“Antes de me chamarem por outras bocas, fui apenas eu.” — (Anotação de R.)
A voz da Dra. Iasmim ficou longe, como quem fecha a porta devagar para eu ouvir o que estava do outro. Minha mente, livre, começou a vagar.
Primeiro, o frio me envolveu. Não era o frio de um inverno rigoroso, mas o frio áspero de um chão de cimento cru.
O orfanato tinha um cheiro que nunca me abandonou, mesmo quando eu me abandonei: uma mistura agridoce de sabão barato, feijão requentado e pano úmido esquecido na corda.
O som dos passos ali era sempre maior que nós mesmos, um eco que parecia zombar da nossa pequenez.
As crianças aprendiam a caminhar como sombras, sem ruído; eu, por minha vez, aprendi a esconder nomes dentro da boca, como se fossem segredos que o mundo não tinha o direito de roubar.
— Qual é o seu nome? — perguntavam, às vezes por mera formalidade, outras vezes com uma doçura que parecia querer me guardar.
— Renata — eu dizia, e, por um instante, era como se o universo inteiro se comprimisse dentro daquela palavra, pulsando em silêncio.
Era dia de visita, o sol se atreveu a entrar pelas frestas, tingindo o espaço com uma luz que parecia mais viva. Três figuras cruzaram a porta: duas mulheres e um homem. O homem não olhou para as crianças; seus olhos percorriam as paredes, como se procurassem algo que não estava ali.
Uma das mulheres tinha gestos que falavam mais do que palavras: seus dedos carregavam ternura: ajeitou um laço desalinhado; limpou um queixo molhado e devolveu um brinquedo a uma mão pequena, como quem devolve um pedaço de mundo.
A outra mulher entrou como quem domina o espaço sem esforço. O perfume de jasmim era discreto, os saltos tocavam o chão com uma calma que parecia ensaiada, e o olhar... Ah, o olhar de quem media, sem medir com fita. Não avaliava, mas deixava marcas.
Aurélia. Só soube o nome depois. Naquele dia, o que ficou foi o impacto — um efeito que não cabia em palavras, mas que se espalhava, como o eco de algo que você sente antes de entender.
Ela não pediu arquivos, nem contou dentes ou perguntou minha idade. Apenas parou, a um palmo de distância, e pousou dois dedos no meu queixo, com uma delicadeza que parecia ensaiada.
A pele entendeu antes do cérebro: pertencer pode vir disfarçado de afago.
— Levanta o rosto, menina. — A voz dela era clara, quase cristalina, mas carregava uma firmeza que não precisava de esforço para ser notada.
E eu levantei. Meu corpo, como se movido por um instinto antigo, respondia sem hesitar a vozes que sabiam exatamente onde se colocar e como existir.
...
O banho aconteceu naquele mesmo dia — um evento raro, quase extraordinário. A água morna deslizava pela coluna como um afago, enquanto o aroma suave do sabonete preenchia o ar, sem a aspereza de outros tempos.
Um toque de óleo ficou atrás da orelha, como um segredo guardado. A toalha era macia, generosa, e as mãos que penteavam os fios não conheciam violência, apenas cuidado.
Pela primeira vez, a seda tocou meu ombro — um robe emprestado, acompanhado de uma risada leve:
“Para você entender o que é tecido de gente que não precisa pedir favor.”
O tecido escorregou pela clavícula, e algo em mim se expandiu, como se meu corpo descobrisse um espaço novo, vasto. Era isso, então, o sutil sentimento do prazer: a revelação de que eu também podia merecer sentir prazer.
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