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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 37

“Quando falta chão, a gente confere se o chá ferve — e se a mão treme.” — (Anotação de R.)

(...)

7h30. Joana chegou no minuto exato. Cabelo preso mais apertado que o costume, uma urgência mal escondida no canto da boca. Estranha? Ansiosa? Seria impressão minha?

Ou sou eu que estou ficando paranoica? Quando a vida inteira ameaça virar uma mentira bem construída, a paranoia aprende a andar descalça dentro da gente.

“Quem é você, Joana? O que está escondendo? O que quer de mim?”

As perguntas martelavam na minha cabeça enquanto eu abria a porta e forçava um sorriso que não sentia.

Agora que a chamei antes de Rafael, passei a ideia de que tinha suspeitas sobre ele. Mas a verdade era mais sombria: eu suspeitava dos dois. De todos. Do mundo inteiro.

Confiança tinha se tornado um luxo que eu não podia mais me dar.

— Chá? — ofereci, minha voz saindo mais casual do que meu coração acelerado permitia.

— Chá — ela aceitou, e o alívio no tom dela me perguntou se eu ainda sei medir pessoas ou se era o eco do meu próprio medo me transformando em algo que eu não queria ser.

Seguimos juntas para a cozinha.

O barulho da água aquecendo virou um ritmo que me guiava, marcando o tempo que restava antes de Rafael chegar. O aroma de capim-cidreira subiu como um pano limpo sobre a mesa — familiar, reconfortante, mentiroso na sua normalidade.

— Por que você pediu pra eu vir antes do Rafael? — ela foi direta, os olhos no relógio da parede como quem calcula quanto tempo tem para arrancar a verdade.

― É algo que você não quer que ele saiba? É sobre a investigação?

Fiz sinal para que se sentasse; ela obedeceu, mas a tensão no ombro não mentiu. Servi o chá com mãos que tentavam não tremer.

— Renata, se tem algo pra falar comigo sem o Rafael, que seja agora — ela insistiu, a voz mais baixa, mais urgente. — Ele já deve estar chegando.

Sorri pequeno, controlado. Eu precisava enrolar mais um pouco, ganhar tempo para ler nas entrelinhas do que ela não estava dizendo. Ela já não tinha mais minha confiança — ou eu já não tinha mais capacidade de confiar em alguém? A linha entre lucidez e loucura estava ficando perigosamente fina.

— Vou ser direta então — larguei as palavras como quem j**a carta na mesa.

Pausa. Respiração. Salto.

— Vocês estão juntos?

Joana quase se engasgou com o chá. A xícara tilintou no pires. Puxei um guardanapo, estendi. Ela recuperou o ar com dignidade, mas seus olhos estavam arregalados — surpresa genuína ou atuação impecável?

— Não — ela respondeu, a voz rouca de chá e choque. — Por que você está me perguntando isso?

— Desculpa o modo como perguntei, de supetão — tentei suavizar, embora soubesse que a pergunta já tinha feito seu estrago. — Mas é porque temos pouco tempo até ele chegar. E eu preciso saber se vocês dois... se há algo entre vocês que eu deveria saber.

Pela reação... pareceu sim e não ao mesmo tempo. Como uma porta entreaberta que não mostra o quarto inteiro. Guardei o dado sem transformá-lo em sentença. Ainda.

— Olha, Joana — me inclinei para frente, buscando seus olhos. — Não tem problema nenhum se vocês estiverem envolvidos. Eu só não aceito mentira. Não agora. Não depois de tudo.

Fiz uma pausa, deixando o peso das palavras se assentar.

— Vocês já se conheciam antes? Fora da empresa?

A pergunta pairou no ar como fumaça de cigarro — visível, incômoda, impossível de ignorar.

O rosto de Joana passou por três micro-expressões em menos de dois segundos: surpresa, cálculo, decisão. Ela abriu a boca para responder.

A campainha cortou o momento como faca.

Merda.

— Depois continuamos — avisei, me levantando rápido demais, quase derrubando minha própria xícara. — E não precisa ficar preocupada, Joana. O problema nunca é amar — é omitir.

Nossos olhos se encontraram por um segundo carregado de significados que nenhuma de nós verbalizou.

Fui até a porta. Respirei fundo. Abri.

Rafael.

Sorriso profissional. Pasta de documentos. Olhos que pareciam ler cada tensão no meu rosto.

“Será que ele sabe que chamei Joana antes? Será que os dois combinaram algo?”

A paranoia sussurrava, venenosa.

— Bom dia — ele disse, e havia algo diferente na voz. Mais cauteloso. Como quem entra em território minado.

— Bom dia — respondi, me afastando para deixá-lo entrar.

— Joana já está aqui. Estávamos... tomando chá.

O olhar que ele lançou para ela foi rápido, mas eu vi. Pergunta silenciosa. Ela respondeu com um quase imperceptível balançar de cabeça.

Capítulo 37: Chá das 7h30 — Parte I 1

Capítulo 37: Chá das 7h30 — Parte I 2

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