, de um lugar onde pudesse existir sem ser condicionada, violada ou moldada por interesses alheios.

Durante esses longos meses isolada, ela mapeou silenciosamente cada fresta, cada sombra, cada falha arquitetônica daquela parte da mansão — como uma presa astuta que conhece sua jaula melhor do que o carcereiro.

Sabia que precisava escapar antes do nascimento do bebê — antes que se tornasse ainda mais impossível, antes que arrancassem de seus braços o único fragmento de amor que poderia chamar de seu.

Quanto a Enzo...

Ah, Enzo. Aquele que prometera voltar em seis meses, como se fosse possível cronometrar o efeito de uma ausência.

Pensar nele agora era um exercício de lucidez amarga. Se, por um lapso, ainda houvesse dentro dela qualquer traço de expectativa — uma fagulha, um vestígio de esperança de que ele voltaria diferente, humano, digno — então sim, ela seria tola. Patética. Risível.

Mas Dayse já não era a menina ingênua de antes. Algo nela havia endurecido. Não se tratava mais de amor ou ódio, mas de sobrevivência. De escolha.

E ela escolheria a si mesma. Nem que tivesse que sangrar para isso.

Contudo, por mais que tentasse, por mais que sondasse cada centímetro daquela mansão — com olhos famintos por fendas, por rachaduras, por qualquer fresta que pudesse se converter em fuga — Dayse não encontrou nenhuma saída viável.

Exceto... o elevador de serviço.

Frágil, esquecido, estreito — ele era sua única conexão com o mundo além das paredes que a comprimiam. Já havia descido por ali certa vez, movida pela adrenalina de um impulso desesperado.

O elevador a levou a um corredor silencioso, claustrofóbico, que terminava em uma porta de ferro. Ela forçou, empurrou, socou, mas o metal permaneceu imóvel, intransponível.

Mesmo assim, aquele elevador representava algo que nenhuma outra parte da casa oferecia: acesso.

Todas as manhãs, exatamente às 11h, a comida surgia como se materializada por um mecanismo impessoal — silencioso, repetitivo, cruel em sua previsibilidade.

Mas naquele dia, algo rompeu o compasso habitual. Um pensamento pulsava, incômodo, quase impróprio:

"Se tudo o que me liga ao mundo exterior passa por aqui... talvez esse seja meu caminho."

Era uma ideia ousada, nascida entre respirações contidas e mãos que tremiam tanto quanto sua alma. Não havia garantias, não havia lógica, muito menos segurança. Mas o que era seguro ali dentro? Submissão? Esquecimento? A lentidão da morte diluída?

Ela sabia que não podia chamar o elevador quando quisesse. O controle não estava em suas mãos. Assim que retirava a bandeja, ele descia automaticamente e se mantinha travado até o dia seguinte. Mas e se, apenas e se, alguém — do outro lado — ainda tivesse olhos atentos, ainda fosse humano o suficiente para ouvir?

Determinada, rasgou um pedaço do papel que embrulhava o talher, alisando-o com delicadeza sobre a coxa trêmula. Pegou a caneta que usava para escrever em seu caderno, com a precisão de quem traça o próprio destino, escreveu:

― "Se você puder ler isso, me avise."

Dobrou o bilhete com extremo cuidado, como se dobrasse o coração. Deslizou-o sob a bandeja e empurrou o carrinho de volta ao elevador, ouvindo o som da grade metálica se fechando como o estalo seco de uma aposta arriscada.

E então, restou o silêncio. A espera. E um coração que batia, pela primeira vez em muito tempo, não por medo — mas por algo que ameaçava renascer dentro dela: esperança.

Na manhã seguinte, ao abrir o compartimento, a comida estava lá. Disposta do mesmo modo, como sempre. Mas havia algo mais. Seu olhar captou a diferença antes mesmo de identificar o que era. Um bilhete, dobrado com precisão, repousava entre as embalagens.

As mãos de Dayse hesitaram. Por um segundo, ela quase não ousou tocá-lo, como se o simples contato pudesse destruir aquele instante. Por fim, desdobrou o papel.

A caligrafia era contida, cuidadosa, com letras inclinadas que sugeriam pressa disfarçada:

― "Eu leio. E sei que você está aí. Do que você precisa?"

No final, uma assinatura mínima, quase tímida: R.

Capítulo 37 — Dayse ― Vozes Através do Aço 1

Capítulo 37 — Dayse ― Vozes Através do Aço 2

Capítulo 37 — Dayse ― Vozes Através do Aço 3

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