POV/ MOON
Deslizei a mão pelo braço dele de novo, apertando o bíceps largo e sólido como concreto:
— Você mudou demais por fora. Ficou gigante. Mas você ainda lembra de como eu era? Lembra de quando eu avançava nos meninos maiores no recreio para não deixarem encostar em você?
— Lembro de cada segundo, Moon. Lembro da sua coragem, da sua teimosia e do fogo que brilhava nesses olhos verdes quando você ficava com raiva para me defender. É exatamente por isso que eu criei aquela lista de exigências na construtora. — Ele apertou a minha cintura contra o corpo dele, com o olhar carregado de um sentimento bruto. — Quando eu te vi naquele hospital com o seu pai, e depois quando a gente começou a trabalhar junto no projeto do resort... eu percebi que a vida tinha apagado aquele fogo. Você estava cabisbaixa, triste, engolindo desaforo e aceitando tudo calada por causa das dívidas e daquele desgraçado do Gouveia. Eu montei aquela lista — as massagens, os jantares, as ordens e as provocações — porque eu precisava sacudir você. Eu precisava trazer a minha garota atrevida, corajosa e dona de si de volta para a vida.
O meu coração deu um salto tão violento que os meus olhos marejaram na mesma hora.
O Christian, o homem poderoso que comandava centenas de funcionários, o diretor implacável que todo mundo temia, tinha arquitetado tudo aquilo com o único objetivo de me resgatar de mim mesma. A gratidão, a paixão e o desejo se misturaram de um jeito tão avassalador que eu puxei a gola da camisa dele e colei a minha boca na dele mais uma vez, entregando cada pedaço da minha respiração naquele beijo.
Ficamos perdidos no calor um do outro até sentirmos o carro reduzir a velocidade, fazer uma curva suave e parar por completo.
O som característico da divisória de vidro descendo cortou o silêncio da cabine, e a voz respeitosa do motorista soou:
— Chegamos ao local de embarque, senhor Blackwood.
O Christian encerrou o beijo com uma mordidinha deliciosa no meu lábio inferior e abriu aquele meio sorriso de lado que sempre fazia as minhas pernas fraquejarem. Ele ajeitou a barra do meu vestido branco na altura das minhas coxas, pegou a minha mala pequena de mão com uma facilidade absurda e abriu a porta pesada da limusine.
Desci do carro sentindo o ar fresco da noite bater contra a minha pele aquecida.
Nós estávamos em um heliponto privativo à beira da costa, com o piso de asfalto iluminado por refletores embutidos e o mar escuro se estendendo até onde a vista alcançava. E parado bem no centro da pista, com as pás do rotor girando devagar e as luzes de sinalização piscando em compasso contra a escuridão do céu, estava um helicóptero preto, imponente e moderno.
O Christian estendeu a mão grande e fechou os dedos ao redor dos meus, me guiando com passos firmes em direção à aeronave. O vento forte gerado pelas hélices soprava o meu vestido e jogava os meus cabelos loiros para trás, mas a presença sólida dele ao meu lado me dava a certeza absoluta de que nada no mundo poderia me derrubar.
Ele me ajudou a subir os degraus da cabine, garantindo que eu me acomodasse no banco de couro macio e espaçoso. Entrou logo em seguida, fechou a porta pesada com um clique seguro e sentou-se colado a mim.
Com uma delicadeza que contrastava com o tamanho daquelas mãos, o Christian pegou o fone com microfone integrado, ajeitou sobre a minha cabeça, afastou os fios de cabelo das minhas orelhas e encaixou as almofadas perfeitamente. Em seguida, colocou o dele, puxou o cinto de quatro pontos e afivelou a trava sobre o meu peito com cuidado, repousando a mão pesada sobre a minha coxa logo depois.
A voz dele ecoou pelos fones, nítida, grave e com aquela rouquidão que arrepiava a minha espinha:
— Consegue me ouvir com clareza, ratinha?
— Consigo... Perfeitamente — respondi pelo microfone, sentindo o peito apertar de expectativa.
O piloto terminou os procedimentos no painel, o motor aumentou a rotação em um zumbido potente e a aeronave começou a se erguer do chão com uma suavidade impressionante.
Olhei através da janela curva e vi a cidade ir ficando pequena para trás. As luzes da orla foram se transformando em um cordão brilhante até que entramos sobre o espelho negro do oceano aberto, voando em direção à região de Angra dos Reis. O céu noturno estava limpo, salpicado de estrelas, e o Christian passou o braço largo por cima dos meus ombros, me puxando para o calor do peito dele.
Ele não olhava para o horizonte. Os olhos escuros dele estavam cravados no meu rosto, assistindo a cada suspiro, a cada piscada e ao brilho que não saía dos meus olhos.


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