Entrar Via

A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 42

“Cada gesto meu te alcança. E te envolve. De certo modo. Te liberta e te devolve”

— Marisa Monte, Infinito Particular

O som áspero das rodas deslizando sobre o piso impecavelmente polido da mansão foi o primeiro indício de que aquilo não era um sonho.

Era real. Tão real quanto o calor e o peso do bebê aninhado em seus braços, sugando com uma força tranquila, quase hipnotizante. Dayse permanecia sentada na beira da cama, o corpo exausto, mas a mente em estado de vigília.

Seus olhos, embora cansados, estavam atentos a cada detalhe ao seu redor, como se o momento exigisse dela uma presença absoluta, uma entrega completa entre o cansaço e a plenitude.

O quarto ainda carregava no ar o cheiro ardido do parto ― ácido, visceral. O sangue seco manchava o chão, misturando-se aos panos úmidos que testemunhavam a batalha pela sobrevivência.

Mas algo novo se infiltrava naquele ambiente saturado: um perfume importado, opulento e invasivo, quase uma afronta à crueza do momento. Era um aroma que falava de presença, de poder, mas também de culpa que parecia pairar, pesada, entre as paredes.

Os passos ecoaram pelo corredor, firmes, quase desafiadores. O som dos sapatos caros cortava o silêncio como um prenúncio, cada batida no chão carregando uma intenção deliberada, como se o próprio espaço precisasse ser conquistado, dominado.

A porta rangeu ao se abrir lentamente, o som rasgando o silêncio como um presságio.

Enzo Bellucci cruzou o limiar com a mesma frieza inquietante de sempre — um espectro de indiferença envolto em sombras.

Ele parou na soleira, imóvel, sem pronunciar uma única palavra. Como se o silêncio fosse sua língua preferida. Como se sua mera presença fosse o suficiente para preencher o espaço com um peso sufocante.

Dayse engoliu em seco.

Lá estava seu algoz.

Mesmo porte imponente.

Mesma aura fria.

Mesmo olhar fugidio.

Ela o observou com a neutralidade de quem já se acostumara à dor. Mas havia algo diferente agora.

Os olhos dele carregavam uma sombra nova. Um peso estranho.

Não era surpresa.

Não era raiva.

Era um sentimento sem nome, um enigma que se cravou no peito de Dayse, comprimindo-a por dentro, como se quisesse arrancar dela uma resposta que ela não sabia dar.

E pela primeira vez, ela teve a desconfortável sensação de que, talvez, ele também não soubesse.

Seu olhar deslizou por ela como sempre fazia, breve, quase indiferente, como quem teme se demorar demais. Ele nunca a encarava por muito tempo, como se o peso de um segundo a mais pudesse revelar algo que preferia esconder.

Mas quando seus olhos encontraram o pequeno ser aninhado em seus braços, algo dentro dele vacilou. A rigidez que sempre o envolvia não se desfez por completo, mas uma rachadura fina e quase imperceptível surgiu em sua máscara de austeridade, como se, por um momento, o mundo tivesse tocado um ponto vulnerável que ele nem sabia existir.

Enzo puxou o ar com a urgência de quem retorna à superfície após um mergulho que quase lhe roubou o fôlego. Deu um passo. Depois outro. Cada passo que dava parecia carregado de um peso invisível, como se o chão sob seus pés fosse feito de incertezas.

Ele avançava devagar, hesitante, como quem explora um território onde cada movimento pode desencadear algo irreversível. Quando finalmente parou diante dela, sua voz saiu baixa, rouca, carregada de uma vulnerabilidade que ele raramente deixava transparecer.

— Ele... é meu filho?

Dayse permaneceu em silêncio.

Não havia necessidade de palavras. O bebê, aninhado em seus braços, era um reflexo quase perfeito de Enzo. O mesmo queixo firme, as sobrancelhas que desenhavam uma curva suave, como se o destino tivesse decidido esculpir nele uma versão em miniatura do homem que agora a encarava.

Era um espelho novo, puro, ainda intocado pelas marcas do tempo.

Enzo se aproximou devagar, sentando-se ao lado dela, hesitante. Por um momento, seus movimentos pareceram incertos, como se suas mãos não soubessem encontrar um propósito. Então, num gesto tímido, ele estendeu os braços, oferecendo algo que parecia ser tanto um pedido quanto uma promessa silenciosa.

