“6 de janeiro
Hoje, sonhei com ele.
Não o homem. O bebê.
Nos meus braços, ele chorava baixinho — como se pedisse permissão para existir.
Mas quando acordei, só havia silêncio.
E o que me assusta não é o que ouço.
É o que não ouço.
É esse silêncio que grita em mim todos os dias.
Porque há perguntas que ninguém fez.
E respostas que talvez, no fundo, eu não esteja pronta para ouvir."
— Do diário de D.
...
A mansão permanecia envolta em um silêncio denso, quase palpável, como se todas as palavras que um dia ecoaram por aquelas paredes tivessem se apagado de vez.
Era noite, mas uma noite diferente. Uma quietude tão profunda que fazia o coração desacelerar e os sentidos ficarem atentos ao menor movimento. Tinha algo ali. Algo que ninguém ousava dizer, mas que pairava em cada canto, como uma presença invisível.
Enzo caminhava de um lado para o outro do quarto, com o filho preso ao peito. Cada passo parecia uma tentativa desesperada de entender aquele pequeno ser silencioso — ou talvez, de compreender a si mesmo.
Seu corpo se movia de forma automática, com um balanço suave e passos contidos, enquanto sua mente parecia estar longe dali. O calor delicado do bebê contra seu peito, a respiração tranquila que subia e descia como uma maré calma… tudo aquilo deveria ser suficiente para acalmá-lo.
Mas não era isso. Algo dentro dele parecia fora do lugar, desalinhado. Não era o bebê. Era ele. Era tudo o que estava acontecendo naquele momento...
Do outro lado do quarto, Victoria o observava, imóvel na sua cadeira de rodas, envolta por uma elegância silenciosa e uma neutralidade quase cruel. Assistia à cena como quem assiste a um filme que não lhe diz nada — indiferente ao que acontece ali.
Suas mãos descansavam sobre o colo, perfeitas, mas completamente inúteis. Seus olhos atravessavam o homem e a criança sem realmente enxergá-los, como se aquele momento não fosse dela — e, na verdade, nunca tinha sido.
O vazio em seu olhar refletia o silêncio sufocante que preenchia o ambiente, deixando cada respiração mais pesada do que deveria ser.
— Ele não está conseguindo dormir — murmurou Enzo, sem tirar os olhos do bebê. Sua voz carregava um peso estranho, um pensamento que escapou antes mesmo de ele conseguir entendê-lo completamente.
Victoria demorou alguns segundos antes de responder, como se estivesse escolhendo as palavras com um cuidado excessivo...
— No começo, os bebês costumam dormir mal. Tudo é novidade para eles. E, claro, para você também — disse, com uma voz carregada de uma doçura que parecia ensaiada, artificial, como quem tenta parecer gentil em uma língua que ainda não domina totalmente.
Seu tom não carregava uma emoção verdadeira; era mais uma tentativa de preencher o silêncio entre eles com palavras vazias de sentimento. Ela inclinou levemente a cabeça, observando Enzo e o bebê, e talvez avaliando se tinha algo fora do normal.
— Os bebês geralmente choram bastante, né? — perguntou Enzo, a voz meio hesitante, como se estivesse buscando confirmação para algo que nem ele tinha certeza do que era.
Victoria virou-se lentamente. Houve um instante — quase imperceptível — em que seu rosto se contraiu. Seus lábios se apertaram levemente, carregando um desconforto contido.
— Ela cumpriu o contrato e já recebeu o pagamento, Enzo. Agora você tem seu filho, seu herdeiro. Por que voltar a esse assunto? Que diferença faz? Já ficou tudo para trás... — O tom dela era firme, quase cortante.
Mas, para Enzo, o passado nunca tinha ficado tão presente assim.
O rosto de Dayse surgiu na sua cabeça de repente, tão vivo que parecia mais que uma lembrança. Aqueles olhos pareciam implorar por algo que ele se recusava a dar. A dor silenciosa que agora ecoava dentro dele, como um som que não desaparece.
Por que ele sentia que algo não estava certo? Que alguma coisa ainda não fazia sentido? Tentou afastar esses pensamentos, sacudindo a cabeça, como quem luta contra um pressentimento desconfortável.
Só que algumas memórias não vão embora tão facilmente. Algumas insistem e se transformam em sombras que assombram.
E essa... essa era uma delas. Não iria desaparecer tão cedo.
Um bebê que não chorava.
Uma mulher que o vendeu, mas que agora chorava.
Um acordo que ele nunca entendeu completamente, nem aceitou de verdade.
O filho se mexeu nos braços dele, emitindo um som curto, quase um sussurro. Enzo encostou os lábios na testa da criança, como se pudesse absorver dali alguma resposta.
Mas o silêncio persistia. E era ele quem mais gritava.

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