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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 50

"Não é no colo mais próximo que o filho encontra sua mãe.

É no vínculo que nenhum silêncio consegue apagar."

— Do diário de D.

...

A mensagem chegou tarde, como uma pedra lançada num lago quieto: a babá da noite cancelara de última hora. Enzo franziu a testa ao ler o texto. A substituta sugerida era estranha ao lar — e ao seu instinto. Preferiu não arriscar. Theo dormia bem, como um lago calmo ao entardecer. Era um bebê tranquilo. Quase bom demais para ser verdade. Ou pelo menos, era o que ele pensava.

Mas naquela noite, a verdade viria arrastando correntes.

O silêncio, que até então reinava absoluto, foi quebrado por um som discreto, quase imperceptível. Primeiro um estalo sutil, depois um ruído breve — como o soluço contido. Enzo ergueu os olhos do laptop, os dedos suspensos sobre o teclado, a mente ainda dividida entre gráficos e relatórios.

Seria só o vento? Ou havia algo mais? A dúvida, sutil como uma sombra, se instalou antes mesmo que ele pudesse racionalizá-la. Ele se levantou, um arrepio correndo pela espinha como um aviso silencioso.

O ar parecia mais pesado, denso de uma inquietação que ele não sabia nomear. Cada passo em direção ao quarto de Theo carregava uma dúvida nova, uma hesitação que antes não existia.

Então ouviu o choro. Baixo, depois agudo, até rasgar o silêncio como vidro se partindo.

Ele hesitou. O som era distante, mas familiar — e errado. Não era apenas fome. Não era só desconforto. Era um grito. Um chamado.

Ao se levantar, o corpo respondeu com um arrepio involuntário. Havia algo denso no ar. Como se a casa, com seus mármores frios e tapeçarias ancestrais, estivesse segurando o fôlego.

Pensou em chamar Victoria. Mas ela estava dormindo — ou fingindo. Logo descartou a ideia. Ele era o pai, tinha que dar conta sozinho. Desde que Theo nascera, ela se fazia presente apenas em aparência. Dizia querer ajudar, mas era um tipo de presença ornamental. Um vaso caro numa estante que ninguém toca.

No fundo, Enzo já não esperava muito dela. A dificuldade de locomoção de Victoria talvez fosse a explicação e no final das contas, isso não o incomodava afinal ela não era a mãe de Theo.

Mas, ela tinha outras qualidades... Sabia exatamente como lidar com os empregados, mantinha tudo sob controle sem precisar levantar a voz, e sua relação com as babás era exemplar. A casa funcionava melhor com ela por perto, e isso já era uma grande ajuda.

Ao abrir a porta, foi recebido por um choro incessante — um som que cortava o silêncio da casa como lâminas invisíveis.

O quarto de Theo estava à meia-luz, uma pequena lâmpada projetando sombras suaves nas paredes azul-acinzentadas. O bebê se contorcia no berço, o rostinho inundado de lágrimas, os punhos cerrados como se lutasse contra o próprio desamparo.

Enzo se aproximou devagar, a garganta seca.

— Ei, garotão… — murmurou, como se pedisse permissão para entrar naquele mundo frágil.

Pegou Theo nos braços com um gesto desajeitado, e o bebê reagiu com mais choro. Enzo tentou embalar, cantarolar, fazer qualquer coisa que não parecesse tão absurdamente ridícula.

O bebê se remexia, inquieto, com o rostinho vermelho de tanto chorar. Enzo caminhava de um lado para o outro no quarto luxuoso, segurando-o nos braços e se sentindo mais impotente do que nunca na vida.

Ele, que já comandara fusões bilionárias, agora se via rendido por um choro de menos de seis quilos.

— O que você quer de mim, filho? — sussurrou, quase sem voz.

A resposta veio como um espelho: olhos grandes e úmidos fitando os seus, num silêncio súbito que pareceu mágico. Ou trágico.

Enzo apertou o filho contra o peito, e seus lábios encontraram a testa do menino com um beijo contido, sussurrando calmamente:

— Você está seguro… Papai está aqui com você.

De repente, o choro cessou e Theo olhou para ele com seus olhos grandes e brilhantes.

Nesse instante, algo mudou. O silêncio que se seguiu não era apenas ausência de som. Era presença de vínculo. E com ele, veio o peso.

Aquele menino não tinha mãe. Não uma de verdade. Não uma que o esperasse com braços ansiosos e colo quente. Dayse… Dayse se fora. Por vontade? Por desespero? Ele nunca quis saber a fundo. Preferiu aceitar a versão mais conveniente: a de que ela os abandonara.

Mas agora, com o filho no colo e o peito afogado de culpa, ele se perguntava se algum dia teve o direito de se omitir.

Na manhã seguinte, o sol atravessava as janelas da mansão como uma ironia. Tudo parecia em ordem. O quarto de Theo exalava calma. O bebê dormia, o corpo pequeno enredado em mantas leves, como se nada tivesse acontecido.

Mas dentro de Enzo, tudo era ruína.

Estava ao lado do berço, o olhar fixo, os braços cruzados como quem tenta se proteger do que sente. A noite anterior havia escancarado uma ferida que ele nunca soubera nomear: a de não saber amar direito.

Ele não sabia exatamente como agir ou o que sentir, mas ao olhar para aquele pequeno corpo que respirava de forma constante, tudo começava a fazer sentido. Como se fosse um desejo que ele nem tinha percebido que tinha, mas que de repente ficava muito claro.

Victoria entrou em silêncio, levando sua cadeira de rodas em direção Enzo. Não tinha urgência. Apenas cálculo.

— Agora ele vai precisar muito de você, Enzo — disse ela, a voz doce como mel em copo de veneno.

Ele não respondeu. Sabia reconhecer aquele tom. Victoria era especialista em aparições oportunas.

— Você parece cansado — comentou ela, aproximando-se do berço. — E é natural. Cuidar de um filho... não é simples. Ainda mais sozinho.

Ela pousou a mão suavemente sobre a de Enzo, com delicadeza ensaiada. Enzo não a afastou.

Mesmo sabendo que os sentimentos de Enzo por ela tinham desaparecido como fumaça ao vento, essa certeza não a desanimava. Pelo contrário, havia uma força no silêncio dela que falava mais do que qualquer palavra poderia dizer.

O poder, o status e o controle que a família Bellucci exibia eram, na verdade, a maior recompensa que todos buscavam, inclusive ela. Enzo hesitou por um momento, sem responder imediatamente, sua mente navegando por um mar de pensamentos.

Capítulo 50 ― Uma Mãe para Theo 1

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