A Croácia parecia um mundo completamente diferente, quase um planeta à parte.
Os sons vibrantes, os rostos novos, as ruas cheias de curvas… tudo tinha uma energia quase mágica, como se fosse algo único no mundo.
E, pela primeira vez, Dayse sentiu um sopro de liberdade que a envolvia como um abraço quente e acolhedor.
Quando chegaram a Split, uma cidade linda à beira do mar, cercada por montanhas imponentes e cheia de história antiga.
Alugaram um apartamento simples, mas aconchegante — com três quartos bem iluminados, uma varanda convidativa que dava para um jardim silencioso. Um silêncio que trazia paz. Um silêncio bom, que parecia prometer novos começos.
Dayse respirou fundo ao atravessar a soleira do novo lar. Era a primeira porta que abria com as próprias mãos, longe da imposição de outros. Ali, ninguém sabia seu passado. Ninguém a chamava de Senhora Bellucci.
Ela sentiu que estava finalmente entrando numa nova fase da vida... Decidiu adotar o sobrenome Lancaster, que era o único fragmento autêntico das suas raízes. Era o nome que carregava no orfanato.
Antonelli, o sobrenome dos pais adotivos, nunca lhe pertenceu de verdade — uma herança imposta, sem laços profundos.
Bellucci, por outro lado, era ainda mais estranho, um título vazio amarrado a um casamento de conveniência.
Lancaster… O nome ainda soava estranho ao ouvido, mas certo no coração. O nome da infância esquecida, da menina do orfanato, da parte dela que ninguém conseguiu apagar. Mas não era só um nome — era um resgate.
Ela não ia mais se esconder atrás de mentiras. Só precisava ficar longe do alcance deles.
...
Renata se tornara mais do que amiga. Era parceira de jornada. As duas dividiam os dias como quem segura um barco durante uma tempestade: cada uma segurando um remo, cada uma protegendo os pequenos tripulantes. Com o tempo, criaram uma rotina dura, mas cheia de rituais de afeto.
Cozinhavam juntas. Revezavam a leitura para os meninos antes de dormir. Riam das desordens e choravam em silêncio quando o cansaço transbordava. Eram irmãs sem sangue, mas ligadas por feridas e força.
Renata, leal ao pacto não dito que compartilhava com Dayse, mergulhou nos estudos com determinação. Sua dedicação a levou a conquistar uma bolsa parcial para um curso de Administração—um pequeno triunfo que lançava luz sobre as dificuldades que enfrentava diariamente.
Cada aula, cada novo conhecimento assimilado, representava não apenas um avanço acadêmico, mas também um passo firme em direção ao futuro que almejava construir. A bolsa não resolvia tudo, mas simbolizava que, apesar dos obstáculos, o caminho ainda era possível.
Impulsionada pelo exemplo e pela própria determinação, Dayse conquistou uma bolsa integral na mesma área. Mas seus estudos iam além de um simples caminho para o futuro — eram uma busca por justiça, por controle, por poder.
Seu sonho era cristalino, como a luz do sol atravessando uma vidraça: decifrar os intrincados mecanismos dos negócios, os contratos que ocultavam segredos e o jogo impiedoso do capital. Mas, sob essa ambição, havia um desejo ainda mais profundo e feroz — não apenas entender o sistema, mas desvendá-lo até suas fissuras mais ocultas.
E, um dia, encontrar a brecha certa para quebrá-lo por dentro.
— Dayse Lancaster — ela falou com firmeza, com uma voz cheia de determinação, ao se apresentar pela primeira vez na fila de registro da faculdade.
― “Mãe. Estudante. Sobrevivente” ― murmurou para si mesma, como se tatuasse a nova identidade por dentro.
Nos primeiros semestres, combinaram os horários: uma estudava de dia, outra à noite. As crianças — agora com cinco anos — se adaptaram à escola em tempo integral. Assim, conseguiam equilibrar tudo com dedicação e esperança.
...
O céu de Split era largo, azul como promessa, limpo como esperança, quase como um lembrete constante de que, em algum lugar, há um horizonte esperando por aqueles que conseguem suportar as tempestades.
Às vezes, Dayse parava diante da varanda com Noah no colo e deixava o tempo passar em silêncio. Sentia a respiração dele contra seu peito, sentia o calor daquelas mãozinhas pequenas, e tudo nela amolecia.
Noah era seu espelho emocional — sensível, intuitivo, o mais dependente do seu colo. À noite, acordava chamando por ela, e só voltava a dormir quando sentia a pele da mãe sob seus dedos.
— Ele sente o que você sente — dizia Renata, certa de sua intuição.
— Você e ele têm um tipo de ligação silenciosa. Quase espiritual.
Gael, por outro lado, era pura energia e com uma ideia nova pipocando a cada segundo. Corria, pulava, gritava, criava. Tinha sempre os joelhos esfolados e a boca cheia de perguntas.
Dante vivia com um livro embaixo do braço e uma expressão atenta. Observador, curioso, introvertido — parecia velho demais para a idade. Às vezes, fitava Dayse por longos minutos, como se estivesse tentando entender sua dor sem perguntar.
...
Split, com suas ruas antigas carregadas de história, oferecia um respiro no meio do frenesi do mundo. O céu era amplo e muitas vezes limpo, quase como um lembrete constante de que, em algum lugar, há um horizonte esperando por aqueles que conseguem suportar as tempestades.


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