“Às vezes, o que salva não é o amor que recebemos, mas a mão que nos alcança quando já não gritamos mais.”
A estrada de terra se desenrolava até uma casa simples, com portas de madeira gastas pelo tempo, uma varanda com rede e um telhado baixo que parecia abraçar o lugar como um refúgio perdido no mundo.
Dayse chegou com uma mala em uma mão e o endereço gravado no coração. Suas pernas tremiam, não pelo esforço, mas pela avalanche de emoções que parecia prestes a engolir tudo.
Subiu os degraus de madeira, cada passo um desafio, e tocou a campainha.
A porta se abriu lentamente, revelando Renata.
O olhar de Dayse se fixou no de Renata, arregalado, tentando dizer algo, mas a voz se recusava a sair.
Renata sorriu, suave, como quem reconhecia aquela hesitação.
— Em que posso lhe ajudar, moça?
Dayse engoliu seco.
— Eu sou Dayse. Vim buscar meus filhos.
A voz embargada carregava anos de dor, meses de fuga e uma vida inteira de promessas não cumpridas.
Renata inclinou ligeiramente a cabeça, analisando-a com calma.
— Humm… seus filhos? — repetiu, quase como se saboreasse as palavras.
Seu tom não era de desafio, mas também não entregava nada.
— E o que te faz pensar que estão aqui?
Dayse, com as mãos trêmulas, estendeu o bilhete que havia recebido na portaria. Um pequeno pedaço de papel que significava tudo.
Renata analisou por um instante e depois, sem dizer nada, se afastou, abrindo espaço para que Dayse entrasse.
Ela deu um passo hesitante à frente. O ar da casa era diferente, e sua mente preparava o coração para qualquer desfecho.
Mas então viu.
Três pequenos berços improvisados, fraldas limpas, mantas coloridas cuidadosamente dobradas, mamadeiras vazias sobre uma mesa.
Três pequenos corações.
Três pedaços de si mesma.
O mundo parou.
Dayse caiu de joelhos diante do primeiro berço, onde o bebê dormia pacificamente, os dedos minúsculos fechados em um punho tranquilo. As lágrimas escorriam pelo rosto dela, silenciosas, enquanto cobria a boca com a mão, tentando conter a emoção avassaladora que a dominava.
Renata se aproximou, a voz gentil, sem pressa.
— Eles estão bem, Dayse. Mamam, dormem, choram pouco... estão fortes.
Dayse assentiu, lutando contra as lágrimas que ardiam em seus olhos. Mas como conter a enxurrada de sentimentos que ameaçava transbordar?
— Obrigada.
A palavra saiu trêmula, carregada de gratidão e dívida. Não era apenas um agradecimento pelo momento — era por tudo. Por cada noite em que seus filhos estiveram protegidos. Por cada gesto silencioso que os manteve vivos. Por cada sacrifício que Renata fizera sem ao menos conhecê-la.
Renata esboçou um sorriso hesitante, como se só agora compreendesse a dimensão do que havia feito.
— Achei que talvez você nunca aparecesse para buscá-los... Que não conseguiria escapar daquela prisão.
Dayse fechou os olhos por um instante, deixando o peso daquelas palavras assentar em seu coração. O inferno que atravessara ainda queimava em sua pele, mas nada importava agora. Estava ali. Seus filhos estavam ali.


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