POV/ CHRISTIAN
Afastei-me da mesa.
Queria continuar perguntando, mas precisava de distância para conseguir olhar para ela. Dei alguns passos e parei perto da parede, com os braços rígidos ao lado do corpo.
Tentei recuperar o rosto de meu pai sem recorrer às fotografias. Vieram lembranças incompletas, e a dificuldade me atingiu de uma maneira que não esperava. Havia perguntas que nunca conseguiria fazer. Conversas que tinham terminado antes que eu tivesse idade para compreender a falta que fariam.
— A senhora sabia — falei.
Helena olhou para mim.
— Descobri depois.
— E depois fez o quê?
Ela permaneceu em silêncio.
Voltei até a mesa.
— Contou ao meu avô?
Minha avó negou.
— À polícia?
Outra negativa.
Eu conseguia ouvir meu próprio coração. Passei a mão pelo rosto, tentando diminuir o calor que se acumulava perto dos olhos.
— Então deixou Lorenzo continuar vivendo com a gente.
Christian olhou para ela.
Minha avó tentou se explicar.
— Sua família já tinha perdido tanta gente. Você e Ravi precisavam de estabilidade. Seu tio tinha acabado de enterrar Roberto, eu não sabia como…
— A senhora sabia quem tinha feito aquilo.
Minha voz saiu alta demais. Parei, respirei e continuei mais baixo.
— Sabia enquanto via Ravi tentando continuar. Sabia quando eu perguntava sobre meus pais.
Helena cobriu a boca.
— Eu sou mãe, Rocco.
Esperei.
Ela afastou a mão, procurando meu rosto.
— Eles sempre brigaram. Seu pai era mais velho, mais firme. Lorenzo parecia precisar mais de mim. Eu achava que tinha que defendê-lo, fazer o irmão compreender que ele era diferente.
— Diferente como?
Minha avó abriu as mãos.
— Mais frágil. Eu sempre achei que fosse mais frágil.
Senti meus dedos começarem a tremer.
Fechei as mãos, mas o movimento não resolveu.
— Então desculpava o que ele fazia.
Helena assentiu, chorando.
— Achava que conseguiria corrigir. Conversava, tentava ajudar. Depois percebi que tinha passado anos permitindo coisas que deveria ter enfrentado.
— E quando ele matou meu pai, a senhora continuou.
Ela se encolheu na cadeira.
— Eu não conseguiria suportar perder outro filho. Só quem é mãe…
— Também era mãe do meu pai.
Minha avó parou de falar.
A frase ficou entre nós enquanto eu tentava conter a vontade de chorar. Não queria que ela usasse minhas lágrimas como uma oportunidade para me abraçar. Naquele momento, não suportaria seu toque.
— A senhora deixou que Otávio fosse culpado — continuei. — Deixou Sky e Moon crescerem com essa história. Depois tratou as duas como se devessem alguma coisa à nossa família.
Helena negou com a cabeça.
— Eu queria impedir que tudo voltasse.
— Para quem tinha acabado?
Ela olhou para mim.
Aproximei a cadeira, mas não me sentei.
— Eu não recuperei meus pais porque a senhora resolveu ficar em silêncio. Ravi não deixou de sofrer. As meninas não tiveram uma vida mais fácil. Quem a senhora protegeu foi Lorenzo.
Minha avó começou a chorar com mais força.
Christian passou a mão pelo rosto e olhou para a porta. Quando voltou a se virar, seus olhos estavam vermelhos.
— Ele sentava com a gente — disse. — Conversava sobre a família. E a senhora sabia.
Helena não conseguiu responder.
Sentei porque minhas pernas já não estavam firmes. Apoiei os cotovelos nos joelhos e baixei a cabeça, tentando organizar uma respiração que continuava curta.
Senti a mão de Christian em meu ombro.
Fiquei quieto por alguns segundos antes de conseguir olhar novamente para ela.
— Onde estão os documentos?
Minha avó pareceu demorar a compreender a pergunta.
— Eu preciso procurar…

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