“A pior solidão é não ser compreendido, mesmo estando rodeado de olhares.”
— Clarice Lispector
Enzo, então, voltou-se para Luna. A ternura que antes suavizava suas feições havia desaparecido, substituída por um olhar penetrante, afiado como uma lâmina recém-desembainhada.
— Por que eu não fui informado da gravidez dela?
A pergunta veio em um tom baixo, mas impregnado de uma ferocidade contida que parecia vibrar no ar. Enzo deu um passo à frente, os olhos fixos em Luna, que hesitou. Ela engoliu em seco, os ombros tensos, a postura rígida que sempre a definira agora vacilava, como se estivesse prestes a desmoronar.
O silêncio que se seguiu não era apenas desconfortável; era um grito mudo, uma confissão sem palavras. Luna tentou responder, mas as palavras se perderam antes de alcançarem seus lábios. ― Eu... eu... ― balbuciou, a voz trêmula, os olhos fugindo dos dele.
Naquele instante, quase imperceptível, algo se partiu. A máscara de controle absoluto que Luna sempre usara rachou, expondo uma vulnerabilidade que ela lutava desesperadamente para esconder.
Dayse permanecia imóvel, os olhos fixos em um ponto qualquer, mas absorvendo cada detalhe ao seu redor. Uma mistura de surpresa e descrença atravessava seu semblante. Era difícil processar o que via...
Ela nunca imaginou ver qualquer emoção real em Enzo, muito menos vê-lo reagir… como se realmente se importasse. Agora exibia uma reação que parecia... humana?
A ideia era tão absurda que quase a fez rir, mas o peso da realidade a manteve séria. Inspirou profundamente, reunindo forças para romper o silêncio.
― Luna me trancou nesta casa no exato momento em que você partiu ― começou, a voz firme, mas impregnada de uma dor que parecia pulsar em cada palavra.
― Segundo ela, foi ordem do senhor Bellucci. ― Havia um peso em sua fala, uma amargura que se enroscava em cada sílaba.
― Fui tratada como lixo por todos aqui. Vivi um verdadeiro inferno nesta maldita mansão.
As palavras fluíam devagar, cada uma carregando uma verdade tão crua que parecia cortar o ar como lâminas afiadas. Ela fez uma pausa, os olhos brilhando intensamente, mas não de lágrimas. Era algo mais profundo, um fogo contido, uma chama de revolta que queimava silenciosa.
— Foram meses... sozinha. Confinada em um espaço que parecia encolher a cada dia, me sufocando lentamente. Mal tinha o que comer.
Sua voz tremeu. Mas não por fraqueza. Não por medo.
Era a voz de alguém que atravessou o insuportável e ainda estava de pé.
— Você tem ideia do que eu passei? — As palavras vieram como lâminas, afiadas pela dor que nunca se apagou.
— Seu filho… o herdeiro do Império Bellucci nasceu prisioneiro... pequeno demais, fraco demais, à beira do fim antes mesmo de começar.
― Se tivesse acontecido alguma coisa com ele… De quem seria a culpa? Minha? Ou da arrogância e crueldade da própria família?
O silêncio após sua pergunta parecia vivo, pesado, preenchendo cada canto do espaço.
Porque a resposta, por mais óbvia que fosse, ninguém ousava dizer.
Sua voz vacilou por um instante, um breve tropeço que não cedia espaço ao melodrama. Não era um apelo à emoção, mas uma exposição crua, desprovida de ornamentos, tão fria quanto o chão áspero onde, sozinha, trouxera o filho ao mundo.
Enzo a fitou demoradamente, os olhos carregados de algo que oscilava entre incredulidade e culpa.
— Eu... eu não sabia — murmurou, a voz quebradiça, quase um sussurro.
— Isso... isso muda tudo.
Dayse desviou o olhar, os lábios se comprimindo em uma linha amarga.
— Muda tudo para quem, Enzo? — devolveu, a voz baixa, mas cortante, como uma lâmina fina.
O silêncio que se seguiu era denso, sufocante, carregado de palavras não ditas e julgamentos implícitos. Quando ele finalmente se moveu, foi com uma brusquidão que parecia um reflexo de sua própria inquietação.
— Ele precisa de atendimento. Vou levá-lo ao hospital agora. — A voz de Enzo era firme, mas havia um tremor subjacente, uma urgência que traía sua aparente determinação.
— Dayse, se quiser vir, se arrume.
E então, sem esperar resposta, ele se afastou, deixando no ar um rastro de tensão que parecia pulsar como um coração ferido.
Dayse estendeu os braços automaticamente, recebendo o filho. Mas, no instante em que seus dedos tocaram a pele macia do bebê, algo profundo e doloroso se agitou dentro dela. Uma contração invisível, mas devastadora.
As memórias a atingiram como um golpe certeiro, um soco no estômago que a deixou sem ar.
Tinha que pensar nos outros três pequenos, tão inocentes, tão frágeis, que dependiam dela também. E, como uma sombra que nunca se dissipava, o risco pairava sobre sua cabeça, constante, sufocante.
Dayse sabia que precisava decidir, mas o peso dessa escolha parecia esmagá-la.
Ela olhou para Enzo. Ele estava tão gentil, quase angelical, que poderia enganar qualquer um.
Mas não a ela. Não mais.
A confiança que estava começando a se instalar entre eles havia se despedaçado, e agora, tudo o que restava era uma certeza amarga.
Dayse sabia. Sabia o que aquela mansão representava. Sabia o peso do nome Bellucci. E, acima de tudo, sabia o que era ser enganada, traída, despida de qualquer controle sobre sua própria vida.
Era apenas uma questão de tempo.
Mais cedo ou mais tarde, eles viriam, e quando viessem, levariam seus bebês sem hesitar. Sem devolvê-los. Sem remorso.
Lourenço, o avô, jamais mascarou suas intenções. Queria gêmeos, dois herdeiros moldados à sua vontade. Sua voz, sempre grave e implacável, havia deixado isso claro como a luz do dia. Mas e se soubesse?
Se descobrisse que eram quatro?
A ideia a fazia estremecer. A mansão, com seus corredores intermináveis e segredos sufocantes, parecia mais uma prisão do que um lar. Dayse sentia o peso de cada decisão, de cada passo, como se o destino de seus filhos estivesse pendurado por um fio.
E ela, sozinha, era a única barreira entre eles e o abismo.
Com um gesto firme, quase brusco, devolveu o bebê a ele. Não havia hesitação em seus movimentos, nem suavidade em sua voz.
— Ele já mamou o suficiente. Pode levar. Eu preciso descansar agora.

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