“Há silêncios que não nascem da ausência, mas da recusa. E lembrar, às vezes, é a forma mais dolorosa de existir em segredo.” — Do diário de D.
...
A reunião, esse espetáculo de formalidades e egos inflados, havia finalmente chegado ao fim, mas o verdadeiro drama, ah, esse ainda reverberava dentro dela como um eco teimoso em um salão vazio.
Dayse Lancaster mantinha a expressão serena enquanto cruzava o hall da Bellucci Corporation com passos firmes e controlados. Os olhares de respeito e curiosidade a seguiam, mas ela não os via. Estava em outro lugar — dentro de si mesma, mergulhada em uma guerra civil interna, travada em um campo de batalha que ninguém ao redor sequer suspeitava existir.
“Não foi a ausência que doeu. Foi o esquecimento. Como se eu nunca tivesse existido.” ― Diário de D.
― “Ele me olhou nos olhos... e não me reconheceu.”
A constatação pesava sobre ela mais do que devia, como uma ironia, uma piada de mau gosto contada pelo destino.
Era um golpe que ela não previra, uma dor que não havia ensaiado. Durante anos, preparou-se para aquele instante, construindo cenários em sua imaginação: choque, raiva, talvez até desprezo. Mas a indiferença? O esquecimento? Essa era uma reviravolta que nem o mais cínico dos roteiristas ousaria escrever.
Por fora, Dayse era a imagem da compostura. Por dentro, cada passo parecia ecoar em um abismo. A indiferença dele não era apenas um esquecimento; era uma negação de sua existência, uma ferida que latejava em silêncio.
E, ainda assim, ela seguia em frente, como sempre fizera, carregando o peso de um passado que ele descartara com a leveza de quem apaga um rabisco insignificante.
No elevador, quando finalmente ficou sozinha, o rosto impassível começou a rachar. As mãos, antes firmes, tremiam discretamente ao lado do corpo.
Enzo Bellucci estava mudado. Havia algo nele que parecia mais sólido, mais contido, como se o tempo tivesse esculpido suas arestas, mas sem apagar a essência. Ainda carregava aquele olhar — o mesmo olhar de quem nunca aprendeu a amar com leveza.
Era um olhar que falava de ausências, de batalhas internas que ninguém jamais testemunhou.
Ela fechou os olhos, e a memória veio como uma onda fria, sem ser convidada.
“Às vezes, o que fere não é o que foi dito. Mas tudo aquilo que ele escolheu não dizer.” ― Diário de D.
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Era uma noite gelada na mansão, o silêncio pesado como o ar antes de uma tempestade. Embaixo do chuveiro, encolhida, sentindo o peso do contrato entre eles como um fardo invisível, um teto baixo que ameaçava esmagá-la. Ela chorava
Então, o som da porta se abrindo lentamente cortou o silêncio.
Ele entrou.
Seus passos eram medidos, quase hesitantes, mas não havia ternura neles. Também não havia brutalidade. Apenas uma ausência que preenchia o espaço entre os dois. Ele se aproximou, e por um instante, algo mudou.
Ele a olhou. Não foi um olhar casual, nem apressado. Foi um olhar que durou mais do que deveria, como se ele estivesse tentando decifrar algo que nem ele mesmo entendia.
Sem palavras, ele se aproximou. Não havia dureza em seus gestos, apenas uma ausência que pesava como um véu invisível entre os dois. Mas naquela noite, algo fugaz rompeu a monotonia.
Por um instante, ela percebeu uma mudança — ele não a olhou com a pressa habitual, mas com uma demora que parecia carregar um significado. Não disse nada, mas seus olhos... ah, seus olhos. Havia ali uma hesitação, um brilho quase imperceptível de humanidade, como se algo dentro dele lutasse para emergir.
— “Se ele tivesse falado comigo... Se tivesse quebrado o silêncio... talvez tudo tivesse sido diferente.”
Mas ele não falou.
E, na manhã seguinte, como sempre, apenas o som da porta se fechando atrás dele.
Como um relógio que retorna ao seu tique-taque imutável, tudo voltou ao que sempre foi: silêncio, limites invisíveis, e a inevitável partida.
“O silêncio sempre foi a nossa língua. E talvez por isso, nunca nos entendemos.” ― Diário de D.
...
Dayse inspirou profundamente quando as portas do elevador deslizaram para abrir no térreo. Por um instante, o ar pareceu mais pesado, mas ela ergueu o queixo, ajustando a postura com precisão quase mecânica. O nó na garganta pulsava, insistente, mas ela o engoliu como quem engole um grito. Não podia ceder, não agora. Não ali.
Então, com um sorriso sereno, respondeu:
― Claro que está, meu amor. Só foi um dia... intenso.
Noah, sempre sensível, a abraçou pela cintura, como se quisesse protegê-la de algo invisível.
Enquanto isso, Gael, com sua energia incansável, correu para buscar um copo d'água, como se aquela pequena ação pudesse fazer tudo voltar ao normal. E, por um instante, talvez tenha feito.
Eles não sabiam, mas ela precisava deles mais do que nunca.
Naquela noite, quando finalmente ficou sozinha no quarto, o silêncio parecia gritar.
Sentou-se à beira da cama, o velho caderno repousando em seu colo como um relicário de memórias que insistiam em não se apagar. Com dedos hesitantes, folheou as páginas desgastadas pelo tempo, cada uma carregando fragmentos de quem ela foi.
Então, escreveu:
“Ele me olhou, mas não me viu. Mas eu vi. Vi o homem que quase amei. Vi o pai dos meus filhos. E, por um instante, senti o peso do que poderia ter sido.” ― Diário de D.
As palavras, tão simples e tão devastadoras, pareciam ecoar no vazio do quarto. Fechou o caderno com uma delicadeza quase ritualística, como se temesse que os sentimentos escapassem das páginas.
Naquela madrugada, enquanto os filhos dormiam tranquilos ao lado, ela permitiu que as lágrimas corressem livres.
Chorou pela mulher que um dia foi, pela mulher que nunca chegou a ser, e por todas as versões de si mesma que ficaram pelo caminho.
“Amanhã volto a ser fortaleza. Mas esta noite... esta noite é só minha.” ― Diário de D.
Mas foi só por aquela noite. Quando o sol surgisse no horizonte, Dayse Lancaster se ergueria novamente. Intocável. Inabalável. Porque era isso que o mundo esperava dela. E, por mais que doesse, ela sabia que era isso que precisava ser.

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