“A pergunta mais importante não exige luz para ser feita. Apenas coragem para esperar a resposta.” — (Anotação de R.)
(...)
Não consegui ver quem era. Mas senti — Deus, como senti. Cada célula do meu corpo entrou em alerta máximo, como se uma parte ancestral de mim reconhecesse algo que minha mente consciente ainda não podia nomear. O ar mudou de textura, ficou denso, carregado de uma presença que não era minha. Minha pele arrepiou em ondas, desde a nuca até os braços, num reconhecimento que vinha de algum lugar mais profundo que a memória.
Eu não estava mais sozinha. Alguém havia entrado no quarto.
— Posso?
A voz veio tão baixa que quase não era voz — mais um suspiro carregado de hesitação. Não era demanda. Não era ordem. Era pedido. Era entrega. Aquela única palavra, suspensa no escuro entre nós, parecia devolver a mim um controle que eu achava ter perdido ao subir aquelas escadas.
Posso?
A pergunta ecoou dentro de mim, ricocheteando contra as paredes do meu peito, do meu estômago, de lugares que eu nem sabia que guardavam perguntas não respondidas. Ele estava pedindo permissão para o quê, exatamente? Para ficar? Para tocar? Para existir naquele espaço comigo?
Demorei. Deus, como demorei. O tempo se esticou, ficou elástico, quase insuportável. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvi-lo cortando o silêncio do quarto.
No escuro absoluto, meu corpo decidiu antes da minha mente conseguir processar. Um aceno minúsculo da cabeça — tão sutil que mal existiu no mundo físico, mas existiu inteiro no mundo das intenções. Ele não podia ver através daquela escuridão sufocante, mas sentiu. Ele sentiu.
O colchão cedeu devagar sob o peso dele. Cada movimento era calculado, respeitoso, cuidadoso — como quem se aproxima de algo selvagem e assustado que pode fugir a qualquer instante. Como quem sabe que um movimento brusco pode quebrar o encanto frágil daquele momento.
A mão dele pairou perto do meu rosto sem tocar — um pedido silencioso vibrando no ar entre nós, um convite tão respeitoso ao meu território que algo dentro de mim se apertou e se abriu ao mesmo tempo.
Me inclinei. Primeiro um centímetro hesitante. Depois mais um. E mais outro. Até que o calor da respiração dele encontrou minha pele, e algo dentro de mim simultaneamente se estilhaçou e se recompôs, como vidro que quebra e se funde de volta numa forma nova.
O beijo aconteceu como reconhecimento.
Como uma chave girando numa fechadura que sempre esteve ali, enferrujada pela espera, finalmente encontrando seu encaixe perfeito.
Começou tímido, quase hesitante, testando terreno desconhecido e ao mesmo tempo familiar demais. Depois se aprofundou, e foi como se meu corpo lembrasse de algo que minha memória deliberadamente tinha tentado apagar — uma coreografia que eu nunca soube que conhecia.
Foi meu primeiro beijo.
A revelação me atingiu em cheio, cortante e doce, devastadora e libertadora ao mesmo tempo.
Por dentro, eu desabava enquanto flutuava. Borboletas em enxame frenético no estômago, o coração socando as costelas como quem implora para escapar da prisão do peito. Minhas mãos suavam aquela urgência primitiva que não tem nome nas línguas civilizadas — uma linguagem que o corpo conhece antes das palavras serem inventadas, antes da razão existir para controlar os instintos.
Eu sentia aquela plenitude estranha, quase insuportável. Como se, pela primeira vez em toda minha existência fragmentada, eu realmente coubesse inteira dentro da minha própria pele. Como se finalmente tivesse chegado onde sempre deveria estar, um lar que eu nunca soube que estava procurando até encontrá-lo.
Era meu corpo despertando para o amor. Não por medo que paralisa. Não por obrigação que sufoca. Mas por um chamado ancestral, visceral, que só o corpo consegue compreender quando a mente finalmente se cala.
O mundo inteiro se dissolveu até caber num fragmento mínimo de pele onde minha respiração encontrava a dele, onde nossos hálitos se misturavam criando algo novo. O universo inteiro cabia ali, naquele milímetro de distância entre nós.
Entre nós girava uma ternura feroz, quase selvagem em sua intensidade. Uma urgência que não me consumia como fogo destrutivo, mas que me revelava — camada por camada, verdade por verdade escondida, como quem descasca algo precioso com cuidado reverente.
O escuro não escondia. O escuro protegia. E naquele instante que se esticou como eternidade suspensa, eu me reconheci completamente. Como quem finalmente volta para casa depois de passar a vida inteira perdida em territórios estrangeiros.
Quando minha mão buscou o contorno do rosto dele, encontrei pouco e tudo simultaneamente: a aspereza delicada da barba roçando meus dedos, a firmeza angular da mandíbula, um recuo sutil — não de rejeição que machuca, mas de reverência que honra. Como quem segura algo tão precioso, tão frágil, que não ousa apertar com força demais por medo de quebrar.
Ele se afastou meio passo, mas permaneceu tão perto que eu ouvia cada inspiração dele chegando até mim, cada expiração carregando algo não-dito que eu entendia em níveis que transcendiam linguagem.


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