"Julian"
Eu saí da sala do Érick sentindo o peso do mundo nos ombros. Por que o Andrey sempre ficava com a parte divertida? E, para piorar, no caminho para a mansão, meu celular vibrou. Dona Heloísa. Quando cheguei, ela já me esperava no jardim de inverno, com aquela elegância imperturbável que escondia as garras de uma leoa.
- Julian, querido. - Ela abriu um sorriso encantador para mim. - Você está com aquela expressão de quem tem um problema para resolver e não sabe como.
- É, eu realmente tenho alguns problemas, D. Heloísa. E um deles é aquela instituição de apoio a mulheres. Mas, eu creio que a senhora possa me ajudar, sempre tem uma clareza de pensamento admirável. - Eu respondi, sentando-me diante dela e baixando a voz a um sussurro. - O Simão sabe do pagamento das dívidas. Ele confrontou o Érick hoje cedo. Eles estão investigando e alguém está vazando informações de dentro desta casa.
A D. Heloísa me encarou. Aqueles olhos azuis, tão parecidos com os de Érick, brilharam com uma astúcia que parecia milenar.
- O Simão é um verme que se alimenta de migalhas. Se ele sabe, é porque alguém deixou o rastro. - Ela se inclinou para frente, baixando o tom de voz. - A Lorena está lá em cima, foi pegar algo para mim. Antes que ela volte, eu preciso que você me diga a verdade, Julian. Eu confio em você. Até onde eles podem chegar?
- Não muito longe. Mas o Érick, ele suspeita que alguém quer comprar a lealdade da Lorena. E se ele descobrir que foi a senhora, ele vai se sentir traído. Por que a senhora fez isso sem consultá-lo?
Ela deu um sorriso enigmático e tomou um gole do chá.
- Julian, apenas se certifique de que ninguém descubra mais nada sobre isso ou sobre a Lorena. Esse assunto tem que continuar como está, uma instituição que ajuda mulheres a se reerguerem e aleatoriamente escolheu o caso da Lorena. No momento certo, assim que essa tempestade passar, eu me resolvo com o Érick. Ele vai entender que cuidei da família.
- E sobre o informante? A senhora conhece todos aqui melhor do que eu. - Eu estava esperando que ela me ajudasse, mas ela já tinha a resposta.
- Se a Lorena estiver certa, o golpe veio de quem menos se poderia suspeitar. Agora eu preciso saber do Érick como ele quer agir. - Ela suspirou, mas parou de falar no segundo em que a Lorena atravessou as portas duplas.
A Lorena atravessou as portas duplas com um caminhar que já não era mais o da babá tímida que conheci tempos atrás. Havia uma altivez nova ali, mas os olhos dela... os olhos dela estavam carregados de ansiedade. Ela segurava um xale de seda, mas quando me viu pareceu se esquecer dele compleramente.
Ela se apressou em minha direção e antes que eu pudesse cumprimentá-la, ela já foi me interrogando:
- Julian? - A voz dela, apesar de aflita, soou mais firme do que eu esperava. - O que aconteceu na empresa? O Érick... ele me ligou e avisou que você estava vindo. Ele mal falou comigo ao telefone, mas eu senti na voz dele que tem algo errado. O Simão fez alguma coisa, não foi?
Eu observei a agitação dela, a capacidade que ela tinha de ler o Érick era impressionante, porque o meu amigo não era exatamente uma pessoa fácil de se compreender e eu tinha certeza que ele não havia dito nada a ela. Com certeza não queria preocupá-la ainda mais. A Lorena desde o início estava preocupada com o plano do Érick. Claro que ela estava, ela era contadora, ela sabia exatamente as implicações e o risco daquela jogada que estávamos fazendo.
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