“Confiança é luxo; procedimento, sobrevivência.” — (Anotação de R.)
(...)
Seguimos examinando os documentos.
Rafael separou as etiquetas por turno e ala — dedos precisos, quase cirúrgicos, movendo papel fino como quem manuseia fragmentos arqueológicos. Joana criou um mapa do período, linha por linha, mas só dois dias, três horários. Devagar. Como eu tinha pedido, embora nenhuma de nós tivesse dito em voz alta que era porque nossas cabeças não aguentariam mais.
Escolhi duas etiquetas próximas à minha. Meia hora de diferença entre uma e outra. Pequenos passos, porque abraçar o mundo hoje seria me afogar nele.
— Começamos por aqui — Joana apontou, a voz baixa, quase íntima. — AP-Leste. Mesma assinatura da sua: MV.
Ela não disse “a que te chamava de Helena”. Não precisou.
— Se cruzarmos com listas de plantão, requisições de material... — continuou, desenhando conexões invisíveis no ar com a ponta da caneta.
— Chegamos na sala sem alarde.
“Sem que ninguém perceba que estamos desenterrando corpos.”
— Enquanto esperamos o Alexandre — Rafael colocou um papel A4 sobre a mesa, movimento cuidadoso demais para ser casual — alinhei rotas.
Três linhas desenhadas à mão. Três saídas. Três tempos calculados. Três pontos onde ninguém veria você desaparecer.
— Nada de heróis — ele disse, e havia algo além de profissionalismo na voz. Cansaço, talvez. Ou memória de quando alguém tentou ser herói e não voltou. — Procedimento manda.
— Procedimento, não fé — repeti, anotando no caderno.
Mas minha mão tremeu ao sublinhar. Duas vezes. Como se repetir tornasse mais verdade.
...
Três xícaras de chá depois — frias, esquecidas, intocadas — paramos.
O silêncio tinha textura agora. Denso. Pesado de coisas não ditas.
Senti a cabeça pedir sombra. Não mais luz sobre segredos. Só escuridão onde eu pudesse não entender nada por algumas horas.
Rafael guardou as etiquetas no envelope antiestático. Etiquetou com data, hora, letra miúda. Mas ao fechar, seus dedos hesitaram sobre uma tira sem destaque aparente.
Meio segundo.
Quase nada.
Mas eu vi.
Não era o gesto de quem retira. Era o de quem reconhece. Como quando você vê nome antigo em lista e o corpo lembra antes da cabeça.
— Algum problema? — perguntei, e até consegui soar casual.
— Não — ele respondeu rápido demais, fechando o envelope com um estalo seco. — Só... conferindo.
Os olhos dele desviaram. Pequeno demais para alguém menos atento notar.
Grande demais para eu ignorar.
“Você está mentindo, Rafael. A pergunta é: sobre o quê?”
Registrei mentalmente. Não transformei em acusação. Ainda. Mas a desconfiança fincou mais uma raiz — profunda, forte, crescendo na escuridão.
...
Joana fechou o caderno. O elástico estalou — som de capítulo terminado, de porta trancada.
Ela pousou a mão sobre a capa. Gesto de guarda. De alguém que protege o que sabe.
— Renata — ela disse, e havia uma firmeza na voz que não estava ali antes. — O rastreador... eu prefiro instalar. Com você vendo. Transparência não é luxo aqui.
Ela respirou fundo antes de completar:
— É condição de sobrevivência.
A frase pairou entre nós, carregada. Porque sobrevivência era palavra pesada. Palavra que admite que há algo grande o suficiente para te matar.
— Amanhã cedo — concordei, e senti gratidão genuína, mesmo através da névoa de desconfiança.
O resto da reunião andou devagar. Proposital. Como se cada um de nós soubesse que apressar seria quebrar algo frágil que ainda precisávamos inteiro.
...
Eles se levantaram quase juntos.
Sincronia não combinada. Natural demais. Conhecida demais.
“Quantas vezes vocês dois já fizeram isso? Quantas reuniões, quantos segredos, quantos silêncios compartilhados?”
Fomos até a porta. O corredor devolveu nossos passos — eco que soava ensaiado, como coreografia antiga.
Rafael segurava o envelope como quem carrega coisa explosiva. Joana, o painel do rastreador debaixo do braço.
Amanhã cedo. À vista. Acesso espelhado.
Cedro.
Tarde.
As palavras que poderiam me salvar. Ou me condenar, dependendo de quem estivesse escutando.
Rafael parou no batente, mão na maçaneta. Hesitou.
...
Lá fora, a cidade continuava. Buzinas. Vozes. Vida que não parava para esperar ninguém processar trauma.
Fui até a janela. A rua estava vazia, mas o sedã preto podia estar em qualquer sombra. Esperando. Observando.
Ou talvez não existisse mais sedã preto. Talvez nunca tivesse existido. Talvez a paranoia tivesse se tornado tão real quanto qualquer memória.
“Como você sabe o que é real quando sua própria memória foi editada?”
Fechei a cortina.
Amanhã. Rastreador. Palavras de emergência. Mais um passo.
Mas à noite, antes de dormir, peguei o celular. Rolei contatos até chegar no nome que eu tinha jurado não procurar.
Matheo.
O dedo pairou sobre o nome. Quase tocou.
“Se eu ligar agora, o que eu diria? 'Oi, lembra de mim? A mulher que você amou e que te mandou embora? Pois é, acho que descobri que meu nome não é meu nome, que talvez eu tenha tido um filho que me roubaram, e que não sei mais em quem confiar. Você pode... o quê? Me salvar? Me dizer que está tudo bem? Mentir que ainda me ama?”
Bloqueei o celular.
Matheo estava feliz. Longe. Seguro.
E eu... eu estava afundando em areia movediça, e chamar alguém só serviria para puxá-lo junto.
Deitei na cama de roupa mesmo. Luzes apagadas. Olhos abertos.
O teto não tinha respostas.
Mas pelo menos o teto não mentia.
Ou será que mentia?
Dormi assim — com perguntas que não tinham fim e um nome na ponta da língua que eu me recusava a chamar em voz alta.
Helena.
Ou Renata.
Ou ninguém.
Talvez eu fosse só o espaço vazio entre duas mentiras bem contadas.
E amanhã, eu daria mais um passo para descobrir qual delas era eu.

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