Dayse, no entanto, recuou instintivamente, apertando o bebê contra o peito com uma força que traía o turbilhão dentro dela. O cansaço pesava em seus ombros, mas era o medo — aquele medo ancestral e visceral — que a mantinha alerta. E se ela cedesse? E se resistisse? As possibilidades dançavam em sua mente, cada uma mais assustadora que a outra, enquanto o silêncio entre eles se tornava quase insuportável.

Mas algo mais forte — talvez o próprio amor de mãe — a fez ceder.

Com os olhos marejados, ela estendeu o filho, não como quem simplesmente entrega, mas como quem deposita toda a confiança do mundo, como quem j**a o coração em um abismo sem saber se haverá chão.

Enzo o recebeu com uma delicadeza que parecia surgir de um lugar profundo, quase sagrado. Suas mãos, trêmulas, hesitaram por um instante antes de tocar a pele suave da criança, como se temesse quebrar algo tão precioso. Seus olhos também se encheram de lágrimas, mas ele não piscou. Era seu filho. Seu legado.

O peso e a beleza daquele momento o atravessaram como uma onda silenciosa, deixando-o sem palavras, mas cheio de algo que ele ainda não sabia nomear.

Um fragmento de si — frágil, quente, real — nos braços.

— Não.

Foi então que Victoria interveio. Sua voz, doce como mel, deslizou pelo ambiente com uma suavidade que mascarava algo mais profundo, algo que feria como uma lâmina oculta:

— Enzo, posso segurá-lo só por um instante?

Dayse, observando à margem, percebeu o leve estremecer de Enzo. A doçura calculada de Victoria havia tocado algo nele, uma hesitação que não era apenas momentânea, mas carregada de camadas de emoção e dúvida.

Dayse sentiu a tensão se espalhar, densa e inevitável, como uma maré que avança devagar, mas implacável, apagando os vestígios na areia.

Enzo virou-se para ela, os olhos inquietos, vasculhando cada detalhe de seu rosto em busca de respostas que ela não estava disposta a dar. Permanecia imóvel, uma figura de pedra esculpida em silêncio, cada linha de seu semblante endurecido erguendo uma barreira invisível.

Era um aviso claro, ainda que mudo: aquela mulher não tinha lugar ali, não tinha o direito de pegar seu filho...

Mas Enzo, talvez por não perceber a eletricidade que pulsava entre eles ou por escolher ignorá-la, deu alguns passos à frente.

Seus movimentos eram lentos, quase solenes, como se temesse quebrar algo delicado e irreparável. Com uma reverência silenciosa, ele estendeu os braços e entregou o bebê a Victoria.

O gesto, tão cuidadoso, parecia uma tentativa desesperada de preservar um equilíbrio que já se desfazia, como vidro prestes a estilhaçar.

Ela o acolheu como quem segura uma relíquia sagrada, os dedos firmes, mas cuidadosamente controlados, como se temesse que o menor deslize pudesse profanar algo divino. O sorriso em seu rosto era meticulosamente composto, como um retrato de família que esconde histórias não contadas.

Quando seus olhos pousaram no bebê, algo neles vacilou, uma fração de segundo, que se dissipou tão rápido quanto surgiu. Em seguida, ela ergueu o olhar para Dayse, e aquele sorriso retornou ― breve, delicado, mas afiado como uma lâmina.

Não precisava de palavras; o gesto dizia tudo: Este bebê agora pertence ao meu mundo.

O estômago de Dayse se contorceu em um nó quase insuportável, mas ela permaneceu imóvel. Seus olhos fixos, o queixo erguido, cada músculo do corpo gritando resistência. Não cederia ao medo. Não ali. Não diante dela.

Após alguns minutos, Victoria devolveu a criança a Enzo, mas não sem antes selar o gesto com um beijo delicado nos cabelos ainda úmidos do bebê. O toque parecia mais do que um simples carinho; era como se ela estivesse consagrando um novo tesouro, algo raro e inestimável que agora fazia parte de sua coleção de perfeições.

— Perfeito... ele é perfeito — sussurrou, como se falasse sozinha.

Mas todos ali, exceto Enzo, sabiam que aquelas palavras não eram um devaneio casual. Eram um marco, um aviso silencioso, uma proclamação de domínio. E foi nesse instante que Dayse sentiu, com uma clareza cortante, que aquilo não era o fim.

Não. A batalha estava longe de ser concluída. A guerra, na verdade, mal havia começado.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A Pele Que o CEO Não Esqueceu