(Um cap. gigante para começarmos organizar essa bagunça caso tenha ficado alguma dúvida ou controversia me avisem;...) Desculpem!!
POV/DIEGO
Recebi a confirmação da transferência depois de pedir que a área responsável separasse o registro da solicitação do comprovante de execução.
Até então, tínhamos discutido um pedido extraordinário e a orientação de Nathan para que não prosseguissem sem revisão. Aquilo não esclarecia o que tinha acontecido depois.
O documento seguinte esclareceu.
O dinheiro tinha saído.
Lorenzo autorizara o prosseguimento da operação.
Li a identificação do responsável e voltei ao pedido de Nathan. A objeção estava registrada. Ele não tinha aprovado uma transferência; tinha questionado a movimentação e solicitado a avaliação de quem possuía competência para decidir.
Lorenzo tinha decidido seguir.
Peguei o telefone e liguei para Rocco.
— A transferência de quase um bilhão foi concluída.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Confirmaram o pagamento?
— Confirmaram. E a autorização de Lorenzo.
Ouvi Christian perguntar alguma coisa perto dele. Rocco colocou a ligação de forma que os dois acompanhassem, e expliquei o que tínhamos recebido.
Não atribuí àquela operação todas as irregularidades anteriores. Ela precisava ser tratada como um pagamento recente comprovado, cuja documentação nos permitia verificar a justificativa, o favorecido e a sequência de autorizações.
Foi essa verificação que ajudou a ampliar a conferência.
A auditoria já estava em andamento. Christian tinha solicitado originais, comprovantes e identificação dos responsáveis antes de tudo aquilo. Sakura havia fotografado diferenças que ele reconhecera em relatórios preliminares.
Agora dispúnhamos de uma operação concreta para comparar com os registros relacionados.
Reuni as equipes responsáveis e pedi que cada conclusão permanecesse ligada ao documento que a sustentava. Não queria receber uma relação de nomes acompanhada da palavra suspeito sem saber por quê.
Nathan organizou os projetos que conhecia. Sakura comparou suas fotografias com os materiais antigos e os relatórios que chegavam.
Eu coordenava os pedidos, cobrava respostas dos setores e encaminhava o que exigia avaliação especializada.
Christian me contou que Otávio estava vivo antes de me entregar a responsabilidade de organizar documentos ligados a ele. Escutei a explicação numa conversa reservada e demorei a encontrar uma pergunta que não fosse uma repetição.
Não sabia onde ele estava.
Não precisava saber para compreender a importância do material que examinávamos.
As provas antigas mostravam que o problema existia antes da morte do pai de Rocco. A auditoria precisava estabelecer o que tinha acontecido depois.
Parte das divergências recebeu explicação.
Havia aditivos, pagamentos posteriores à execução e erros de classificação que se esclareciam quando o documento correto era localizado. Mantivemos essas respostas no relatório. Eu não queria que uma operação legítima fosse tratada como fraude apenas porque aparecia perto de outra irregular.
Outras verificações terminaram de forma diferente.
Os pagamentos estavam comprovados, mas os serviços apresentados para justificá-los não correspondiam ao que os registros de execução demonstravam. As respostas dos setores, os documentos dos projetos e a conferência técnica permitiram identificar operações sem prestação real do objeto cobrado.
Não era apenas uma assinatura faltando.
Havia dinheiro pago por trabalho que não tinha sido feito.
Os favorecidos apareciam ligados a Gouveia e Lacerda. A identificação de cada empresa permanecia nos comprovantes, acompanhada da documentação que demonstrava o vínculo.
Quando reunimos um conjunto consistente, pedi que Rocco e Christian viessem.
Sakura estava ao lado de Nathan quando entraram. Fechou uma das pastas, esperou que se acomodassem e me entregou a sequência que tínhamos organizado.
Comecei pela transferência recente.
Depois mostrei por que a análise não terminava nela.
Havia pagamentos relacionados, distribuídos por períodos diferentes e apresentados sob justificativas semelhantes. Os documentos antigos de Otávio e as referências preservadas pelo pai de Rocco ajudavam a reconhecer o início de parte da estrutura. Os registros posteriores demonstravam sua continuidade.
Rocco se inclinou sobre o relatório.
— Isso alcança a minha administração.
— Sim.
Ele permaneceu olhando para a página.
Christian aproximou outra folha.
— E estes recebimentos?
Chegamos à parte inglesa.
A documentação interna dos negócios que Christian administrava, os registros financeiros recuperados e as comunicações comerciais permitiam relacionar parte dos ingressos às operações examinadas. O que não podia ser demonstrado apenas com o material disponível permaneceu separado para os pedidos cabíveis.
Não tínhamos acesso irrestrito às contas de todas as pessoas envolvidas.
Mas já conseguíamos estabelecer, nas operações conferidas, a ligação entre saídas brasileiras, empresas intermediárias e recursos que abasteciam os negócios ingleses ligados a Lorenzo.
Os pagamentos daqui eram apresentados como serviços terceirizados. Parte dos ingressos de lá aparecia sob outras justificativas comerciais.
Christian percorreu uma das relações com os olhos.
— Eu conheço esse recebimento.
Esperamos.
Ele olhou para Rocco antes de continuar.
— Estava nos recursos disponíveis. Eu organizei compromissos contando com esse dinheiro.
Meu amigo se recostou devagar.
Não tentei reduzir a descoberta a uma frase sobre culpa ou inocência. O conhecimento e a participação de cada administrador precisavam ser apurados.
O que demonstrávamos naquele conjunto era a atuação de Lorenzo nas autorizações e nos encaminhamentos que sustentavam o percurso identificado.
Sakura puxou uma das fotografias antigas.
— Essa referência apareceu primeiro aqui. Na época, eu só tinha duas descrições diferentes. Agora temos o contrato, a justificativa apresentada e os documentos da execução.
Nathan indicou o ponto seguinte.
— O serviço real desse projeto está registrado. O que foi cobrado nesta operação não faz parte dele.
Rocco leu antes de perguntar:
— E a repetição ao longo dos anos?
Mostrei o alcance da verificação.
As operações já conferidas atravessavam os períodos anteriores e posteriores à tragédia. O volume acumulado alcançava bilhões, mas os totais permaneciam associados aos respectivos documentos e ao estado de cada análise.
Não acrescentei à soma tudo o que ainda precisava ser esclarecido.
Rocco passou a mão pela barba e ficou em silêncio.
Pensei no pai que tinha perdido e nos documentos que ele tentava compreender agora. Meu amigo não me disse o que estava sentindo, mas precisou apoiar as mãos na mesa antes de continuar.
— Eu quero saber quem deveria conferir isso em cada etapa.
Assenti.
— Estamos identificando.
— E quem foi informado, quem questionou e o que aconteceu com a pergunta depois.
Nathan olhou para o registro de sua objeção.
Aquela também era parte da história.
Ao encerrarmos, Rocco pediu que a equipe jurídica recebesse o conjunto validado e as pendências com clareza. As medidas para impedir novas operações semelhantes seriam tratadas dentro das competências e autorizações da empresa, sem esperar a auditoria inteira terminar.
Christian permaneceu sentado por mais alguns segundos.

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