“Cada gesto meu te alcança. E te envolve. De certo modo. Te liberta e te devolve”
— Marisa Monte, Infinito Particular
O som áspero das rodas deslizando sobre o piso impecavelmente polido da mansão foi o primeiro indício de que aquilo não era um sonho.
Era real. Tão real quanto o calor e o peso do bebê aninhado em seus braços, sugando com uma força tranquila, quase hipnotizante. Dayse permanecia sentada na beira da cama, o corpo exausto, mas a mente em estado de vigília.
Seus olhos, embora cansados, estavam atentos a cada detalhe ao seu redor, como se o momento exigisse dela uma presença absoluta, uma entrega completa entre o cansaço e a plenitude.
O quarto ainda carregava no ar o cheiro ardido do parto ― ácido, visceral. O sangue seco manchava o chão, misturando-se aos panos úmidos que testemunhavam a batalha pela sobrevivência.
Mas algo novo se infiltrava naquele ambiente saturado: um perfume importado, opulento e invasivo, quase uma afronta à crueza do momento. Era um aroma que falava de presença, de poder, mas também de culpa que parecia pairar, pesada, entre as paredes.
Os passos ecoaram pelo corredor, firmes, quase desafiadores. O som dos sapatos caros cortava o silêncio como um prenúncio, cada batida no chão carregando uma intenção deliberada, como se o próprio espaço precisasse ser conquistado, dominado.
A porta rangeu ao se abrir lentamente, o som rasgando o silêncio como um presságio.
Enzo Bellucci cruzou o limiar com a mesma frieza inquietante de sempre — um espectro de indiferença envolto em sombras.
Ele parou na soleira, imóvel, sem pronunciar uma única palavra. Como se o silêncio fosse sua língua preferida. Como se sua mera presença fosse o suficiente para preencher o espaço com um peso sufocante.
Dayse engoliu em seco.
Lá estava seu algoz.
Mesmo porte imponente.
Mesma aura fria.
Mesmo olhar fugidio.
Ela o observou com a neutralidade de quem já se acostumara à dor. Mas havia algo diferente agora.
Os olhos dele carregavam uma sombra nova. Um peso estranho.
Não era surpresa.
Não era raiva.
Era um sentimento sem nome, um enigma que se cravou no peito de Dayse, comprimindo-a por dentro, como se quisesse arrancar dela uma resposta que ela não sabia dar.
E pela primeira vez, ela teve a desconfortável sensação de que, talvez, ele também não soubesse.
Seu olhar deslizou por ela como sempre fazia, breve, quase indiferente, como quem teme se demorar demais. Ele nunca a encarava por muito tempo, como se o peso de um segundo a mais pudesse revelar algo que preferia esconder.
Mas quando seus olhos encontraram o pequeno ser aninhado em seus braços, algo dentro dele vacilou. A rigidez que sempre o envolvia não se desfez por completo, mas uma rachadura fina e quase imperceptível surgiu em sua máscara de austeridade, como se, por um momento, o mundo tivesse tocado um ponto vulnerável que ele nem sabia existir.
Enzo puxou o ar com a urgência de quem retorna à superfície após um mergulho que quase lhe roubou o fôlego. Deu um passo. Depois outro. Cada passo que dava parecia carregado de um peso invisível, como se o chão sob seus pés fosse feito de incertezas.
Ele avançava devagar, hesitante, como quem explora um território onde cada movimento pode desencadear algo irreversível. Quando finalmente parou diante dela, sua voz saiu baixa, rouca, carregada de uma vulnerabilidade que ele raramente deixava transparecer.
— Ele... é meu filho?
Dayse permaneceu em silêncio.
Não havia necessidade de palavras. O bebê, aninhado em seus braços, era um reflexo quase perfeito de Enzo. O mesmo queixo firme, as sobrancelhas que desenhavam uma curva suave, como se o destino tivesse decidido esculpir nele uma versão em miniatura do homem que agora a encarava.
Era um espelho novo, puro, ainda intocado pelas marcas do tempo.
Enzo se aproximou devagar, sentando-se ao lado dela, hesitante. Por um momento, seus movimentos pareceram incertos, como se suas mãos não soubessem encontrar um propósito. Então, num gesto tímido, ele estendeu os braços, oferecendo algo que parecia ser tanto um pedido quanto uma promessa silenciosa.
Dayse, no entanto, recuou instintivamente, apertando o bebê contra o peito com uma força que traía o turbilhão dentro dela. O cansaço pesava em seus ombros, mas era o medo — aquele medo ancestral e visceral — que a mantinha alerta. E se ela cedesse? E se resistisse? As possibilidades dançavam em sua mente, cada uma mais assustadora que a outra, enquanto o silêncio entre eles se tornava quase insuportável.
Mas algo mais forte — talvez o próprio amor de mãe — a fez ceder.
Com os olhos marejados, ela estendeu o filho, não como quem simplesmente entrega, mas como quem deposita toda a confiança do mundo, como quem j**a o coração em um abismo sem saber se haverá chão.
Enzo o recebeu com uma delicadeza que parecia surgir de um lugar profundo, quase sagrado. Suas mãos, trêmulas, hesitaram por um instante antes de tocar a pele suave da criança, como se temesse quebrar algo tão precioso. Seus olhos também se encheram de lágrimas, mas ele não piscou. Era seu filho. Seu legado.
O peso e a beleza daquele momento o atravessaram como uma onda silenciosa, deixando-o sem palavras, mas cheio de algo que ele ainda não sabia nomear.
Um fragmento de si — frágil, quente, real — nos braços.


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