POV/ Moon
Ele não respondeu. Apenas balançou a cabeça devagar, engoliu em seco e baixou os olhos para o caderno. Com os dedos trêmulos, ele apoiou a ponta da caneta na folha e escreveu com traços arrastados:
"Vocês duas estão felizes?"
Olhei para aquela pergunta torta no papel e senti o meu peito se encher de calor.
— A gente tá feliz, pai. Muito feliz — respondi com um sorriso sincero, deixando a dúvida sobre a careta dele de lado por enquanto. — O nosso projeto foi selecionado em primeiro lugar fase e nós temos quase certeza de que vamos ganhar esse contrato. E... nós duas estamos saindo com pessoas boas. São homens que têm condições, que estão cuidando da gente e nos protegendo de verdade. Quando o senhor estiver melhor, nós vamos trazer eles aqui para te apresentar. De toda essa fase horrível que a gente enfrentou desde o dia do acidente, agora é de longe o melhor momento das nossas vidas.
O meu pai soltou a caneta no colo. Ele levantou a mão direita devagarzinho, levou os dedos trêmulos até a lateral do meu rosto e passou a mão pelo meu cabelo, acariciando os fios com uma calma que parecia anestesiar todo o peso que eu carregava.
Ele se inclinou para a frente com cuidado e encostou os lábios quentes no meio da minha testa, me dando um beijo demorado. O cheiro forte de remédio e loção hospitalar que vinha dele bateu no meu nariz.
O meu nariz ardeu com força, os olhos queimaram e a garganta deu um nó tão apertado que o ar sumiu. O meu coração disparou contra as costelas.
Passei os braços ao redor dos ombros magros do meu pai, enterrei o rosto no peito do pijama dele e comecei a chorar.
Não consegui segurar. Foram anos vendo a Sky se matar de trabalhar em dois turnos, carregando o mundo nas costas e engolindo o choro sozinha, enquanto eu precisava manter a pose de menina forte para não desmoronar o resto da casa. Eu não tinha ninguém para me apoiar, ninguém para quem eu pudesse esticar a mão e dizer que estava com medo.
E agora o meu pai estava ali. Acordado.
Ele talvez ainda não estivesse cem por cento recuperado, mas o abraço dele estava ali, firme o suficiente para me sustentar.
As minhas lágrimas molharam o tecido cinza da camisa dele enquanto o meu corpo sacudia com os soluços soltos.
O meu pai continuou passando a mão devagar pelo meu cabelo, dando tapinhas carinhosos nas minhas costas. Ele encostou o queixo no topo da minha cabeça e soltou com a voz arrastada, fazendo um esforço enorme para cada sílaba sair:
— Tu... do bem, Moo... De... va... gar. Vai... fi... car... tu... do... bem.
Apertei os meus braços ao redor dele com mais força, sentindo o calor e a segurança que eu tinha esquecido como eram desde o dia em que a minha vida tinha virado de cabeça para baixo.
As lágrimas continuavam descendo quentes pelo meu rosto, molhando as minhas bochechas enquanto eu tentava engolir o choro para não deixar o meu pai ainda mais nervoso. Segurei a mão dele com as duas mãos, sentindo os dedos dele apertarem a minha pele com uma rigidez repentina.
Um barulho seco na fechadura cortou o silêncio do quarto.
Virei o rosto para a entrada, achando que era a Sky chegando com as coisas da padaria, mas congelei na cadeira ao ver a maçaneta girar por completo.
A porta abriu devagar e o Gouveia entrou no quarto.
Ele usava um terno escuro bem cortado, com as mãos nos bolsos da calça e um sorriso calmo, quase cínico, estampado no rosto enrugado.
No mesmo segundo, o corpo inteiro do meu pai travou.
Ele ficou completamente duro na poltrona, as costas retas coladas no estofado e os olhos arregalados, cravados na figura do homem parado na entrada como se estivesse vendo uma assombração. A respiração dele falhou de vez, soltando um chiado áspero pelo nariz.
— Ora, ora... Que felicidade te ver acordado e de pé, meu velho amigo — o Gouveia soltou com a voz mansa, dando dois passos lentos para dentro do quarto. — A equipe médica me avisou que você tinha saído do coma, mas ver você assim, com os próprios olhos, é uma surpresa e tanto.
O meu pai abriu a boca em desespero, puxando o ar com tanta força que o peito magro estufou sob o tecido cinza do pijama. Ele tentou falar, as cordas vocais travando em um som engasgado e cortado:
— S... Sa... Sai... G... Gou...
— Calma, pai! Calma! — levantei da cadeira no mesmo instante, segurando os ombros trêmulos do meu pai. — Não força a garganta, por favor! Respira fundo!
O meu pai não me ouviu. Com os dedos trêmulos e desgovernados, ele pegou a caneta na mesinha lateral e pressionou a ponta contra a folha do bloco de notas com uma força bruta. O plástico estalou na mão dele, quase rasgando a folha branca enquanto ele riscava letras enormes e pontudas:
"FIQUE LONGE DELAS." "FIQUEM LONGE DELE."
Ele empurrou o bloco na minha direção, o braço inteiro chacoalhando enquanto o olhar dele pulava do papel para a minha cara com um desespero que me deu um aperto horrível no peito.
Eu não estava entendendo a gravidade daquele pavor todo, mas ver o meu pai naquele estado fez o meu sangue ferver.
O monitor ao lado da cama começou a apitar em um ritmo acelerado, acusando os batimentos cardíacos disparados e a respiração curta dele.
O Gouveia deu mais um passo na direção da poltrona, com uma calma irritante:
— Calma, meu amigo. Não precisa ficar assim tão nervoso. Eu só vim fazer uma visita de cortesia e conversar um pouco com você.
Me coloquei direto na frente do meu pai, bloqueando a passagem do Gouveia e encarando o homem de frente:

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