POV: NATHAN
Eu precisava mandar aquela mulher embora.
Era simples. Bastava abrir a porta, apontar para a casa dela, do outro lado da rua, e dizer que conversávamos pela manhã. Sakura atravessaria a rua, entraria em casa e dormiria na própria cama, enquanto eu tentaria recuperar o pouco de sanidade que ainda me restava.
Era exatamente o que qualquer homem com dois neurônios funcionando faria.
Infelizmente, os meus pareciam ter pedido demissão.
Porque, em vez de mandá-la embora, eu estava beijando Sakura na entrada da minha casa, depois da meia-noite, usando apenas uma toalha.
E o irmão dela estava dormindo no andar de cima.
Puta que pariu.
Segurei sua cintura e aprofundei o beijo. Sakura soltou um suspiro contra minha boca, envolvendo meus ombros com os braços, e senti seus dedos alcançarem minha nuca.
Eu conhecia aquela mulher havia anos. Conhecia suas manias, seu temperamento, a maneira como franzia o nariz quando estava irritada e como sorria quando acreditava ter conseguido me convencer de alguma coisa.
Também conhecia aquele sorriso que ela tentava esconder depois de me beijar.
E era justamente esse o meu problema.
Sakura se afastou o suficiente para respirar.
— Você está bravo comigo?
— Muito.
Ela sorriu.
— Não parece.
— Estou tentando demonstrar.
— Está fazendo um péssimo trabalho, Beaumont.
Antes que eu pudesse responder, ela me beijou novamente.
Pronto.
Lá se foi minha última tentativa de manter alguma autoridade naquela situação.
Passei a mão por sua nuca, entrelaçando os dedos nos cabelos pretos. Sakura se aproximou mais, e dei alguns passos para trás, conduzindo-a para longe da entrada.
Precisávamos sair dali.
Principalmente porque eu ainda estava de toalha e tinha um vizinho que adorava passear com o cachorro de madrugada.
Fechei melhor a porta e voltei a beijá-la.
Sakura segurou meu rosto entre as mãos.
— Sentiu minha falta?
— Você esteve comigo até pouco tempo atrás.
— Não foi isso que eu perguntei.
— Sakura...
— Nathan...
Soltei uma risada.
— Você não facilita nada.
— Eu sei.
Ela me deu outro beijo, satisfeita consigo mesma.
Tentei caminhar em direção à sala sem me afastar dela. Foi uma decisão questionável.
Meu quadril esbarrou no aparador.
Alguma coisa caiu no chão.
O barulho pareceu absurdamente alto naquela casa silenciosa.
Nós dois congelamos.
Olhei para o objeto caído.
Depois para Sakura.
— Merda.
Ela apertou os lábios, tentando não rir.
— Foi você.
— Eu sei que fui eu.
— Só estou esclarecendo.
— Sakura, pelo amor de Deus...
Ela soltou uma risadinha.
Apontei para o teto.
— Diego.
Imediatamente, ela cobriu a boca.
— Meu Deus! — sussurrou. — Eu tinha esquecido!
— Como você consegue esquecer que seu irmão está dormindo na minha casa?
— Porque você abriu a porta daquele jeito!
Olhei para minha toalha.
— Eu estava tomando banho!
— E eu tenho culpa de você ficar bonito de toalha?
Fiquei olhando para ela.
Sakura abriu um sorriso inocente.
— O quê?
— Você está tentando me matar.
— Dramático.
Segurei sua mão e a puxei comigo, afastando-nos do aparador. Só que ela tropeçou na beirada do tapete e se agarrou aos meus ombros.
Perdi o equilíbrio.
Caí sentado no sofá, com Sakura praticamente em cima de mim.
— Ai, meu Deus! — ela exclamou, antes de começar a rir.
— Shhh!
— Desculpa!
— Você vai acordar seu irmão!
— Eu sei!
— Então para de rir!
Ela tentou.
Juro que tentou.
Mas bastou olhar para minha expressão para começar tudo de novo.
Acabei rindo também.
— Você é uma desgraça na minha vida, sabia?
— Uma desgraça muito bonita.
— Convencida.
— Aprendi com você.
Ela se ajeitou sobre minhas pernas, e seus cabelos caíram sobre meu rosto. Afastei os fios com uma das mãos, colocando-os atrás de sua orelha.
A sala estava escura, iluminada apenas pela claridade que entrava pelas janelas. Mesmo assim, conseguia distinguir seu sorriso.
Passei o polegar lentamente por sua bochecha.
Sakura parou de rir.
— O que foi? — perguntou baixinho.
Balancei a cabeça.
— Nada.
— Você está me olhando de um jeito estranho.
— Estou olhando para você.
— Eu percebi, gênio.
Sorri.
Ela tinha os olhos fixos nos meus, e por alguns segundos esqueci completamente o objeto caído no chão, a toalha e até a possibilidade de Diego aparecer.


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